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28 janeiro 2014

Opinião: Three Parts Dead (Max Gladstone)

Editora: Tor Books (2012)
Formato: e-book | 336 páginas
Géneros: Fantasia Urbana, Ficção Científica, Steampunk, Fantasia
Descrição (GR): "A god has died, and it’s up to Tara, first-year associate in the international necromantic firm of Kelethres, Albrecht, and Ao, to bring Him back to life before His city falls apart.
Her client is Kos, recently deceased fire god of the city of Alt Coulumb. Without Him, the metropolis’s steam generators will shut down, its trains will cease running, and its four million citizens will riot.
Tara’s job: resurrect Kos before chaos sets in. Her only help: Abelard, a chain-smoking priest of the dead god, who’s having an understandable crisis of faith.
When Tara and Abelard discover that Kos was murdered, they have to make a case in Alt Coulumb’s courts—and their quest for the truth endangers their partnership, their lives, and Alt Coulumb’s slim hope of survival.
Set in a phenomenally built world in which justice is a collective force bestowed on a few, craftsmen fly on lightning bolts, and gargoyles can rule cities, Three Parts Dead introduces readers to an ethical landscape in which the line between right and wrong blurs."
Three Parts Dead parece, à primeira vista, um livro de fantasia urbana. A capa e a sinopse parecem apontar para mais uma aventura de mais uma heroína que mete seres sobrenaturais. Mas quando o leitor inicia a leitura, desengana-se rapidamente: este é um livro de fantasia, passado num mundo diferente e com um sistema de magia francamente interessante.

A história passa-se na cidade de Alt Coulumb, onde o deus Kos, a Chama Eterna reina sobre fornalhas e geradores movidos a vapor. A função dos seus sacerdotes não é apenas rezar ao seu deus mas também manter estes aparelhos, que por sua vez mantêm a cidade, em boas condições. Quando o Kos morre, a "Artesã" Tara acompanha a sua chefe à cidade para o ressuscitar.

Achei o sistema de magia deste livro fenomenal e imaginativo. Os deuses são entidades que nascem da fé dos crentes e que trocam a sua magia e proteção sob a forma de contratos. Quanto mais seguidores o deus tiver, mais poder tem. Se o deus fizer contratos que se estendem para além dos limites dos seus poderes, morre.

Os humanos, por sua vez, têm acesso à magia através da "troca" ou utilização da sua "soulstuff" (literalmente "substância da alma") e complementam este poder com o poder que lhes é dado pelos elementos. Tara e a sua chefe, a firma Kelethres, Albrecht, and Ao são contratados pelo Templo de Kos para ressuscitar o deus. Infelizmente, para isso têm  de analisar os contratos feitos pelo mesmo pois o nível de autonomia e poder futuros de Kos dependem da sua "culpa" na sua própria morte (se passou dos seus limites).

O autor dá-nos também alguma história sobre os estudos dos humanos sobre a magia (Craft) e como estes descobriram que tinham acesso ao mesmo tipo de poder dos deuses. Fala-nos dos Reis Imortais, que vivem graças à sua magia, transformando-se em esqueletos com o passar do tempo. Fala-nos também numa guerra entre deuses e mortais por esse mesmo poder e devido a uma tentativa dos humanos de suplantarem os deuses.

Como disse, um sistema de magia notável e muito interessante. O enredo em si é engraçado, com a narrativa dividida entre diversas personagens (mas de uma forma que não se torna irritante ou a narrativa fragmentada). Estas narrativas vão dando pistas ao leitor sobre o que se passou realmente com Kos embora algumas das revelações finais tenham sido uma surpresa porque me parece que o autor não incluiu qualquer indícios sobre o que se ia passar.

O resto da construção do mundo é que deixa um pouco a desejar. Parece que o autor gastou todas as suas ideias na elaboração do seu sistema de magia, porque o mundo é muito... planeta Terra no século XXI mas estranhamente com navios com velas. Temos arranha-céus, clubes noturnos e discotecas, saltos altos, uma figura da Justiça bastante reminiscente da nossa e mesmo vampiros!. Ou seja, o resto do mundo peca pela falta de originalidade.

Ainda assim, Three Parts Dead foi uma leitura interessante. Tem personagens carismáticas, jogos de astúcia entre o vilão e os heróis e um sistema de magia francamente interessante. Recomendado para os amantes de fantasia [urbana].

16 janeiro 2014

Curtas: The Alloy of Law e Frostfire

Eis que chega a primeira edição das curtas de 2014. Os dois livros seguintes foram leituras... agradáveis, mas têm em comum o facto de estar à espera de muito, mas muito mais. E, claro, ter ficado algo desiludida.

Editora: Gollancz (2012)
Formato: Capa Mole | 327 páginas
Género: Fantasia

The Alloy of Law tem lugar cerca de 300 anos depois dos acontecimentos da trilogia Mistborn. Estes três livros foram dos meus favoritos em 2013 pelo que estava à espera de "amar" este livro. No entanto, apesar de ter sido uma leitura interessante (foi giro ver como é que a sociedade fantástica da trilogia original evoluiu e como é que aquilo que a Vin, o Elend e o Sazed fizeram impactaram as gerações futuras), achei que Sanderson foi um bocado para o preguiçoso. O mundo de Mistborn, 300 anos mais tarde parece-se com... a Inglaterra dos tempos vitorianos, com algum Steampunk à mistura e uma tentativa fraquita de adicionar elementos do Faroeste. 

Quanto à ideologia e mitologia, o autor não explora muito esta vertente, o que é pena porque foi o que mais gostei na trilogia anterior. Há algumas referências a combinações entre a Alomância e a Feruchemância mas pouco mais.

Dá a sensação de que The Alloy of Law é um conto, onde o que interessa é a ação imediata e pouco mais. O mundo e as personagens não foram grandemente desenvolvidos. 

No geral, não me convenceu e fiquei desapontada com este livro. Foi uma leitura agradável, cheia de ação e armas, mas pouco mais do que isso. O final pareceu-me... incompleto.



Editora: Walker (2012)
Formato: Capa Mole | 439 páginas
Género: Fantasia

Já há algum tempo que ando para ler as obras de Zoe Marriott. Tenho alguns dos livros dela nas estantes, que fui comprando devido às muitas opiniões positivas sobres os mesmos.

Talvez tenham sido as altas expetativas que estragaram um pouco a minha leitura deste livro, mas a verdade é que não o achei assim tão bom como isso. A premissa é interessante: uma rapariga está possuída pelo espírito de um demónio-lobo e por isso vive uma vida solitária, com medo de magoar outras pessoas. Um dia é capturada pela guarda das montanhas do reino de Ruan, e conhece dois jovens que a farão mudar de ideias relativamente à sua solidão auto-imposta.

Este livro é bastante genérico. O mundo fantástico é genérico, as personagens são muito estereotipadas (um dos protagonistas é "perfeito" e o outro é "torturado") e claro, há um triângulo amoroso.

A autora nem explorou convenientemente (na minha humilde opinião), a parte sobrenatural do enredo! 

Para balançar, a nossa heroína usa um machado de guerra, yay. Mas no geral, este livro foi... genérico. Nada de especial, apesar de ter gostado da escrita. 

16 dezembro 2013

Opinião: Mistborn (Brandon Sanderson)

Mistborn: The Final Empire by Brandon Sanderson
Editora: Tor Books (2007)
Formato: Capa mole | 647 páginas
Género: Fantasia, Distopia
Descrição (GR): "Once, a hero arose to save the world. A young man with a mysterious heritage courageously challenged the darkness that strangled the land.
He failed.
For a thousand years since, the world has been a wasteland of ash and mist ruled by the immortal emperor known as the Lord Ruler. Every revolt has failed miserably.
Yet somehow, hope survives. Hope that dares to dream of ending the empire and even the Lord Ruler himself. A new kind of uprising is being planned, one built around the ultimate caper, one that depends on the cunning of a brilliant criminal mastermind and the determination of an unlikely heroine, a street urchin who must learn to master Allomancy, the power of a Mistborn."
AVISO: Alguns SPOILERS!
Não sei se isto vos acontece, mas para mim sempre foi mais fácil dizer mal de um livro do que dizer bem. Ou talvez, pondo as coisas em termos mais "agradáveis", sempre me foi mais fácil criticar do que elogiar. Não sei se isto é um problema geral da humanidade ou se eu simplesmente sou mazinha e chata, mas é verdade. Na verdade, penso que se prenderá com o facto de que, quando lemos um livro de que não gostamos, temos (ou eu tenho) tendência a ficar um pouco "presos" nos aspetos que não nos agradaram enquanto que quando lemos um livro de que gostamos... nos limitamos a gostar.

Toda esta conversa para dizer que a minha opinião geral de Mistborn é... OMG, que fixe! Basicamente. E que me é bastante difícil escrever algo concreto e minimamente (não nos esqueçamos que se trata de uma opinião) objetivo. Por isso, fiquem com isto para começar: gostam de fantasia? Leiam este livro.

Creio que, se tenho de apontar alguma falha (subjetivamente, pois suponho que deva ter falhas a nível 'técnico'... todos os livros têm, penso eu), diria que o começo algo lento será o maior problema deste primeiro livro da trilogia "Mistborn". De facto as primeiras, oh, 150 páginas arrastam-se e são algo aborrecidas. No entanto, o ritmo não tarda a acelerar (quando os protagonistas se encontram) e o livro torna-se muito mais interessante.

Devo dizer também que o final do livro foi um bocado anticlimático. O autor passou o livro todo a acumular tensão e depois o desfecho... soube a pouco. Ligeiramente.

De resto, "Mistborn" é certamente um dos meus livros preferidos de 2013. Tem ação, intriga, um mundo bem desenvolvido e imaginativo, personagens carismáticas e interessantes e até algum romance. A narrativa é empolgante e desenvolve-se a bom ritmo. As personagens crescem diante dos olhos do leitor.

O livro tem lugar num mundo fantástico onde um tirano imortal escraviza todo um povo. O mundo de Mistborn é um mundo quase estéril, onde plantar algo requer muito esforço e onde apenas alguns colhem os benefícios. Os "Skaa" (o equivalente aos camponeses/trabalhadores na Europa Feudal) trabalham quase vinte e quatro horas por dia, não são pagos (apenas em géneros... e mesmo assim mal) e ainda levam tareias se abrandarem o ritmo de trabalho. Do outro lado do espetro temos a nobreza, os exploradores de toda a terra e comércio. São os ricos, a classe privilegiada e quem fica com os frutos do trabalho dos Skaa.

Apesar desta disposição não ser propriamente original num livro de fantasia, gostei da forma como Sanderson a desenvolveu. O autor pega em diversas ideias e fundamentos com raiz histórica para explicar o seu sistema social. Os Skaa são vistos como inferiores (aos nobres) e quase como animais (tanto que matar um Skaa não é crime), o que me lembrou do racismo científico, uma doutrina que surgiu no século XVIII e que visava explicar porque é que os Europeus (brancos) eram superiores a outras raças. O mundo de Sanderson parece ter uma ideologia semelhante, que explica muitas das atrocidades cometidas contra grande parte da população.

Existe também a ideia de que se deve manter a "pureza do sangue", prevalecente durante tanto tempo entre as casas reais Europeias. No caso da "Dominância Central" e do "Último Império" (a designação do império comandado pelo Lord Ruler), isto prende-se com os poderes da Alomância (Allomancy em inglês... se o autor inventa, eu também invento) - um poder mágico que advém da "queima interior" (e figurada) de metais - que é, aparentemente hereditário.

E é aqui que entra uma das personagens principais, Vin a ladra. Vin é uma "Mistborn", uma 'maga' que pode utilizar todos os metais da Alomância para conseguir poderes. O seu pai é um nobre, mas não tem conhecimento dela porque os nobres têm de matar todas as mulheres Skaa com quem têm relações, para impedir que nasçam Skaa com poderes mágicos. É o envolvimento de Vin com a rebelião Skaa e com o enigmático Kelsier que é o centro deste primeiro livro. Mas já lá iremos.

Não posso deixar passar também toda a mitologia referente ao Lord Ruler, o imperador imortal. Na superfície ele é apenas um vilão que oprime o povo e os controla a todos mediante os Inquisidores, umas criaturas com estacas de metal enfiadas nos olhos (I kid you not). Mas, à medida que vamos lendo, vamos descobrindo que o Lord Ruler tem efetivamente um papel importante no mundo criado por Sanderson.

Está então construída a fundação de "Mistborn". A mitologia e desenvolvimento do mundo foram o que mais gostei neste livro. Claro que o enredo é interessante (ler sobre pessoas que enfrentam inimigos muito mais poderosos é sempre), mas gostei do facto de este livro ser... mais do que isso. Mais do que essa luta. É como o Shrek ou as cebolas... tem camadas.

Gostei da maioria das personagens. A Vin é uma personagem intrigante, com as suas inseguranças, que a tornam tão humana. Kelsier foi uma personagem que me irritou e me fez gostar dele à vez; não gostei particularmente da forma como manipulava as pessoas à sua volta, mas não posso negar que é uma personagem carismática. A única personagem que não achei nada de especial foi o Elend Venture.

No geral, um livro que recomendo vivamente a todos os amantes de fantasia. Correndo o risco de me repetir (mas vou mesmo, eh eh), "Mistborn" tem um pouco de tudo: ação, intriga, um mundo bem desenvolvido e imaginativo, personagens carismáticas e interessantes e até algum romance. É uma obra que se lê num ápice; assim que "entramos" na narrativa é quase impossível parar.

Conta para o:

15 dezembro 2013

Opinião: Pretty Guardian Sailor Moon, vols. 4-7 (Naoko Takeuchi)

Editora: Kodansha Comics (2012)
Formato: Capa mole | ? páginas
Género: Fantasia, Romance,  Lit. Juvenil/YA
Descrição (vol. 4): "A new group calling themselves Black Moon is after Usagi and the rest of the Sailor Guardians, wielding a new power known only as the Malefic Black Crystal. Chibi-Usa may be the key to it all, but to find the answers and rescue her kidnapped friends, Usagi will have to journey through time to the 30th century and discover what fate has in store. 
This new edition of Sailor Moon features: 
- An entirely new, incredibly accurate translation 
- Japanese-style, right-to-left reading 
- New cover art never before seen in the U.S. 
- The original Japanese character names 
- Detailed translation notes"
AVISO: SPOILERS para o anime e manga (pequenos)

No 4º volume de Pretty Guardian Sailor Moon continuamos a seguir a luta das Navegantes contra os misteriosos inimigos da Lua Negra. 

Tal como no anime, as Navegantes têm de enfrentar as quatro irmãs "da Caça" e o Ruby. Têm de proteger a Chibi-Usa do inimigo e tentar perceber qual o objetivo do mesmo.

Devo dizer que não gostei tanto do 4º volume como dos anteriores. Apesar de a história avançar consideravelmente (tudo se passa muito mais depressa do que no anime), penso que a falta de quase todas as Navegantes durante a maior parte do livro fez com que o apreciasse menos. A Usagi (Bunny) é um pouco irritante neste volume também. 

No 5º volume, as Navegantes (ou melhor, a Navegante da Lua) derrotam finalmente a Lua Negra e o seu vilão-mor, o Wiseman. O que achei interessante nesta história, foi a sensação de ter conseguido pormenores novos sobre a história. O porquê da Lua Negra (ou Nemesis) atacar o Cristal Tóquio é bastante mais lógico no manga; mais bem explicado. As origens do poder da Lua Negra são também mais evidentes. Gostei sobretudo de como as personagens (boas) não são completamente, 100% boazinhas... a Usagi tem ciúmes parvos e a Chibi-usa sente-se posta de parte e inútil e é por isso que se torna a Black Lady. No entanto, acho que a autora explorou a vertente emocional do enredo apenas de forma muito superficial; talvez seja porque acontece tudo "à velocidade da luz", mas teria gostado de saber mais sobre as motivações das personagens. Enfim. 

Outro aspecto de que gostei foi a "continuidade", relativamente à história anterior. As histórias no manga não são "estanques", as Navegantes recebem poderes e vão crescendo com o acumular de experiências. E claro, adorei o papel da Navegante de Plutão.

Os volumes 6 e 7, detalham a história da minha temporada favorita da Sailor Moon (no anime)... a temporada dos Death Busters. Mais uma vez, achei que os painéis estavam muito cheios e algo confusos, como se a autora tivesse espaço limitado para contar a história (e se calhar é verdade).

As Navegantes derrotaram a Lua Negra, mas um novo perigo aproxima-se. Luna e Artemis descobrem uma estranha fonte de energia em Tóquio, concentrada na Academia Mugen e estranhos monstros atacam os cidadãos da cidade. Ao mesmo tempo, novas guardiãs aparecem, mas estas misteriosas guerreiras não parecem querer nada com as Navegantes.

Apesar da temporada dos Death Busters ser muito diferente no anime e no manga, gosto igualmente das duas. O anime dura mais, claro, mas mesmo assim tive a sensação de que apreendi nuances da história, do "background" que não estão explicadas no anime. Por exemplo, no anime os Death Busters são apenas uns vilões que querem dominar a Terra e são cientistas. No manga, é-nos explicado porque é que eles querem dominar a Terra (para além do facto de serem maus e vilões e tudo o mais) e porque é que são cientistas (qual é o objetivo das experiências).

Também nesta temporada entramos na mente das personagens principais. As Navegantes sentem-se ameaçadas e fazem algumas coisas pouco recomendadas, as Navegantes da parte "Exterior" do sistema solar mostram como se sentiam com a sua missão (e aqui mostram alguma irritação com o seu papel e a sua missão; não são 100% dóceis e devotadas) antes de "renascerem" como humanas. E confesso que foi giro ver o Mascarado com ciúmes...

A temporada ou "arc" dos Death Busters só acaba no próximo volume, mas creio que tem tudo para se tornar, novamente, na minha favorita.

No geral, creio que o anime e o manga se complementam. O anime dá-nos ação e o manga dá-nos uma visão das lutas interiores das personagens e algumas informações que estão em falta no anime (como as motivações dos vilões). Recomendado para quem gosta de shojo e a não perder para fãs das Navegantes da Lua.

Outras opiniões: Pretty Guardian Sailor Moon, vol. 3
Fonte das imagens: The Oracle

06 dezembro 2013

Opinião: Luz e Sombra (Leigh Bardugo)

Luz e Sombra by Leigh Bardugo
Editora: Asa (2013)
Formato: Capa mole | 312 páginas
Género: Fantasia, Romance, Lit. Juvenil/YA
Descrição (GR): "Só ela consegue vencer as trevas... Rodeada por inimigos, a outrora grande nação de Ravka foi dividida em duas pelo Sulco de Sombra, uma faixa de escuridão quase impenetrável cheia de monstros que se alimentam de carne humana. Agora, o seu destino pode depender de uma só refugiada. Alina Starkov nunca foi boa em nada. Órfã de guerra, tem uma única certeza: o apoio do seu melhor amigo, Maly, e a sua inconveniente paixão por ele. Cartógrafa do regimento militar, numa das expedições que tem de fazer ao Sulco de Sombra, Alina vê Maly ser atacado pelos monstros volcra e ficar brutalmente ferido. O seu instinto leva-a a protegê-lo , e ela revela um poder adormecido que lhe salva a vida, um poder que poderia ser a chave para libertar o seu país devastado pela guerra. Arrancada de tudo aquilo que conhece, Alina é levada para a corte real para ser treinada como um membro dos Grishas, a elite mágica liderada pelo misterioso Darkling. Com o extraordinário poder de Alina no seu arsenal, ele acredita que poderá finalmente destruir o Sulco de Sombra. No entanto, nada naquele mundo pródigo é o que parece. Com a escuridão a aproximar-se e todo um reino dependente da sua energia indomável, Alina terá de enfrentar os segredos dos Grisha... e os segredos do seu coração."
(Li esta obra no inglês original, mas apresentam-se os dados da portuguesa).

"Luz e Sombra", publicado recentemente pela ASA e incluído na colecção de fantasia 1001 mundos, é o primeiro livro da trilogia "The Grisha".

Acompanha as aventuras de Alina Starkov, uma jovem órfã acolhida por um poderoso Duque de Ravka, um reino dilacerado pela guerra.

Alina, uma criança doente e frágil, cresce na companhia de Mal, outro órfão e é também na sua companhia que se alista no Primeiro exército.

Nos primeiros capítulos do livro, Alina prepara-se para a sua primeira travessia pelo Sulco de Sombra, um espaço de escuridão que divide o país onde nada cresce e povoado por volcra, criaturas que vivem no sulco e se alimentam de humanos.


Durante a perigosa viagem, a barca de Alina é atacada por volcra e, para salvar o seu amigo, Alina demonstra de repente um poder há muito escondido que a marca como fazendo parte dos Grisha - um exército de magos e cientistas que lutam para defender o reino através das suas artes. Alina é levada para o palácio dos Grisha e trava conhecimento com o Darkling, o senhor desta facção.

Já tinha este livro há algum tempo, mas foi só quando saiu em Portugal e começaram a aparecer as primeiras opiniões (positivas) da obra que me decidi a ler finalmente este "Luz e Sombra".

Não é propriamente um mau livro. O problema é que é demasiado genérico, com a sua mitologia, geografia e sistema de magia mal explicados. Ao início estava a achar a leitura bastante agradável porque parecia que a autora se iria focar na luta do povo (e exército) de Ravka. Mas logo que se percebe que a Alina é uma Grisha toda Xpto (sim... ela é um espécime raro), o livro descarrila.

De repente estamos na Escola Secundária, com raparigas populares e mazinhas, raparigas a fofocar nas costas dos outros e toda a gente quase a desmaiar por causa do Darkling, que é muito poderoso e muita bom e aparentemente velho como as montanhas (mas parece um modelo da GQ). A Alina, sempre descrita como uma rapariga não muito bonita transforma-se de repente numa beldade.

A partir daqui, e durante muitas páginas, o livro é pouco mais do que uma obra juvenil normal, com adolescentes, hormonas e toda a gente de olhos esbugalhados porque a nossa heroína é super especial.

Redime-se um pouco mais para o final, quando o enredo dá uma reviravolta mais ou menos pouco previsível e passa a ser novamente mais focado na aventura e na magia em vez de em bailes e invejas.

No geral, uma leitura interessante, mas nada de especial. A ideia é boa, um mundo fantástico baseado na civilização Russa, mas a execução deixa um bocado a desejar. Devo dizer no entanto, que a mitologia me pareceu interessante (se bem que incipiente) e que, com alguma construção do mundo poderia ser bastante intrigante. Gostaria também de saber porque é que os poderes de Alina têm alguma relevância, uma vez que me pareceu que não podia fazer muito... por isso, mais um aspecto que seria interessante desenvolver. Gostei mas não tenho grande pressa em ler o resto.

08 outubro 2013

Opinião: Outlander - Nas Asas do Tempo (Diana Gabaldon)

Outlander by Diana Gabaldon
Editora: Casa das Letras (2010)
Formato: Capa mole | 774 páginas
Género: Romance Histórico, Fantasia
Sinopse: "Claire leva uma vida dupla. Tem um marido num século e um amante noutro…
Em 1945, Claire Randall, ex-enfermeira do Exército, regressa da guerra e está com o marido numa segunda lua-de-mel quando inocentemente toca num rochedo de um antigo círculo de pedras. De súbito, é transportada para o ano de 1743, para o centro de uma escaramuça entre ingleses e escoceses. Confundida com uma prostituta pelo capitão inglês Black Jack Randall, um antepassado e sósia do seu marido, é a seguir sequestrada pelo poderoso clã MacKenzie. Estes julgam-na espia ou feiticeira, mas com a sua experiência em enfermagem, Claire passa por curandeira e ganha o respeito dos guerreiros. No entanto, como corre perigo de vida a solução é tornar-se membro do clã, casando com o guerreiro Jamie Fraser, que lhe demonstra uma paixão tão avassaladora e um amor tão absoluto que Claire se sente dividida entre a fidelidade e o desejo… e entre dois homens completamente diferentes em duas vidas irreconciliáveis.
Vive-se um período excepcionalmente conturbado nas Terras Altas da Escócia, que culminará com a quase extinção dos clãs na batalha de Culloden, entre ingleses e escoceses. Catapultada para um mundo de intrigas e espiões que pode pôr em risco a sua vida, uma pergunta insistente martela os pensamentos de Claire: o que fazer quando se conhece o futuro?
Um misto de ficção romântica e histórica, Outlander – Nas Asas do Tempo já foi publicado em 24 países."
(Nota: A edição lida encontra-se em inglês mas apresentam-se os dados da portuguesa).

"Outlander - Nas Asas do Tempo" é mais um livro com o qual já tenho alguma "história". Tudo começou há anos, quando a Whitelady leu o livro e mo recomendou. Penso que devia estar numa fase "rebelde" porque apesar de ter conseguido uma cópia gratuita através do Bookmooch, não o li imediatamente. Não, haviam de se passar anos até que pegasse finalmente neste romance histórico massivo, que nos conta a história de uma mulher que viaja até ao século XVIII.

Foi apenas com a notícia da do filme série de TV (que, penso eu, começou recentemente a ser filmada) e com as recomendações de outras bookahólicas que me decidi a ler este livro.

Como acontece tantas vezes (especialmente com as recomendações da Whitelady. Vide O dardo de Kushiel), tenho pena de o não ter lido antes. "Outlander - Nas Asas do Tempo" é uma mistura de tudo o que eu gosto num livro: é um romance histórico (com todas a sensualidade inerente e, claro, com uma história de amor) e é também ficção histórica (a autora traça um retrato bastante detalhado da época).

Claire Randall é uma enfermeira de combate, que recomeçou a sua vida e o seu casamento após sobreviver aos horrores da Segunda Guerra Mundial. Em 1945, Claire e Frank decidem visitar a Escócia para poderem reatar relações depois da guerra os ter mantido separados. Um dia, enquanto Claire passeia pelas paisagens bucólicas da Escócia, depara-se com um círculo de menires. A partir daí é transportada para o ano de 1743, para uma Escócia devastada pela guerra. E é aqui que conhece James Fraser, um jovem guerreiro escocês por quem vai começar a sentir mais do que devia.

Quando li, há algum tempo atrás, "O Segredo de Sophia" de Susanna Kearsley, era isto que procurava. Este livro. O Outlander. Um livro que mergulhasse intensamente na história conturbada dos Jacobitas e da sua luta contra os ingleses; um livro que relatasse a vida, os ideais sociais e as mentalidades da época, sem ter medo de nos mostrar partes que hoje em dia nos horrorizariam. E, claro, um livro com uma forte componente romântica, com uma história de amor quase intemporal, forte e faiscante. Foi isto que encontrei em "Outlander - Nas Asas do Tempo" e é por isso que esta obra entra directamente no meu top 10 das leituras de 2013.

E como é bem sabido que é mais difícil dizer bem do que dizer mal, não me alongarei muito mais. Basta dizer que Diana Gabaldon retratou (ou pelo menos assim parece) minuciosa e fielmente o estilo de vida e as mentalidades de meados do século XVIII. E apesar do conflito entre os Jacobitas e os ingleses ser apenas secundário neste primeiro livro, a escrita genial da autora faz com que o leitor se aperceba da tensão existente na Escócia nesta época.

Quanto às personagens... bem, deixem-me dizer-vos que apesar de ambos os protagonistas terem, essencialmente, papéis "tradicionais" (o homem guerreiro e a mulher curandeira), deu-me ideia de que esta escolha foi, pelo menos parcialmente, propositada. Afinal, Jamie é um habitante do século XVIII pelo que o facto de ser guerreiro não é grande surpresa. Mas Claire não é apenas uma curandeira... ela viveu uma das guerras mais sangrentas da história e é, por isso, que as suas capacidades são invulgares.

As personagens evolvem de forma bastante previsível e concordante à componente romântica, mas contrariamente ao que acontece com outros romances históricos, os protagonistas têm as suas "falhas", que advêm da sua situação (Claire) ou educação (Jamie). E a autora não nos poupa aos resultadas de uma educação em que as mulheres eram consideradas "inferiores".

Não nos poupa também à violência inerente do período. Algumas cenas são perturbadoras, mas nenhuma é gratuita. O vilão é, talvez, algo estereotipado, mas as suas acções não fogem aos parâmetros estabelecidos pela História e pela autora.

No geral, adorei. Não é um livro perfeito, mas é muito bom. Tem romance, acção, aventura, personagens carismáticas e complexas e o ritmo é pausado e gradual, mas sempre interessante. Recomendado para todos os amantes de ficção histórica (se não se importarem com a forte componente romântica).

21 junho 2013

Curtas: Fantasia épica e urbana

Ora cá temos mais uma edição das "Curtas". Li estes dois livros recentemente e, como sempre, não tenho muito a dizer sobre eles. Ou melhor, sobre os "Broken Kingdoms" até tenho, mas é basicamente o que disse sobre o primeiro livro e não vale a pena estar a repetir-me.

Editora: Orbit (2010)
Formato: Capa mole | 384 páginas
Género: Fantasia
Mini-review: Esta sequela do livro The Hundred Thousand Kingdoms, passa-se cerca de 10 anos depois do primeiro livro.
Após os acontecimentos no final da obra anterior, o mundo dos humanos mudou. Sky, a cidade dos Arameri é agora denominada "Shadow" devido ao facto de se encontrar por debaixo da Árvore do Mundo, uma árvore gigantesca que cresceu na cidade há 10 anos. Os descendentes dos deuses descem ao mundo dos mortais e misturam-se com eles. É neste mundo que vive Oree, uma artista cega cujo amante é o deus Madding.
Gostei deste livro. Foi uma leitura compulsiva porque a autora sabe bem como prender a atenção do leitor. Mas os problemas que tive com o primeiro livro (falta de desenvolvimento do mundo e das personagens) repetem-se em The Broken Kingdoms. Além disso, fiquei desapontada com o facto de, depois de se ter dado um acontecimento tão importante e que mudou potencialmente o mundo inteiro, a autora tenha escolhido dar-nos tão pouca informação acerca destas mudanças.
No geral, uma boa leitura, mas ainda não é desta que lhe dou 5 estrelas... apesar de ter gostado bastante do livro.


Editora: Zebra (2010)
Formato: Capa mole | 337 páginas
Género: Fantasia urbana
Mini-review: Mais um livro de fantasia urbana que tinha lá para casa e que decidi ler por... razões. Uma boa palavra para descrever este livro é: genérico. Outra seria: confuso.
Genérico porque o mundo é isso mesmo: um mundo genérico de fantasia urbana. Com vampiros sedutores e lobisomens sexy. A descrição destas criaturas sobrenaturais é... genérica. A nossa heroína é... genérica (uma humana normal que consegue ter uma data de criaturas paranormais atrás dela e a seduzi-la).
Confuso porque alguns dos acontecimentos no livro não fazem sentido. Pareceu-me quase que faltavam partes lá pelo meio. As acções das personagens deixaram-me muitas vezes especada a olhar para o livro. E já agora, não gostei particularmente de nenhuma delas. O romance (se é que se pode chamar romance) não teve qualquer magia ou química.
No geral uma obra bastante... genérica dentro do género. O único ponto positivo foi a escrita, que até se lia bem. E pronto, o cinto falante (yep, leram bem). 

17 junho 2013

Opinião: The Hundred Thousand Kingdoms (N.K. Jemisin)

The Hundred Thousand Kingdoms by N.K. Jemisin
Editora: Orbit (2010)
Formato: Capa mole | 427 páginas
Géneros: Fantasia
Descrição (GR): "Yeine Darr is an outcast from the barbarian north. But when her mother dies under mysterious circumstances, she is summoned to the majestic city of Sky. There, to her shock, Yeine is named an heiress to the king. But the throne of the Hundred Thousand Kingdoms is not easily won, and Yeine is thrust into a vicious power struggle with cousins she never knew she had. As she fights for her life, she draws ever closer to the secrets of her mother's death and her family's bloody history.
With the fate of the world hanging in the balance, Yeine will learn how perilous it can be when love and hate - and gods and mortals - are bound inseparably together. "
Ultimamente parece que ando numa de fantasia épica (a culpa foi da Whitelady que me convenceu finalmente a começar a saga Kushiel). No outro dia, estava a ler a Bang! 14 e deparei-me com uma página de sugestões onde se mencionava o livro de estreia da autora norte-americana N.K. Jemisin, intitulado The Hundred Thousand Kingdoms.

Como é fantasia, como foi recomendado pela Bang! e como até tenho a trilogia em casa por ler, decidi que estava na altura de pegar neste.

E digo-vos, foi, primeiro que tudo, uma leitura compulsiva. Jemisin escreve bastante bem, com uma fluidez surpreendente que nos cativa.

Depois temos a história, claro. Um mundo fantástico onde o planeta inteiro (quase literalmente) é governado das sombras por uma casta, os Arameri, que controlam não só uma fonte infindável de riqueza, mas algumas das divindades que criaram o mundo, assegurando assim uma hegemonia duradoura. Os Arameri dizem-se "conselheiros" mas na verdade controlam o Conselho dos Nobres. Isto pareceu-me extremamente original e interessante. E foi.

A nossa protagonista é Yeine, uma jovem de um reino do Norte que é chamada à cidade "central", Sky, onde vivem os Arameri. A verdade é que a mãe de Yeine era filha da chefe do clã dos Arameri e agora que o chefe se encontra no fim da vida, a jovem é chamada para tomar parte na corrida à sucessão onde tem como rivais dois primos.

Mas Yeine não sabe quase nada do mundo vil dos Arameri. A sua ida a Sky vai mergulhá-la num mundo cheio de perfídia e enganos onde nada é o que parece... nem mesmo os deuses escravizados que os Aramenri usam tanto como entretenimento como arma.

The Hundred Thousand Kingdoms surpreende principalmente pelas ideias da autora. O facto de os deuses servirem, em regime de escravatura, os mortais é algo raro (ou pelo menos para mim, que não leio assim muita fantasia épica) e gostei da forma como Jemisin descreveu as divindades, os seus poderes e a forma como se relacionam com os humanos.

A narrativa tem um ritmo regular que mantém o leitor embrenhado na leitura (ao contrário do que aconteceu com The Killing Moon, um outro livro que li da mesma autora) e nem mesmo a sua natureza algo fragmentada (que é explicada com o desenrolar dos acontecimentos) torna o livro difícil de acompanhar ou aborrecido. Yeine, a nossa narradora divaga por vezes, mas isso não interrompe o fluxo da narrativa.

A forma como muitos dos protagonistas foram retratados (especialmente os deuses escravizados) também contribuiu para que este livro fosse uma leitura tão agradável.

No entanto, nota-se que este é o primeiro livro da autora. Ela cometeu um erro que me parece ser de principiante: notei que nalgumas das comparações que ela fazia, utilizava referências do nosso mundo. Do género "A sala era tão grande que cabia lá um elefante"; sendo um mundo ficcional completamente diferente, estas referências não existiriam (elefantes também não, provavelmente).

Além disso, apesar de alguns aspectos do mundo terem sido adequadamente desenvolvidos (os deuses e a respectiva mitologia - apesar de esta ser algo básica e previsível), outros ficaram por explicar (por exemplo, o nível tecnológico de Sky... não existem carros, mas pelos vistos existem canalizações e torneiras, etc).

Achei também que tudo ocorreu demasiado depressa: as descobertas de Yeine sobre a Guerra dos Deuses e sobre os objectivos dos Arameri pareceram-me demasiado apressadas e sem explicação satisfatória. A peculiaridade de Yeine foi arrumada a um canto quando poderia ter adicionado interesse à história, se explorada.

No geral, uma boa obra de fantasia. N.K. Jemisin tem certamente uma boa imaginação e um talento para contar histórias. Faltou mais desenvolvimento do enredo, do mundo e das personagens (com as quais, tal como no outro livro da autora, não me consegui ligar), incluindo o romance que me pareceu também apressado e pouco verosímil. Mas gostei imenso das ideias da autora. Uma série a seguir.
English Review  |  Outros livros da autora: The Killing Moon (EN)

11 junho 2013

Opinião: O Dardo de Kushiel e A Marca de Kushiel (Jacqueline Carey)

Editora: Saída de Emergência (2010)
Formato: Capa mole | 804 páginas (2 livros)
Géneros: Fantasia
Descrição (livro 1 - GR): "TERRE D’ANGE é um lugar de beleza sem igual. Diz-se que os anjos deram com a terra e a acharam boa… e que a raça resultante do amor entre anjos e humanos se rege por uma simples regra: ama à tua vontade. Phèdre é uma jovem nascida com uma marca escarlate no olho esquerdo. Vendida para a servidão em criança, é comprada por Delaunay, um fidalgo com uma missão muito especial… Foi, também ele, o primeiro a reconhece-la como a eleita de Kushiel, para toda a vida experimentar a dor e o prazer como uma coisa só. Phèdre é adestrada nas artes palacianas e de alcova, mas, acima de tudo, na habilidade de observar, recordar e analisar. Espia talentosa e cortesã irresistível, Phèdre tropeça numa trama que ameaça os próprios alicerces da sua pátria. A traição põe-na no caminho; o amor e a honra instigam-na a ir mais longe. Mas a crueldade do destino vai levá-la ao limite do desespero… e para além dele. Amiga odiosa, inimiga amorosa, assassina bem-amada; todas elas podem usar a mesma máscara reluzente neste mundo, e Phèdre apenas terá uma oportunidade de salvar tudo o que lhe é mais querido." 
ATENÇÃO: Contém alguns SPOILERS.
(A edição lida estava no inglês original, mas apresentam-se os dados das portuguesas).

Algumas das minhas opiniões começam por enumerar as razões pelas quais dou uma ou outra classificação a um livro. No fundo, gosto de reiterar que as opiniões que emito são subjectivas e se referem meramente ao usufruto que tirei da leitura.

Estes livros de Jacqueline Carey foram óptimas leituras por terem personagens interessantes, uma construção do mundo intrigante e uma história intrincada.

Foram leituras envolventes que me mantiveram interessada ao longo das largas centenas de páginas. Estes dois volumes, que compõem o primeiro livro da trilogia Phèdre são verdadeiramente cativantes.

Mas mesmo tendo gostado imenso destas obras, não posso deixar de destacar alguns pontos que achei que podiam ter sido melhores (que livro não os tem, certo?) ou mais bem esclarecidos.

"O Dardo de Kushiel" e "A Marca de Kushiel" introduzem-nos ao mundo de Terre D'Ange um país habitado por um povo que se diz descendente de deuses.
Cedo percebemos que esta terra e os países vizinhos nos são familiares; Carey utiliza a Europa feudal (dos inícios?) da Idade Média como base para criar o seu mundo, misturando também algumas influências culturais orientais (nomeadamente o conceito dos cortesãos como os da Corte da Noite, que eram ensinados desde cedo a servir e eram cultos, versados em música... quase como as gueixas japonesas). Apesar de utilizar marcos conhecidos, a autora cria toda uma mitologia para Terre D'Ange (a mitologia das terras circundantes é quase idêntica à que os povos europeus possuíam na Antiguidade) que mistura o Cristianismo com um culto politeísta.

Este foi o primeiro aspecto que me fez confusão: Ellua, o "rei" do Panteão de Terre D'Ange é quase como que um descendente de Deus que decidiu fazer daquele território a sua casa. Sinceramente, o que me causou espanto foi toda a história de Ellua e o facto de, apesar dessa história, ele ser venerado.
Pois Ellua decidiu passar a vida a cirandar de um lado para o outro, a ver as vistas. Vários Anjos juntaram-se a ele e um deles, a Namaah prostituiu-se para arranjar dinheiro ao Ellua para que ele não passasse fome. E... erm... porque é que esta pessoa é venerada, mesmo? Porque passou a vida sem fazer nada? Porque quando lhe disseram para ir para casa ele pegou numa faca e fez um corte na mão e disse "não vou e não vou e pronto"?

Estão, portanto, a ver o meu problema. Creio que a história mitológica tenta explicar o sexo (especialmente quando ligado à servidão feudal) e todo o sistema de servidão da Corte da Noite que mais não é do que uma rede de bordéis. Sinceramente, achei a mitologia ridícula e não apenas por causa de Ellua.

A autora dá a entender que neste Panteão, todos os companheiros originais de Ellua são venerados e que possivelmente cada um tem características especiais pelas quais se distingue, mas não nos diz especificamente que características são essas. Nem Kushiel, que como podem calcular, tem um "papel" importante na série nos é explicado como deve de ser. Ele castiga os pecadores e depois os pecadores, numa reviravolta que parece Síndrome de Estocolmo, passam a amá-lo pelas torturas que lhes inflige? Sinceramente? Não percebi. Não percebi absolutamente nada, a não ser que Kushiel é uma desculpa esfarrapada para que a Phèdre goste de sado-maso. :P

Basicamente, a parte da mitologia neste livro foi uma tentativa muito óbvia (e algo preguiçosa) de explicar toda a sociedade de Terre D'Ange, como se nada houvesse nela que pudesse ser explicado de forma não religiosa.

Para mim foi a parte mais fraca do livro, apesar do preceito desta religião ser bastante positivo, no geral: "ama à tua vontade". É devido a este preceito que as pessoas em Terre D'Ange têm uma mentalidade tão desenvolvida para a "época" em certos aspectos. Por isso, apesar de tudo, a mitologia mal explicada não me impediu de devorar o livro. Apenas me irritou ligeiramente que, primeiro, o "herói" mitológico daquela gente fosse um indivíduo que nada fez para se destacar excepto andar por aí; e segundo porque nunca é muito clara a função de cada deus; sabemos que eles as têm, porque têm templos e tudo o mais, mas não se sabe bem como influenciam os habitantes de Terre D'Ange.

Passemos, no entanto, às partes mais agradáveis que, como disse em cima, me fizeram devorar um livro de 900 páginas (no original) em pouco mais de uma semana.

A história. O enredo é interessante. As primeiras páginas narram a infância e adolescência de Phèdre, que é vendida a uma das Casas da Corte da Noite aos dez anos. Ao início confesso que achei a descrição algo aborrecida, mas assim que me embrenhei na história não consegui deixar de querer saber mais e mais. Os segredos e a intriga da vida de Delauney, o mestre de Phèdre mantêm o leitor colado às páginas.

A história tem de tudo um pouco, desde um mistério a romance, passando por cenas de acção, tudo escrito de forma apelativa e envolvente.

As personagens. Phèdre, Joscelin, Hyacinthe e o resto do "cast" de personagens que compõem este livro são deliciosas. Todas são carismáticas e assim como a autora não poupa páginas no desenvolvimento do enredo, também não o faz no desenvolvimento das personagens. Phèdre passa por determinadas situações que a fazem mudar e o crescimento dela enquanto protagonista é plausível. Devo dizer que o romance não está particularmente bem desenvolvido nestes primeiros volumes, mas sendo uma série, isto não é particularmente grave.

O mundo. Como já referi antes, o mundo de Carey é genial. Suficientemente familiar para que os leitores não se sintam completamente perdidos, mas com elementos exóticos suficientes para que sintamos a magia que é tão própria da fantasia.

No geral: um começo fantástico para esta trilogia. É um livro (ou dois, se lerem em português) que se lê bem, com personagens cativantes sobre as quais queremos saber mais, um mundo misterioso, e bem definido, que apela à imaginação e um enredo com todos os ingredientes para nos manter agarrados. Recomendado.

28 setembro 2012

Opinião: Pretty Guardian Sailor Moon, vol. 3 (Naoko Takeuchi)

Pretty Guardian Sailor Moon, Vol. 3 by Naoko Takeuchi
Editora: Kodansha Comics (2012)
Formato: Capa mole | 248 páginas
Géneros: Fantasia, Romance, Manga
Descrição (GR): "Tuxedo Mask gone bad?! As more of her closest allies fall under the power of the evil Queen Beryl, Usagi comes closer to discovering the truth behind her past. The stage is set for an all-out battle for the fate of Earth between the Sailor Guardians and the forces of evil. But when the dust settles, a little girl calling herself “Usagi” falls from the sky and right into the arms of Mamoru. What is her connection to Sailor Moon and why does she want the Legendary Silver Crystal?"
Quem cresceu na década de 90 (ou mesmo mais tarde, com as repetições dos desenhos animados no canal Panda) não terá, certamente, deixado de ouvir falar das Navegantes da Lua. Esta série de 200 episódios conta a história de cinco guerreiras mágicas que protegem a Terra de ameaças exteriores, nomeadamente extraterrestres malignos que querem conquistar o planeta (e são certamente a inspiração de séries como as Winx e outras que tais).
Navegantes da Lua (fonte: The Oracle)

Estas guerreiras são originárias da Lua, onde há muito tempo atrás (relativamente aos anos 90 do século XX) existiu um reino chamado Milénio Prateado. Este reino era governado por uma rainha, a Rainha Serenidade, que tinha uma filha, a Princesa Serenidade. Os habitantes da Lua eram quase imortais e possuíam grandes poderes (a Rainha Serenidade foi provavelmente venerada na Terra como a deusa da lua, Selena), mas o seu Reino foi destruído por forças obscuras. A princesa Serenidade e as suas companheiras renasceram como raparigas humanas na Terra.

Esta é a história base de uma das séries animadas mais populares entre as crianças na década de 90. Quem não conhecia as navegantes da lua, o Luna, a Artemisa e o Mascarado?

Rainha Beryl (fonte: The Oracle)
O que muita gente provavelmente desconhece é que esta série é de origem japonesa (anime) e é baseada numa banda desenhada (manga) com o mesmo título, da autoria de Naoko Takeuchi.

Uma vez que As Navegantes da Lua eram um dos meus desenhos animados favoritos quando era mais nova, fiquei muito interessada quando soube que o manga ia ser re-editado nos EUA, com uma nova tradução e um novo visual. Tenho vindo a coleccionar estas novas versões e li recentemente o terceiro volume.

É delicioso ver as diferenças entre o anime e o manga. No manga as coisas acontecem mais depressa e não se arrastam como acontece com o anime. As Navegantes têm diversas armas ao seu dispor, que incluem mais do que apenas os seus poderes místicos. Neste volume a Navegante de Vénus utiliza uma espada sagrada para derrotar a Rainha Beryl, coisa que não acontece no anime. O Mascarado, pelo contrário, tem poderes místicos para complementar as suas armas (o que, novamente, não acontece no anime).
A espada da Navegante de Vénus

Foi um volume bastante interessante; é neste livro que se dá o clímax da primeira série ou história e as Navegantes derrotam finalmente a Rainha Beryl e o terrível monstro Metalia.

A segunda parte do volume contém os primeiros capítulos de uma nova história que os fans do anime não deixarão de reconhecer: aparece a misteriosa Chibi-usa e os poderosos habitantes da Lua Negra.

Achei que as vinhetas pareciam um bocado confusas e com demasiada informação nesta segunda metade do livro, mas de resto gostei. A história é interessante (embora não seja exactamente uma surpresa), as personagens são cativantes e fortes (bons modelos femininos) e a arte é bastante boa para um título shoujo.

Resumindo, uma boa adição à série. Agora é só ler o resto e esperar pelo remake do anime, previsto para 2013.

20 setembro 2012

Review: Stormdancer (Jay Kristoff)

Stormdancer by Jay Kristoff
Publisher: Tor UK (2012)
Format: Hardcover | 352 pages
Genre(s): Fantasy, Steampunk, Young Adult
Description (GR): "A DYING LAND 
The Shima Imperium verges on the brink of environmental collapse; an island nation once rich in tradition and myth, now decimated by clockwork industrialization and the machine-worshipers of the Lotus Guild. The skies are red as blood, the land is choked with toxic pollution, and the great spirit animals that once roamed its wilds have departed forever. 
AN IMPOSSIBLE QUEST
The hunters of Shima’s imperial court are charged by their Shōgun to capture a thunder tiger—a legendary creature, half-eagle, half-tiger. But any fool knows the beasts have been extinct for more than a century, and the price of failing the Shōgun is death.
A SIXTEEN YEAR OLD GIRL
Yukiko is a child of the Fox clan, possessed of a talent that if discovered, would see her executed by the Lotus Guild. Accompanying her father on the Shōgun’s hunt, she finds herself stranded: a young woman alone in Shima’s last wilderness, with only a furious, crippled thunder tiger for company. Even though she can hear his thoughts, even though she saved his life, all she knows for certain is he’d rather see her dead than help her. 
But together, the pair will form an indomitable friendship, and rise to challenge the might of an empire."
WARNING: Contains SPOILERS!
I liked the overall concept and most of the world building, but some things just didn't work for me. I even made a list, which I will present later, but first, some context.

I've read a few reviews that mentioned the fact that Stormdancer gets a lot of things wrong when it comes to Japanese culture, myth and even language. I admit that while I do like anime and manga and have read a few books set in Japan, I don't know enough about their culture (especially historically) to judge if most things described in this book are right or not. But even so I've noticed some things that bothered me (or at least I think I did. I might be wrong, it may be all a matter of perception).

1. Setting - so Stormdancer takes place in an alternate version of Japan called "Shima". The author could have gotten away with the frequent incorrections if this "fantasy" land wasn't so obviously Japan. You have Daimios (feudal lords), Japanese supernatural creatures, Japanese deities, the same creation myth, the same society structure and hierarchy and even the same language. Shima is Japan which makes all the factual errors this book might or not contain very bad.

The ones I detected (very easy to spot, really) were the erroneous use of "sama" (any anime addict knows this is a suffix, it can't be used by itself) the use of the word "aiya" (which I've heard in Taiwanese dramas, I think, but never in Japanese dramas) and the bow Yukiko was always doing (with the fist in the palm) that seemed right out of "Mulan" (and Mulan, as we all know is Chinese).

2. Cultural Values - here's the part that bothered me. While this alternate Japan seems to have most of the values of Feudal Japan samurais that follow the Code of Bushido, rigid social hierarchy, rigid social rituals, respect for honor and servitude, these same values are considered... well, bad. The main character thinks they are the reason why people are oppressed and boasts the qualities of "revolution" and "rebellion" which are typically more western ways of thought.

The heroine despises her own culture, as seen when she is invited by the Shogun's sister to tea and says she doesn't have time for such silliness and all the rituals. This disregard for the culture the author is trying to portray bothered me.

3. Characters - to me they were another weak point of the book. They were two-dimensional and lacked development. They seemed to be there to further the plot more than anything else. For example, Hideo the minister was complacent, but why was he complacent we never know. He was complacent simply to be an obstacle to our heroine. The Guild people and the Shogun were simply evil without explanation. They were evil so that the heroine could fight them. The rebels were rebels so they could "open the heroine's eyes". Even Yukiko had little substance.

I had a hard time connecting to any of the characters.

4. Romance - two of my "pet peeves" made an appearance: insta-love (well, insta-lust, but still... the love interest was pretty hollow, no personality whatsoever) and a love triangle. The author didn't handle the romance part well at all. I'd have preferred no romance at all. Enough said.

5. Writing Style - too verbose, which made the reading difficult. Some things were just overly described and it served no purpose.

So why the three stars? For the potential. The world building is interesting and the story could be good if it was more layered and deep. As it was, the "message" (industrialization is bad, yadda, yadda, we're literally paying for it with our blood, etc) was about as subtle as a freight train. This book could have been great, but I think a little more research and character development were needed before it was 'released'. The concept is pretty good and the whole "steampunk" part of the story was well-constructed and imaginative; I wasn't too fond of the rest, though.

A disappointing read, mainly because I had such high expectations.

12 julho 2012

Opinião: Bewitching (Alex Flinn)


Bewitching by Alex Flinn
Editora: Harper Teen (2012)
Encadernação: Capa Mole | 338 páginas
Géneros: Romance, Fantasia Urbana
Descrição (GR): "Bewitching can be a beast. . . .
Once, I put a curse on a beastly and arrogant high school boy. That one turned out all right. Others didn’t.
I go to a new school now—one where no one knows that I should have graduated long ago. I’m not still here because I’m stupid; I just don’t age.
You see, I’m immortal. And I pretty much know everything after hundreds of years—except for when to take my powers and butt out.
I want to help, but things just go awry in ways I could never predict. Like when I tried to free some children from a gingerbread house and ended up being hanged. After I came back from the dead (immortal, remember?), I tried to play matchmaker for a French prince and ended up banished from France forever. And that little mermaid I found in the Titanic lifeboat? I don’t even want to think about it.
Now a girl named Emma needs me. I probably shouldn’t get involved, but her gorgeous stepsister is conniving to the core. I think I have just the thing to fix that girl—and it isn’t an enchanted pumpkin. Although you never know what will happen when I start . . . bewitching."
A bruxa que lança a maldição ao príncipe de "A Bela e o Monstro" sempre me interessou, enquanto personagem. Ao contrário de muitas outras bruxas e vilões nos contos de fadas, que são sempre motivados pela inveja, cobiça ou pura maldade, a bruxa em "A Bela e o Monstro" transformou o nosso herói numa "fera" para lhe ensinar uma lição. É uma personagem passiva, não aparece senão no início pelo que nunca chegamos a saber muito sobre ela (falo aqui da adaptação da Disney, claro). 

Por isso, quando soube que a Alex Flinn ia escrever um livro sobre essa bruxa (ou mais especificamente sobre a bruxa de "Beastly", que é uma adaptação moderna de "A Bela e do Monstro"), fiquei bastante entusiasmada.

Infelizmente, Kendra (a bruxa), não passa de uma personagem secundária no seu próprio livro. "Bewitching" contém várias histórias: uma que pode ser considerada a principal e que é narrada por uma adolescente chamada Emma. Conta as peripécias desta jovem após a chegada de Lisette, a sua bela meia-irmã. A mãe de Emma não gosta de Lisette. Parece familiar? É porque é uma adaptação moderna da história da "Cinderela". Mas há algumas mudanças muito inesperadas pelo meio. Kendra, que é colega de Emma e Lisette pondera se deve tentar resolver a situação. 

Intercaladas com esta história principal, temos pequenas histórias passadas em diferentes épocas e contadas por diferentes protagonistas. A semelhança entre todos estes protagonistas é que Kendra os tentou ajudar a todos com resultados algo... desastrosos. Os leitores irão reconhecer as histórias porque se tratam, novamente, de contos de fadas, adaptados. Temos a "Princesa e a Ervilha", a "Pequena Sereia"... enfim. Estas mudanças de perspectiva cortam a fluidez da narrativa principal, o que fez com que a leitura se tornasse algo irritante, por vezes. Quase que dava vontade de saltar estas partes para voltar à história principal. Por outro lado, também não gostei muito dos "apartes" da Kendra (intitulados "Kendra speaks") no final dos capítulos. Não acrescentam muito ao enredo e não ajudam na evolução e desenvolvimento da personagem, a quem falta uma personalidade definida e forte. Achei que a organização do livro era algo confusa e desconjuntada e que prejudicou a leitura.

No fundo, Kendra aparece muito pouco durante o livro. Apenas o capítulo inicial narra a sua história; ficamos a saber como se tornou uma bruxa imortal. 

Assim, apesar de ter gostado desta leitura de modo geral, fiquei algo desiludida com o facto da história não ser sobre Kendra e por esta não ter tido grande desenvolvimento enquanto personagem. O final do livro (e da história da 'Cinderela') também não me agradou particularmente. 

No geral, uma leitura que deixa algo a desejar. A adaptação dos contos de fadas está bem conseguida, mas faltou algum desenvolvimento ao nível das personagens e as interrupções na história principal não resultaram muito bem; fiquei com a sensação de que a autora não tinha material suficiente para um livro pelo que decidiu inserir mini-histórias em capítulos alternados para "encher".


03 julho 2012

Review: The Killing Moon (N.K. Jemisin)

The Killing Moon by N.K. Jemisin
Publisher: Little, Brown (2012)
Format: Paperback | 404 pages
Genre(s): Fantasy
Description (GR): "In the ancient city-state of Gujaareh, peace is the only law. Upon its rooftops and amongst the shadows of its cobbled streets wait the Gatherers - the keepers of this peace. Priests of the dream-goddess, their duty is to harvest the magic of the sleeping mind and use it to heal, soothe . . . and kill those judged corrupt.
But when a conspiracy blooms within Gujaareh's great temple, Ehiru - the most famous of the city's Gatherers - must question everything he knows. Someone, or something, is murdering dreamers in the goddess' name, stalking its prey both in Gujaareh's alleys and the realm of dreams. Ehiru must now protect the woman he was sent to kill - or watch the city be devoured by war and forbidden magic."
WARNING: SPOILERS!
I'm a bit confused about this book. I liked it a lot, but I didn't love it. I had high expectations and they were met but I still can't say I read it compulsively and loved every minute of it. So I am sorry if the review is a little more "scattered" than usual.

"The Killing Moon" is a really good book. The world-building is excellent; intricate and thoughtful, careful to go one step further the usual fantasy fare. The issues and problems it tackles are well explored, for the most part. What will we do for peace? How far are we willing to go to maintain it? When is killing acceptable? Where do we draw the line?
The book deals with these questions flawlessly through the world-building, the characters' development and the ideology without almost never passing judgment at the extremes presented.

That said, I didn't love this book. Why? Because I couldn't connect with the characters. There was no emotional link and I think that is what failed.

The main characters are Sunandi, a foreign ambassador in Gujaareh (the place where most of the action takes place), Ehiru, a priest and a dream Gatherer and Nijiri, Ehiru's apprentice. Gatherers collect "dreamblood", an ethereal and magical substance that comes from dreams. Which is fitting since Gujaareh's patron Goddess is Hananja, a deity of dreaming. They also kill all those accused of corruption (considered a disease of the soul) by severing the soul from the body and leading it to Ina-Karekh, the land of dreams where Hananja rules.

This dreamblood and its associated substances (dreambile, dreamichor and dreamseed) are connected to the soul and their use can cure many diseases either physical or psychological. So dreamblood is actually very valuable. It is controlled by the Hetawa, the temple of Hananja.

See, I had my first problem here. Our main character, Ehiru is a completely pious and faithful mercy assassin. In the tradition of the truly brainwashed he carries his duties with the utmost conviction. But when he finds out his little utopia is not very utopic at all he has no crisis of faith. He still believes in his religion's moral precepts. To be fair when he learned the whole truth (which was pretty obvious since, hello, humans will be humans and his temple controls 100% of the most important substance in their peace-loving city) he was half mad, but still.

In the end I just couldn't connect with Ehiru. He was probably not the most important character (I'd say that honor belongs to Nijiri) but there was no change at all in him (oh, wait, he was going mad). He was the same until the end although his world had been turned upside-down. Nijiri had the same kind of evolution, which annoyed me.

Basically I felt the characters were a bit empty and not very realistic. The author spent so much of her time setting up her world (and a great job she did too) that she just didn't invest enough in the characters. I'd have liked to read a more character driven novel. I'd have liked to see Ehiru or just Nijiri be angry and doubt everything they knew and took for granted. That would have had much more impact, in my humble opinion. But alas (ahah), I am not the author and she did not write this book solely for me.

Overall, "The Killing Moon" is a great read. The meticulous world-building with a slight Egyptian influence will appeal to fans of complex and well thought out fantasy books. I'd have liked more character development though. Still, very good. Recommended.

28 junho 2012

Opinião: A Mecânica do Coração (Mathias Malzieu)

Editora: Contraponto (2009)
Formato: Capa Mole | 143 páginas
Géneros: Romance, Ficção Histórica, Fantasia
Descrição (GR): "Edimburgo, 1874. Jack nasce no dia mais frio do mundo, com o coração… congelado. A Dr.ª Madeleine, a parteira (segundo alguns, uma bruxa) que o trouxe ao mundo, consegue salvar-lhe a vida instalando um mecanismo – um relógio de madeira – no seu peito, para ajudar a que o coração funcione. A prótese funciona e Jack sobrevive, mas com uma condição: terá sempre de se proteger das sobrecargas emocionais. Nada de raiva e, sobretudo, nada de amor. A Dr.ª Madeleine, que o adopta e vela pelo seu mecanismo, avisa: «o amor é perigoso para o teu coraçãozinho.» Mas não há mecânica capaz de fazer frente à vida e, um dia, uma pequena cantora de rua arrebata o coração – o mecânico e o verdadeiro – de Jack. Disposto a tudo para a conquistar, Jack parte numa peregrinação sentimental até à Andaluzia, a terra natal da sua amada, onde encontrará as delícias do amor… e a sua crueldade."
"A Mecânica do Coração" é um daqueles livros que deixam uma marca. É um pequeno livro, pouco mais do que um conto, com personagens simples e uma história terna e encantadora. No entanto é difícil emitir uma opinião sobre a obra, porque apesar da sua premissa simples é tantas, tantas coisas ao mesmo tempo: romance, amizade, amor, tragédia, esperança.

Edimburgo, finais do século XIX. Jack nasce no dia mais frio do mundo e o seu coração congela, deixando de bater. Felizmente a parteira, a Dra. Madeleine, dá-lhe um novo coração, um relógio de cuco ao qual tem de se dar corda todos os dias. E assim Jack é salvo, mas não é, de todo, uma criança vulgar. Qualquer emoção forte pode despoletar uma crise, fazer o coração bater depressa demais, estragar o relógio. Jack não pode, acima de tudo, apaixonar-se.

Uma vez que tem um relógio como coração, Jack não é adoptado e vive com a Dra. Madeleine, que o protege do mundo exterior. Mas todas as crianças crescem e Jack não é excepção. Depois de conhecer uma dançarina de grandes olhos negros Jack apaixona-se perdidamente e o seu coração está em risco. Quanto estará Jack disposto a arriscar, por amor?

Como disse acima, a história de "A Mecânica do Coração" é bastante simples e directa. É a viagem de descoberta de Jack, a sua gradual aprendizagem das mecânicas do coração que dão valor a este livro. A prosa alterna sendo intrincada (quase poética) nalgumas passagens e mais corrente noutras. Confesso que não percebi muito bem se as referências modernas espalhadas pelo livro (Charles Bronson? Plástico?) foram intencionais; considerando que algumas são flagrantes, diria que sim, mas sinceramente não achei que fossem necessárias.

Este livro é muito atmosférico e tem uma beleza muito própria e penso que é o que encanta os leitores (pelo menos foi o que me encantou a mim). Algumas partes pareceram um bocado forçadas, mas no geral foi uma leitura agradável, algo bizarra mas intrigante.

22 junho 2012

Opinião: O Senhor da Luz (Roger Zelazny)

O Senhor da Luz de Roger Zelazny
Editora: Gollancz (2010)
Formato: Capa Mole | 284 páginas
Géneros: Ficção Científica, Fantasia
Descrição (GR): "In a distant world gods walk as men, but wield vast and hidden powers. Here they have made the stage on which they build a subtle pattern of alliance, love, and deadly enmity. Are they truly immortal? Who are these gods who rule the destiny of a teeming world?

Their names include Brahma, Kali, Krishna and also he who was called Buddha, the Lord of Light, but who now prefers to be known simply as Sam. The gradual unfolding of the story shows how the colonization of another planet became a re-enactment of Eastern mythology." 
AVISO: Contém Spoilers.
Há alguns anos atrás recomendaram-me um livro que adorei: Terra, Campo de Batalha de Ron L. Hubbard. Independentemente da religião do autor (a qual desconhecia por completo quando me recomendaram esta leitura), foi uma obra que me cativou. A imaginação do autor fez-me ler o livro todo em apenas alguns dias.

Actualmente não leio assim muitos livros do género, mas numa das minhas visitas à FNAC encontrei este livro, "Lord of Light" e a sinopse interessou-me, apesar da minha relutância em ler ficção científica "clássica", digamos, por medo que as máquinas e a tecnologia em geral me pareçam 'datados'.

Mas, enfim, "Lord of the Light" pareceu-me interessante, apesar de ter sido publicado nos anos 60 do século XX. E, bem, o George R.R. Martin considera este livro, uma das "cinco melhores obras de FC alguma vez escritas". Por isso, claro que veio para casa comigo.

Comecei a leitura com algumas reservas (pela razão já apontada), mas escusava de me ter preocupado. Contrariamente ao que acontece com obras de FC mais recentes, "Lord of Light" não se apoia na descrição de um futuro altamente tecnologizado. De acordo com a época em que foi escrito, o livro parece focar-se mais em aspectos políticos e sociais. O que me agradou imenso, devo dizer.

Num futuro incerto, num planeta distante, existe uma sociedade onde os deuses andam entre os homens. Krishna, Kali e outros deuses, que o leitor reconhecerá da mitologia hindu, controlam os destinos da Humanidade. Mas um deles, o misterioso Senhor da Luz (conhecido por muitos nomes, sendo um deles, Buda) decide insurgir-se contra este estado de coisas.
Quem são estes deuses, que ditam as regras deste mundo? Quem é o Senhor da Luz?

"Lord of Light" é um livro escrito de forma episódica. O primeiro capítulo abre no presente, quando um grupo de insurgentes decide 'trazer de volta' o deus rebelde conhecido como Senhor da Luz ou, como ele prefere ser chamado, Sam.

A partir daí começa a odisseia de Sam, que mais uma vez se propõe tentar salvar a Humanidade do jugo de um grupo de deuses ambiciosos. Mas o livro não é uma mera exposição da presente luta de Sam; outros capítulos levam-nos a diferentes ocasiões no passado e descrevem as tentativas fracassadas do nosso herói, de destronar os tiranos.

A verdadeira genialidade deste livro só se tornou clara para mim quase um dia depois de o acabar. Enquanto o estava a ler, apesar de ter gostado do enredo e das personagens, estava um bocado irritada com o facto da narrativa parecer fragmentada e de o autor parecer ter descurado imensos pormenores importantes na construção do seu mundo.

Só depois de terminada a leitura é que me apercebi que o leitor tem, de certo modo, a 'tarefa' de rearranjar a informação de modo a que se torne coerente. E que quase todos os factos importantes acerca do desenvolvimento desta sociedade (uma colónia humana) estão lá. Com excepção, talvez (e digo talvez porque esta parte me pode ter escapado) de como é que os humanos se esqueceram que possuíam tecnologia avançada, uma vez que todos eles são descendentes dos colonos originais. Os "seres" indígenas do planeta também me pareceram ter alguma falta de caracterização.

Outro aspecto que me criou dificuldades aquando da leitura, mas que em retrospectiva me pareceu genial (não me ocorre outro adjectivo, de momento) foi a escrita. Todo o livro está escrito de uma forma estranha, algo datada (mesmo para os anos 60), como se fosse... um texto religioso, uma fábula ou uma epopeia.

Algumas personagens carecem de caracterização, como já referi acima, mas gostei do facto de o nosso protagonista, Sam, ser provavelmente americano (o seu nome significa América e adequa-se) e apesar da sua veia heróica ter alguns motivos escondidos (ou seja não é um herói perfeito).

A forma como as mulheres são retratadas no livro incomodou-me um bocado; são relegadas para segundo plano, descritas como fracas ou como desejando ser mais masculinas (ou mesmo homens). Pelas diversas situações descritas no livro (os haréns, o facto de só um homem poder estar à frente do panteão), é óbvio que as mulheres são consideradas inferiores. Creio que isto se deve um pouco à época em que foi escrito, mas não desculpa inteiramente esta descrição.

No geral, penso que "Lord of Light" é uma obra muitíssimo bem conseguida em termos de tom, de enredo e de personagens. O facto de não se centrar em tecnologias ultra avançadas e entrar um pouco no domínio da fantasia faz com que seja um livro que pode ser lido em todas as épocas. O autor consegue ainda tocar em assuntos como a religião e a opressão e ordem sociais. Um clássico portanto. Recomendado.