03 agosto 2017

Opinião: Confissões (Kanae Minato)


Editora: Suma das Letras (2016) 
Formato: Capa mole | 216 páginas 
Géneros: Thriller

Confissões de Kanae Minato não é propriamente um livro de mistério, uma vez que não existe nada para desvendar. Existe um crime (ou vários, na verdade), mas os culpados são imediatamente aparentes.

Tudo começa quando Manami, uma rapariga de 4 anos, aparece morta na piscina de uma escola preparatória. Manami é filha de uma das professoras da escola e, um dia antes de se retirar, a professora discursa em frente da sua turma e revela que sabe que Manami foi assassinada e por quem. Diz também que, uma vez que segundo o sistema de justiça japonês os assassinos não podem ser "propriamente" julgados pelos seus crimes, que ela decidiu vingar-se dos culpados.

A forma como o faz vai despoletar uma série de acontecimentos na pequena comunidade. Desde os alunos culpados aos pais, colegas e outros que tais, este livro mostra o lado mais negro da alma humana e como as nossas experiências nos definem de forma infelizmente, muito decisiva.

Intenso, perturbador, um thriller na verdadeira acepção da palavra. "Confissões" conta a história de um crime hediondo, perpetrado por razões hediondas e de como o ódio, o ressentimento e a vingança geram mais ódio, ressentimento e vingança, criando um círculo inquebrável que vai destruir vidas numa pequena cidade rural japonesa.

Contado a várias vozes, permite-nos entrever motivos diversos, de diversas personagens, alguns mais repugnantes do que outros, mas todos estranha e assustadoramente humanos.

No geral, um livro bastante assustador por parecer tão real. As personagens não são estereótipos como tantas hoje em dia. São muito humanas, tão maliciosas sem serem efetivamente más.

Recomendo.

Detalhes da versão original:
Título: 告白 [Kokuhaku]
Ano: 2008

23 julho 2017

Opinião: Ao Fechar a Porta (B.A. Paris)

Ao Fechar a Porta de B.A. Paris
Editora: Editorial Presença (2017)
Formato: Capa mole | 264 páginas
Géneros: Thriller
Sinopse.

Atenção: SPOILERS

A vontade de escrever opiniões teima em não regressar (assim como a vontade de ler muito, suponho), mas cá estou, escrevendo mais uma.

Parece que estou a cair no cliché de ler thrillers no verão. Assim, adquiri este porque, pela sinopse, me pareceu um interessante estudo sobre uma vertente muitas vezes não explorada da violência doméstica: o abuso psicológico.

Quando vi o tamanho do livro (menos de 300 páginas), fiquei um bocado receosa (e com razão). Mas lá chegaremos; primeiro, uma pequena sinopse, como sempre.

Grace e Jack são o casal perfeito. Ele é um advogado de sucesso em casos de violência doméstica, que nunca perdeu um caso; ela, uma esposa e dona de casa esmerada que sabe dar as melhores festas. Com uma boa casa, dinheiro suficiente para uma vida desafogada e o que parece ser verdadeira afeição, amigos e familiares concordam: Grace e Jack têm tudo para serem felizes. Mas será que tudo é tão maravilhoso como aparenta ser?

Ao Fechar a Porta assenta numa premissa muito simples: aquilo que aparenta ser uma vida perfeita é, na verdade, um pesadelo. Ao melhor estilo dos filmes para a TV de segunda categoria, Jack é realmente um psicopata charmoso, que conseguiu enganar Grace durante os tempos de namoro e que agora se diverte a torturá-la psicologicamente, mantendo-a, virtualmente, uma prisioneira na sua casa, enquanto espera pela sua verdadeira presa: a irmã de Grace, Millie, que sofre de Síndrome de Down e que irá viver com eles depois de atingir a maioridade.

A premissa é um bocado irrealista e a execução deixa muito a desejar. O livro mergulha-nos de cabeça na trama, abrindo com o casal modelo a dar uma pequena festa em casa, para alguns amigos. Mas assim que a porta se fecha (lá está), Jack tira a sua máscara e torna-se controlador, zombeteiro e cruel. Grace nada consegue fazer para se libertar.

Em suma, é um bom livro para se ler sem se pensar muito no enredo. Ele presta-se a isso mesmo: é pequeno, com capítulos curtos e o ritmo da ação nunca esmorece. É por isso que é fácil não pensar muito nas falhas de caracterização das personagens (que são mais caricaturas e estereótipos do que outra coisa) e da história (que nunca é assim muito desenvolvida ou particularmente realista). É um livro que nos agarra logo no início, com os extremismos de Jack e o sofrimento de Grace e nunca mais nos larga durante as horase dias tortuosos da nossa protagonista enquanto esta tenta escapar ao seu captor e salvar a irmã de um destino indescritível.

A tensão, como disse, ajuda a folhear o livro com rapidez e a ignorar as falhas gritantes: como nunca ninguém (ou quase ninguém) percebe que a fachada é demasiado perfeita ou que Grace nunca tem tempo para os amigos apesar de não trabalhar, entre outras coisas. Suponho que se Grace e Jack não tivessem amigos, seria mais fácil de engolir; geralmente, as pessoas não se interessam por estranhos, mesmo que sejam vizinhos. Pelo menos, não realmente. São capazes de engendrar mexericos, no entanto, e muita gente vive para isso, especialmente quando os alvos fazem inveja com as suas vidas aparentemente perfeitas. Assim, a inação da vizinhança e sobretudo dos amigos, não faz muito sentido.

No entanto, falhas no enredo à parte, esta foi uma leitura rápida, viciante e satisfatória. É um thriller no mais puro sentido da palavra e é competente a deixar o leitor com as emoções à flor da pele e a querer saber o que se vai passar a seguir. 

Detalhes da versão original:
Título: Behind Closed Doors
Ano: 2016

27 maio 2017

Opinião: The Raven Boys (Maggie Stiefvater)

Editora: Scholastic Press (2012) 
Formato: e-book | 312 páginas 
Géneros: Mistério, Literatura YA, Fantasia Urbana 

Houve uma altura na minha vida em que achava imensa piada a livros ou séries para jovens adultos (YA ou Young Adult, no original). Isto porque achava (e ainda acho), que os autores deste tipo de livros têm de se esforçar mais para manterem os seus públicos interessados porque... bem, como sabemos, os livros competem, hoje em dia, com a televisão e os jogos de computador.

Mais tarde, depois de ler um número considerável de livros para esta faixa etária (entre os 14-20 anos, mais ou menos), descobri que muitos partilham dos mesmos elementos e que isso parece ser mais ou menos suficiente para cativar as massas adolescentes.

O que muitos destes livros têm, quer sejam contemporâneos, históricos ou fantásticos é uma história de amor dramática à qual é dada muita proeminência.

Com o passar do tempo, fui desistindo um pouco da literatura YA, mas há alturas em que volto a elas. Como nesta ocasião, para ler o primeiro livro na aclamada série de







21 maio 2017

Opinião: Escrito na Água (Paula Hawkins)

Editora: Topseller (2017) 
Formato: Capa mole | 384 páginas 
Géneros: Mistério, Thriller 

"Escrito na Água" é o mais recente livro de Paula Hawkins, autora do bestseller "A Rapariga no Comboio" (Topseller). Devido ao massivo sucesso do seu primeiro livro, Hawkins viu a sua oferenda literária ser lançada mundialmente no dia 2 de maio. Portugal não foi exceção e devo dizer que a sinopse me cativou o suficiente para comprar o livro logo no primeiro dia, apesar de, como os que me conhecem melhor sabem, thrillers não serem exatamente o meu género preferido.

Tal como o seu predecessor, "Escrito na Água" é então um thriller e tem como pano de fundo uma zona rural de Inglaterra. Ao contrário de "A Rapariga no Comboio", no entanto, este segundo livro não tem uma personagem principal claramente definida (ou melhor, tem, mas trata-se da vítima), sendo composto pelos pontos de vista de diversas personagens.

Fiquei um bocado desapontada com este livro. Pela sinopse, pensei que o mistério teria um pendor vagamente sobrenatural (não verdadeiramente, isto é um thriller, não fantasia, mas devido às crenças populares), mas a autora não se focou muito nesse aspeto.

Nel Abbott sempre viveu obcecada com o rio que passa na sua vila. Para ela o rio era tudo e a sua história era um motivo de investigação frenética. Mas agora, Nel morreu, um aparente suícidio, apenas mais uma morte num rio cujas águas já levaram a vida de muitas mulheres. Mas será que Nel se suicidou realmente? Ou será que alguém com algo a esconder, algo que a investigação de Nel ameaçava levar à luz?

Como disse anteriormente, Nel Abbott é, mais ou menos, a protagonista desta história. Apesar do livro começar com a sua morte, são as mudanças e segredos descobertos que este acontecimento despoleta que são o tema central do livro. Narrado a muitas vozes (Jules, a irmã de Nel, Lena, a filha de Nel, Sean o detetive, Louise, cuja filha também escolheu afogar-se no rio e outros habitantes da vila), são elas que constituem a tapeçaria da história, que vão formar o enredo.

Geralmente  não sou muito fã de livros narrados por diversas personagens, pois considero que é uma distração, pois muitas vezes os autores não conseguem imprimir personalidades vincadas e diferentes o suficiente às suas personagens para que resulte. E foi este o caso com "Escrito na Água". Cada capítulo é narrado por uma ou outra personagem, na primeira pessoa, mas nunca senti realmente que se tratavam de personagens diferentes. Porque todas elas "soavam" parecidas; se isso faz sentido.

No entanto, isto nem foi o que me desagradou mais. O que me desagradou mais foi mesmo o facto de a autora nos dar uma história tão interessante sobre o rio (um local onde afogavam "bruxas" e mulheres problemáticas) e no final, o mistério ter uma resolução tão prosaica, tão... normal. Tão pouco relacionada.

Mas, claro, isto é apenas uma preferência pessoal. Não tem nada a ver com a qualidade do mistério ou da narrativa, com a qual tive alguns problemas também, como referi acima quando falei dos múltiplos pontos de vista. Devo dizer que para além de não ter captado grande diferença entre as vozes das diversas personagens, também tive alguns problemas com as suas motivações e atitudes... simplesmente não me pareceram realistas ou particularmente humanas. Não posso aqui falar muito sem "spoilar" o livro, mas digamos que certas ações de Sean e de Lena e os seus comportamentos posteriores não me pareceram assim muito possíveis (a não ser que a vila tenha um número anormal de psicopatas no seu seio).

Enfim, no geral, foi uma leitura rápida e relativamente interessante. A autora não seguiu a via que, no meu humilde entender, tornaria a narrativa mais apelativa, mas mesmo assim não me custou ler este "Escrito na Água". É um thriller competente e "pipoca", que vai certamente agradar aos fãs do género. Eu só gostaria que tivesse tido um pouco mais de profundidade (perdoem-me o trocadilho) e desenvolvimento. Não há realmente muito que distinga este livro de um qualquer mistério passado numa cidade pequena. 

Detalhes da versão original:
Título: Into the Water  
Ano: 2017

10 julho 2016

Opinião: A Rapariga que Sabia Demais (M.R. Carey)

A Rapariga que Sabia Demais de M. R. Carey
Editora: Nuvem de Tinta (2016)
Formato: Capa mole | 440 páginas
Géneros: Fantasia Urbana
Sinopse

ATENÇÃO: contém spoilers (mínimos, mas têm de existir para poder escrever sobre o livro)

Ok, como já disse milhentas vezes, zombies não são a minha praia. Mas este livro parecia interessante porque pensei que me mostraria algo novo no género. E mostrou; mais ou menos.

Reino Unido, futuro (próximo?). Melanie vive para os dias em que a professora Justineau dá aulas. Juntamente com uma turma de rapazes e raparigas, Melanie aprende as mais variadas coisas com diversos professores. Mas é aí que acaba a normalidade: a escola fica dentro de um complexo onde Melanie também vive... numa cela. Para sair, tem de ser amarrada a uma cadeira de rodas por militares; e é também amarrada que assiste às aulas.

Melanie não se lembra da sua vida antes da base mas sabe que se sente feliz quando a professora Justineau lhe lê contos e mitos gregos, especialmente o de Pandora: a mulher que abriu uma caixa proibida porque era o seu destino. Qual será o destino de Melanie?

Desde o início é bastante claro que a Melanie não é uma criança normal. Ela é um génio, compreende conceitos que a maioria das crianças de 10 anos não compreendem. Ao mesmo tempo, tem reações de criança, como apegar-se à figura maternal da professora Justineau.

O livro começou bastante bem. Todo o enredo está organizado de forma a que o leitor se questione acerca do propósito das experiências que ocorrem, muito obviamente, na base. Experiências com crianças... o que pode justificar isso?

O autor dá-nos a resposta em breve. E é aí que o livro descamba. Passa de mistério científico, de um desenrolar pausado e introspetivo da narrativa da vida de Melanie e dos que a rodeiam para luta pela sobrevivência e ação non-stop. Perde a sua profundidade aí. As personagens polarizam-se (em termos de apresentarem comportamentos estereotipados) e passa a ser mais um livro de fantasia urbana.

O final é extremamente anti-climático. Algumas pessoas acharam incrível, mas sinceramente, achei que era uma saída simplista, um corte abrupto.

No geral, um livro que poderia ter sido muito mais. Teve um começo forte, estava empenhada em descobrir o que se passava com Melanie, o mundo das personagens, como se justificava o que acontecia... mas tudo isto é abandonado quando as personagens abandonam a base. Algo desapontada, apesar de ter gostado da leitura. Só achei que este livro poderia ter sido mais especial se não tivesse tentado agradar a todos os tipos de leitores: a os que queriam mais ação e aos que queriam mais introspeção. Ficou ali no meio e acabou por não encher as medidas.

02 julho 2016

Opinião: Sundiver (David Brin)

Editora: Bantam (2010) 
Formato: Capa mole | 340 páginas 
Géneros: Ficção Científica 

(Nota: a edição apresentada não corresponde à que está a ser lida, porque estou a ler um livro com a trilogia completa). 

Já há algum tempo que ando para ler David Brin. Na verdade, desde que peguei, há muitos anos, num dos livros dele, publicados pela Europa-América que o meu pai tem lá por casa e li sobre golfinhos sencientes! 

Acho que acabei por não ler o livro todo, mas quando me deparei com uma edição 3 em 1 da trilogia original "Uplift" (Elevação), não resisti a comprar.

O primeiro livro, intitulado, "Sundiver" abre com o nosso protagonista a fazer experiências no sentido de modificar os golfinhos de forma a que estes sejam "elevados" ao nível dos seres humanos. Mas cedo, o protagonista (cujo nome eu não me lembro, e nem estou a brincar) é chamado como "consultor" numa outra experiência: humanos estão a realizar uma das experiências mais incríveis de sempre: uma expedição ao Sol. Mas surgiram problemas e, então, o nosso herói (mas como é que ele se chama, pá?) é chamado a investigar.

Devo dizer que não fiquei grandemente impressionada com este primeiro livro. Tem uma premissa tão boa, mas desperdiça-a para se focar num mistério desinteressante e algo simplista.

A premissa geral é a seguinte: a Humanidade estabeleceu contacto com centenas de espécies na Galáxia que, como eles, respiram oxigénio. E descobriu, no processo, que ao contrário dessas espécies fogem ao padrão estabelecido há muito pelos misteriosos Progenitores: as espécies sencientes "elevam" outras espécies (pré-sencientes) para um estado de senciência, criando laços reminiscentes de uma sociedade feudal: os que elevam são os benfeitores e os elevados são, durante algum tempo, seus "clientes", no sentido de lhes deverem a senciência. 

Todo este processo é registado numa Biblioteca galáctica que contém informações sobre as espécies da Galáxia e sobre todo o seu conhecimento tecnológico, científico, filosófico, etc. Como tal, nesta sociedade galáctica todo o saber é reciclado.

Os humanos, como não podia deixar de ser, são diferentes. Não se conhecem benfeitores para esta raça e tudo indica que evoluiram da pré-senciência para a senciência naturalmente. Darwin e tudo o mais.

E agora, os humanos estão a levar a cabo experiências, algo que as outras espécies não compreendem: para quê experimentar, se já está tudo na Biblioteca? E a tal expedição ao Sol é mais uma dessas experiências.

O enredo bem se podia focar num destes interessantes pontos: onde estão os benfeitores dos terráquios? Será que evoluímos mesmo sozinhos? 

Ou mesmo: será que o Sol é habitado? Porque parece ser essa a conclusão a que chegam os investigadores. E serão os habitantes do Sol os benfeitores da Terra?

Mas não. O enredo tem contornos bem mais simplistas e nenhuma das temáticas acima é abordada. Na verdade este livro é um... mistério.

E nem sequer é um bom mistério. O livro parece estar a descrever uma investigação científica normal até o protagonista ter um momento eureka e dizer a todos "juntem-se na sala X" e, depois, explicar a todos como fulano e sicrano fizeram isto e aquilo. O leitor nunca saberia que algo estava errado se o protagonista não o dissesse! Não há processo de investigação, suspense, nada. Num momento temos uma explosão suspeita, no seguinte o protagonista dá-nos uma solução.

As personagens também estão bastante mal exploradas; são estereótipos e nenhuma prima pela complexidade.

No geral, um primeiro livro bastante fraco. Poderia ter explorado tantas coisas interessantes, que o facto de se ter focado num mistério corriqueiro de "quem está a tentar sabotar a missão de exploração dos seres humanos" foi sinceramente desapontante.

23 junho 2016

Opinião: Uma Noite para se Render (Tessa Dare)

Uma Noite para se Render de Tessa Dare
Editora: Topseller (2016)
Formato: Capa mole | 320 páginas
Géneros: Romance histórico
Sinopse.

(Nota: a edição lida foi a inglesa, mas apresentam-se os dados da portuguesa)

Uma Noite para se Render, o primeiro livro da série Spindle Cove, de Tessa Dare, foi já uma leitura do ano passado. Na verdade, comprei a versão original deste livro porque a autora, apesar de nunca ter sido uma das minhas favoritas, é bem cotada entre os leitores de romance histórico e parece ter ideias originais para os seus livros.

Infelizmente, não fiquei grandemente impressionada com esta leitura (assim como já não tinha ficado impressionada com a anterior).

Penso que parte do problema se deve ao facto de eu já ter lido muitos livros dentro deste género; como tal, tenho menos tolerância para os estereotipos que povoam este tipo de obras. E um livro, como este, que acumula tantos clichés é particularmente irritante. Ora, vejamos, temos:

 - Um heroi alto, belo e forte que é torturado pelo facto de não poder voltar para a guerra (pois sofreu um ferimento que impede essa possibilidade) para fazer coisas "másculas" como dar ordens ao seu pelotão, lutar e gritar de forma viril (a la Braveheart ou algo do género);

- Uma heroina que é supostamente "independente" (notem as aspas), especialista nas artes de curar e Muito Competente (tm)... ou seja, uma Mary Sue. Ela ainda é solteira apenas porque é, imagine-se, demasiado alta (e bela, claro) para os padrões do século XIX... afinal, o que se quer por estas alturas são mulheres sem graça e inteligência (e, aparentemente, baixas). A nossa heroina é também torturada, porque, woe, para além de ser uma solteirona tem também problemas com o pai;

- Paixão desmesurada à primeira vista (um olhar e pimba... quero mesmo ir para a cama com ele/ela, ai nunca me senti assim) que serve de base para a história de amor;

- A nossa heroina que supostamente é independente e inteligente, quer secretamente ser dominada por um homem (e não apenas na cama, em todos os aspetos da vida... se fosse só na cama, não me faria tanta impressão);

- O nosso heroi é muito macho e tem muito pensamentos/fantasias de dominância, quer resolver tudo com lutas e é daqueles que gosta da carne mal passada (agora repitam comigo: Arrrr! e imaginem um homem com uma espada na boca);

- A opinião geral de que solteironas inteligentes e criativas precisam mesmo é de um homem machão que as domine (yuck, much?);

- Zero porcento de química entre os protagonistas;

- O enredo (o pouco que há... este livro é maioritariamente composto por uma quase interminável cena de sexo, interrompida por alguns acontecimentos pelo meio) e a narrativa seguem padrões tão previsíveis que a leitura me aborreceu em diversos momentos;

Acho que é bastante óbvio que não gostei assim muito deste livro. Já não é o primeiro da autora que leio e, apesar dos primeiros livros dela (os mais antigos) até terem a sua graça, os últimos têm pendido para a categoria de "tempo perdido". O foco na lúxuria instantânea dos protagonistas é sinceramente aborrecido e, apesar de a escrita ser competente, penso que as personagens e o mundo parecem demasiado "modernos" por vezes, o que estraga também a leitura. Tenho sempre a sensação de que a autora está a tentar fazer algo (ou dizer algo) com as suas heroinas, mas nunca lá chega porque quem vence sempre (ou os valores que vencem sempre) são os dos seus "homens medievais".

Penso que continuarei a ler livros desta autora no futuro (quanto mais não seja porque já comprei mais livros dela, antes de ler este malfadado livro), mas não espero muito.

No geral, não é das autoras que mais recomendaria para quem quer algo diferente dentro dos romances históricos. E, sim, é possível escrever um livro focado no romance e mesmo assim abordar temas interessantes ou relevantes. Veja-se o caso de A Loucura de Lorde Ian MacKenzie, editado em Portugal pela Topseller: é um romance histórico, mas foca-se num tema pouco explorado neste género, a Síndrome de Asperger. E mesmo que os livros sejam puramente romances históricos, sem temas mais sérios, podem ser bons, explorar melhor as personagens, criar uma química mais verosímil e um romance mais realista. Como os romances de Sherry Thomas, por exemplo. 

Se querem uma leitura leve e familiar (cheia de clichés), apostem neste livro. Se, como eu, já são leitores calejados neste género e querem algo diferente, não o recomendo. Mas, como digo, uma opinião vale o que vale. O melhor mesmo é experimentarem. :) 

*Esta opinião foi adaptada da minha crítica original em inglês, publicada no Goodreads em 2015.


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