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18 novembro 2013

Opinião: Grave Mercy (Robin LaFevers)

Grave Mercy by R.L. LaFevers
Editora: Houghton Mifflin Harcourt (2012)
Formato: Capa dura | 549 páginas
Género: Ficção YA, Fantasia, Ficção histórica
Descrição (GR): "Why be the sheep, when you can be the wolf?
Seventeen-year-old Ismae escapes from the brutality of an arranged marriage into the sanctuary of the convent of St. Mortain, where the sisters still serve the gods of old. Here she learns that the god of Death Himself has blessed her with dangerous gifts—and a violent destiny. If she chooses to stay at the convent, she will be trained as an assassin and serve as a handmaiden to Death. To claim her new life, she must destroy the lives of others.
Ismae’s most important assignment takes her straight into the high court of Brittany—where she finds herself woefully under prepared—not only for the deadly games of intrigue and treason, but for the impossible choices she must make. For how can she deliver Death’s vengeance upon a target who, against her will, has stolen her heart?"
Ler opiniões no Goodreads é sempre interessante; podemos encontrar bons livros desta forma, mas a verdade é que também formamos expectativas e ideias que podem estar muito, muito longe daquilo que a obra é na realidade. Afinal, uma opinião é, acima de tudo, um texto subjectivo sobre um texto subjectivo (especialmente se estivermos a falar de ficção) que é por sua vez interpretado por uma pessoa de forma subjectiva.

Tudo isto para dizer que "Grave Mercy" não foi bem aquilo que eu estava à espera. Estava à espera de um livro interessante (freiras assassinas? Yes, please!), mas juvenil, com uma história romântica lamechas e algo repentina (romance instantâneo, por exemplo). Neste aspecto, o livro surpreendeu-me pela positiva; "Grave Mercy" não só é mais "adulto" do que estava à espera, tendo em conta que a heroína é uma rapariga de 17 anos, como não houve uma atracção fulminante entre os protagonistas, nem, graças aos deuses literários, um triângulo amoroso.

No entanto, devo dizer que não adorei a forma como esta história foi contada. Louvo a autora pela sua pesquisa histórica (fiquei a saber bastante sobre o ducado de Brittany - do qual sabia quase nada) e pela tentativa de criar uma história intrincada, centrada na intriga política da época. E ainda, por tentar introduzir um elemento "sobrenatural" de forma subtil.

Como acontece com tantos livros a ideia era óptima... mas a execução deixou algo a desejar. Para organizar as ideias, vou tentar fazer uma lista do que acho que "correu mal" (como sempre, na minha opinião):

1. A narrativa/escrita: a narrativa é na primeira pessoa do presente. Nunca gostei particularmente desta forma de narrar, porque se penso que uma narrativa na primeira já é difícil de concretizar, então a narrativa na primeira pessoa do presente... é quase impossível, sem que a mesma pareça demasiado descritivo ou impessoal. E a autora, tenho a dizer, não conseguiu tornar este estilo de narrativa empolgante. De todo. À narrativa, certamente como produto do estilo utilizado, falta-lhe emoção e ritmo.

2. Exploração confusa do enredo: a autora teve uma ideia bastante interessante, ao enviar a nossa heroína, Ismae, para a corte de Brittany. E até conseguiu introduzir parte da intriga de forma eficaz, mas houve partes do livro que me pareceram confusas e mal explicadas, como as "provas" que "provavam" que o vilão era... o vilão. As explicações de Ismae e Duval não fizeram grande sentido para mim no que diz respeito ao verdadeiro espião, pode ter-me escapado alguma coisa, mas penso que não provavam grande coisa.

Também houve muito que ficou por explicar, nomeadamente o envolvimento do convento de São Mortain, a intransigência da abadessa e os desígnios do próprio Mortain, no meio daquela salganhada toda. O mesmo se pode dizer das intenções da mãe de Duval e da falta de resolução para a família deste. Basicamente, ficaram muitas pontas por atar.

3. Falta de protagonismo: das personagens. O "cast" deste livro é bastante grande, desde as amigas da Ismae e das freiras até ao Duval, aos seus amigos e à sua família. Nenhuma das personagens é desenvolvida de modo a causar interesse ao leitor devido, mais uma vez, ao estilo da narrativa que é muito virada para Ismae. Acho que não tenho qualquer imagem mental de Duval ou de Anne, dois dos protagonistas.

E falta de protagonismo da própria Ismae, que supostamente é uma assassina e especialista nas artes "ninjas", mas que acaba por ser relegada muitas vezes para segundo plano. Como quando o Duval lhe diz "Ah e tal, tenho de ir à corte ver cenas e tu tens de ficar em casa". What??

4. Exploração incipiente das "capacidades" de Ismae e de toda a mitologia em volta dos antigos deuses e do São Mortain: o período de aprendizagem da Ismae foi retirado do livro. Numa página ela chega ao convento, duas páginas depois já se passaram dois anos e ela foi treinada em montes de coisas... eu compreendo que o livro já seja grande o suficiente, mas a autora incluiu muitas descrições e cenas supérfluas mais tarde, que, na minha humilde opinião, poderiam ter sido retiradas para dar lugar a mais informações sobre o sistema de crenças das freiras. Afinal, a personagem principal é influenciada pelos ensinamentos do convento. Toda a sua vida e personalidade advém do seu treino.

E, mais uma vez, a Ismae é uma assassina que todos respeitam, mas não utiliza assim muito as suas capacidades (excepto para ouvir às portas).

E é isto. Foram estes os aspectos que me incomodaram neste livro. Por outro lado, fiquei agradavelmente surpreendida pela complexidade da ideia da autora para o enredo. Este mistura história, acção, romance e intriga de forma mais ou menos balançada. Só é pena é que o estilo de narrativa não faça muito para criar uma ligação entre o leitor e as personagens.

No geral, "Grave Mercy" é um livro com todos os ingredientes para se tornar numa leitura agradável. O enredo, a mitologia e o local e época são intrigantes e, se tivessem sido explorados de outra forma, penso que esta teria sido uma das minhas leituras favoritas este ano. Ainda assim é um livro interessante e recomendado para quem gosta de romances históricos com alguma intriga política. E foi um livro de que gostei, apesar da irritação que me causaram alguns aspectos.

08 novembro 2013

Opinião: Os Pilares da Terra (Ken Follett)

Os Pilares da Terra - Ken Follett
Editora: Editorial Presença (2007)
Formato: Capa mole | 1094 páginas (2 volumes)
Género: Ficção Histórica, Romance histórico
Descrição (GR): "Do mesmo autor do thriller "A Ameaça", chega-nos o primeiro volume de um arrebatador romance histórico que se revelou ser uma obra-prima aclamada pela comunidade de leitores de vários países que num verdadeiro fenómeno de passa-palavra a catapultaram para a ribalta. Originalmente publicado em 1989, veio para o nosso país em 1995, publicado por outra editora portuguesa, recuperando-o agora a Presença para dar continuidade às obras de Ken Follett. O seu estilo inconfundível de mestre do suspense denota-se no desenrolar desta história épica, tecida por intrigas, aventura e luta política. A trama centra-se no século XII, em Inglaterra, onde um pedreiro persegue o sonho de edificar uma catedral gótica, digna de tocar os céus. Em redor desta ambição soberba, o leitor vai acompanhando um quadro composto por várias personagens, colorido e rico em acção e descrição de um período da Idade Média a que não faltou emotividade, poder, vingança e traição. Conheça o trabalho de um autêntico mestre da palavra naquela que é considerada a sua obra de eleição."
Mais um (de tantos) livros que já andavam lá por casa há algum tempo. Adquiri "Os Pilares da Terra" na Feira do Livro de Lisboa (não me perguntem qual), por recomendação da, quem mais, Whitelady, mas o facto de serem dois volumes desencorajou-me da leitura durante algum tempo.

Como sou uma pessoa que gosta muito de História, este tipo de livros sempre me interessou. Há algum tempo atrás, um dos meus escritores preferidos dentro do género da ficção histórica escreveu uma série de quatro volumes sobre uma confraria de artesãos no Antigo Egipto; essa série é uma das minhas preferidas até hoje. Estranhamente, essa foi uma das razões que me levou a adiar a leitura de "Os Pilares da Terra"; confesso que tinha algum receio de como Ken Follett, que conheço apenas pelo seu thriller "O Terceiro Gémeo" iria abordar o tema da construção em tempos antigos.

Felizmente, o estilo de Ken Follett é bastante diferente do de Christian Jacq, embora também seja bastante envolvente.

A história passa-se no século XII, na Inglaterra e não tem propriamente um protagonista, a não ser que consideremos a catedral de Kingsbridge um protagonista. O livro segue diversas personagens ao longo dos anos, enquanto a catedral é construída e a instabilidade política no país onde grassa uma guerra civil.

O enredo é soberbo. Follett pinta um retrato algo ficcional, mas intrigante da vida na Idade Média, a prosa mantém o leitor interessado e as personagens, apesar de simplistas na sua construção (a maioria representam estereótipos), ajudam a tornar a narrativa quase de leitura compulsiva.

Ao início, o livro arrasta-se um pouco, chegando a tornar-se aborrecido, mas ganha ímpeto assim que os principais "jogadores" (tantos os "bons" como os "maus") estão em posição. A partir da altura em que Tom, o pedreiro, se torna mestre de obras, a narrativa ganha um ritmo viciante e queremos sempre saber mais. O que se passará a seguir com os protagonistas? Será que a catedral acabará algum dia de ser construída?

Em segundo plano, temos a intriga política da época, a guerra civil, os pretendentes ao trono e o estatuto do Rei na Idade Média, o que foi bastante agradável de ler, para quem, como eu, gosta deste tipo de coisas. No entanto, mesmo estas intrigas, estes enredos secundários, servem apenas para dar impulso ao enredo principal: a construção da catedral de Kingsbridge. E, apesar de muitas das páginas deste enorme livro se dedicarem a contar a história da catedral, a obra nunca se torna aborrecida.

Quanto às personagens, devo dizer que esperava mais. São, como mencionei acima, simplistas e estereotipadas e nunca existe uma evolução notável em nenhuma delas (excepto, talvez, em Aliena). Nenhuma delas me puxou ou incitou emoções fortes.

No geral, este livro foi uma leitura bastante interessante. Podia pôr-me para aqui a falar do retrato que Follett faz da Idade Média, o que ele representou ou não correctamente, mas isso daria pano para mangas (e teria de fazer imensa pesquisa), mas penso que no geral, o autor conseguiu captar pelo menos o espírito da época. As personagens são, definitivamente o ponto fraco da narrativa, mas como um todo, "Os Pilares da Terra" é um livro interessante e bem construído. Recomendado para os amantes de ficção histórica.

08 outubro 2013

Opinião: Outlander - Nas Asas do Tempo (Diana Gabaldon)

Outlander by Diana Gabaldon
Editora: Casa das Letras (2010)
Formato: Capa mole | 774 páginas
Género: Romance Histórico, Fantasia
Sinopse: "Claire leva uma vida dupla. Tem um marido num século e um amante noutro…
Em 1945, Claire Randall, ex-enfermeira do Exército, regressa da guerra e está com o marido numa segunda lua-de-mel quando inocentemente toca num rochedo de um antigo círculo de pedras. De súbito, é transportada para o ano de 1743, para o centro de uma escaramuça entre ingleses e escoceses. Confundida com uma prostituta pelo capitão inglês Black Jack Randall, um antepassado e sósia do seu marido, é a seguir sequestrada pelo poderoso clã MacKenzie. Estes julgam-na espia ou feiticeira, mas com a sua experiência em enfermagem, Claire passa por curandeira e ganha o respeito dos guerreiros. No entanto, como corre perigo de vida a solução é tornar-se membro do clã, casando com o guerreiro Jamie Fraser, que lhe demonstra uma paixão tão avassaladora e um amor tão absoluto que Claire se sente dividida entre a fidelidade e o desejo… e entre dois homens completamente diferentes em duas vidas irreconciliáveis.
Vive-se um período excepcionalmente conturbado nas Terras Altas da Escócia, que culminará com a quase extinção dos clãs na batalha de Culloden, entre ingleses e escoceses. Catapultada para um mundo de intrigas e espiões que pode pôr em risco a sua vida, uma pergunta insistente martela os pensamentos de Claire: o que fazer quando se conhece o futuro?
Um misto de ficção romântica e histórica, Outlander – Nas Asas do Tempo já foi publicado em 24 países."
(Nota: A edição lida encontra-se em inglês mas apresentam-se os dados da portuguesa).

"Outlander - Nas Asas do Tempo" é mais um livro com o qual já tenho alguma "história". Tudo começou há anos, quando a Whitelady leu o livro e mo recomendou. Penso que devia estar numa fase "rebelde" porque apesar de ter conseguido uma cópia gratuita através do Bookmooch, não o li imediatamente. Não, haviam de se passar anos até que pegasse finalmente neste romance histórico massivo, que nos conta a história de uma mulher que viaja até ao século XVIII.

Foi apenas com a notícia da do filme série de TV (que, penso eu, começou recentemente a ser filmada) e com as recomendações de outras bookahólicas que me decidi a ler este livro.

Como acontece tantas vezes (especialmente com as recomendações da Whitelady. Vide O dardo de Kushiel), tenho pena de o não ter lido antes. "Outlander - Nas Asas do Tempo" é uma mistura de tudo o que eu gosto num livro: é um romance histórico (com todas a sensualidade inerente e, claro, com uma história de amor) e é também ficção histórica (a autora traça um retrato bastante detalhado da época).

Claire Randall é uma enfermeira de combate, que recomeçou a sua vida e o seu casamento após sobreviver aos horrores da Segunda Guerra Mundial. Em 1945, Claire e Frank decidem visitar a Escócia para poderem reatar relações depois da guerra os ter mantido separados. Um dia, enquanto Claire passeia pelas paisagens bucólicas da Escócia, depara-se com um círculo de menires. A partir daí é transportada para o ano de 1743, para uma Escócia devastada pela guerra. E é aqui que conhece James Fraser, um jovem guerreiro escocês por quem vai começar a sentir mais do que devia.

Quando li, há algum tempo atrás, "O Segredo de Sophia" de Susanna Kearsley, era isto que procurava. Este livro. O Outlander. Um livro que mergulhasse intensamente na história conturbada dos Jacobitas e da sua luta contra os ingleses; um livro que relatasse a vida, os ideais sociais e as mentalidades da época, sem ter medo de nos mostrar partes que hoje em dia nos horrorizariam. E, claro, um livro com uma forte componente romântica, com uma história de amor quase intemporal, forte e faiscante. Foi isto que encontrei em "Outlander - Nas Asas do Tempo" e é por isso que esta obra entra directamente no meu top 10 das leituras de 2013.

E como é bem sabido que é mais difícil dizer bem do que dizer mal, não me alongarei muito mais. Basta dizer que Diana Gabaldon retratou (ou pelo menos assim parece) minuciosa e fielmente o estilo de vida e as mentalidades de meados do século XVIII. E apesar do conflito entre os Jacobitas e os ingleses ser apenas secundário neste primeiro livro, a escrita genial da autora faz com que o leitor se aperceba da tensão existente na Escócia nesta época.

Quanto às personagens... bem, deixem-me dizer-vos que apesar de ambos os protagonistas terem, essencialmente, papéis "tradicionais" (o homem guerreiro e a mulher curandeira), deu-me ideia de que esta escolha foi, pelo menos parcialmente, propositada. Afinal, Jamie é um habitante do século XVIII pelo que o facto de ser guerreiro não é grande surpresa. Mas Claire não é apenas uma curandeira... ela viveu uma das guerras mais sangrentas da história e é, por isso, que as suas capacidades são invulgares.

As personagens evolvem de forma bastante previsível e concordante à componente romântica, mas contrariamente ao que acontece com outros romances históricos, os protagonistas têm as suas "falhas", que advêm da sua situação (Claire) ou educação (Jamie). E a autora não nos poupa aos resultadas de uma educação em que as mulheres eram consideradas "inferiores".

Não nos poupa também à violência inerente do período. Algumas cenas são perturbadoras, mas nenhuma é gratuita. O vilão é, talvez, algo estereotipado, mas as suas acções não fogem aos parâmetros estabelecidos pela História e pela autora.

No geral, adorei. Não é um livro perfeito, mas é muito bom. Tem romance, acção, aventura, personagens carismáticas e complexas e o ritmo é pausado e gradual, mas sempre interessante. Recomendado para todos os amantes de ficção histórica (se não se importarem com a forte componente romântica).

31 agosto 2013

Opinião: As Mulheres de Summerset Abbey (T.J. Brown)

As Mulheres de Summerset Abbey by T.J. Brown
Editora: Noites Brancas (2013)
Formato: Capa mole | 300 páginas
Género: Ficção Histórica
Descrição (GR): "Quem se rendeu à série televivisa Downton Abbey não pode perder este livro. E todos os outros também não. Porque se ambos têm como pano de fundo os usos e costumes da época vitoriana, os jogos de poder da aristocracia britânica e um determinado estilo de vida, As Mulheres de Summerset Abbey tem muito mérito próprio.
Três jovens mulheres, uma bela propriedade rural, um lifestyle característico do início do século XX, histórias de uma amizade profunda e segredos de família são alguns dos elementos que os leitores vão encontrar neste romance de T. J. Brown.
A autora inspirou-se na mesma época retratada na famosa série de televisão para contar as histórias de Rowena e Victoria Buxton e Prudence. A história segue a vida destas três jovens, criadas como irmãs por Sir Philip Buxton. Rowena e Victoria são irmãs, Prudence era filha de uma governanta e para o lorde de Summerset isso faz com que seja apenas mais uma entre os criados da propriedade. Ainda assim, a ligação que as une é forte. 
Numa época plena de mudanças e com os primeiros sinais de uma provável guerra, As Mulheres de Summerset Abbey é um romance histórico ímpar que capta como poucos as relações entre mulheres."
Comprei este livro principalmente pela associação com a série de TV Downton Abbey. É uma série de época bastante conhecida e apesar de não a adorar acho que é bastante interessante. Na sequência da popularidade da série apareceram vários livros de ficção histórica passados na época exactamente anterior à 1.ª Guerra Mundial. Este é um deles.

Não tinha expectativas, pelo que não me senti particularmente chateada quando o livro revelou ser "nada de especial". É uma leitura agradável, certamente, e percebe-se que a autora tinha a intenção de explorar a dinâmica das diferentes classes sociais no início do século XX (um período de acentuada mudança social, geopolítica e tecnológica), mas é bastante óbvio que T.J. Brown não soube equilibrar correctamente as diversas vertentes (a luta de classes, a exploração da personalidade de três mulheres e o romance) que quis incluir no livro.

Rowena, Victoria e Prudence cresceram juntas na casa de Londres de Sir Buxton, apesar de Prudence ser filha da governanta. Mas quando o pai de Rowena e Victoria morre, dá-se uma mudança radical na vida destas três jovens; são levadas para Summerset Abbey, a casa ancestral do Conde de Summerset, o irmão de Sir Buxton. Aí, são confrontadas com uma realidade muito diferente da que estavam habituadas; os Buxton são aristocratas e orgulham-se do facto. E apesar de Rowena e Victoria serem da família, Prudence não é.
O livro explora as jornadas destas três mulheres: Rowena, dividida entre o mundo sedutor da superioridade aristocrática e a educação igualitária que recebeu; Victoria, que anseia ser mais do que é; e Prudence que se vê relegada para o papel de criada, apesar de ter sido criada como irmã das Buxon, e que sente na pele, pela primeira vez, o quão injusta é a sociedade.

O problema deste livro é ser demasiado curto. São 290 páginas nas quais a autora pretendia caracterizar três mulheres complexas que vivem uma situação complexa numa época complexa. Escusado será dizer que não funcionou. Nada é explorado a fundo, as "mulheres de Summerset Abbey" não se desenvolvem assim muito ao longo do livro (excepto, Prudence) e o romance é tudo menos verosímil.

Mesmo assim, gostei da escrita e certamente do conceito; mas gostaria que as protagonistas mostrassem mais personalidade e que a luta de classes fosse mais evidenciada.

No geral, uma leitura agradável, mas bastante mais superficial do que esperava.

07 agosto 2013

Opinião: Mariana (Susanna Kearsley)

Mariana by Susanna Kearsley
Editora: Asa (2013)
Formato: Capa mole | 352 páginas
Género: Romance, Ficção histórica
Descrição (GR): "Julia Becket acredita no destino. Ela tinha apenas cinco anos quando viu Greywethers pela primeira vez, mas soube de imediato que aquela era a sua casa. Vinte e cinco anos depois, tornou-se finalmente sua proprietária. Mas Julia depressa começa a suspeitar de que existe algo de poderoso e inexplicável por detrás da sua decisão radical de abandonar Londres e começar de novo numa pequena aldeia. Os novos vizinhos são calorosos e acolhedores, muito particularmente Geoff, o aristocrático proprietário de Crofton Hall, com quem sente uma ligação imediata. Mas a vida tal como ela a conhecia acabou, e outra bem diferente está prestes a começar. Uma vida que inclui Mariana, que habitou aquela mesma casa trezentos anos antes e cujo destino ficou tragicamente por cumprir. A história de Mariana vai- se revelando a pouco e pouco, apoderando-se da sua vida como um feitiço. Ao longo dos séculos que separam as duas jovens, uma promessa de amor eterno aguarda o desfecho que o destino lhe negou. Conseguirá Julia desvendar no presente os enigmas do passado? Será que Mariana esteve sempre à sua espera?"
AVISO: SPOILERS (assinalados).

Se mistérios e thrillers não são o meu género de eleição, é certo que torço também o nariz ao romance contemporâneo. Não sei bem porquê (talvez tenha lido demasiadas vezes o "Diário de Bridget Jones" na minha juventude). Mas quando a Catsadiablo gosta de um livro e o recomenda, obviamente que uma pessoa fica mais predisposta a ler algo do autor.

Cinquenta mil visitas a Fnacs, Continentes e afins depois, ainda não tinha encontrado o livro (em Portugal intitulado, "O Segredo de Sophia"), pelo que me decidi a comprar antes este, que é da mesma autora. 

Ainda bem que o fiz. Este livro foi uma leitura extremamente agradável e viciante mesmo.

Julia sonha com uma determinada casa desde que a viu pela primeira vez, aos cinco anos. Para ela Greywethers é efectivamente a sua casa. Por isso, quando surge a oportunidade de a comprar, Julia reúne as suas poupanças e juntamente com a herança deixada por uma tia, compra a casa, que data do século XVII. Depressa começa a ter estranhas visões, que incluem um cavaleiro montado num cavalo cinzento e uma jovem chamada Mariana. Quem é Mariana e qual é a relação desta com Julia?

O tema deste livro é um amor tão forte que atravessa os séculos. Geralmente não vou muito à bola com este tipo de histórias, porque são quase sempre exageradas e melodramáticas, mas neste caso, a autora conseguiu um equilíbrio perfeito e felizmente o enredo não é "foleiro" nem ao estilo de uma novela da TVI (não é por nada, mas o nível de drama nessas novelas é demais para o meu gosto... só isso). Júlia é uma personagem simpática, de quem é fácil gostarmos. Quanto ao herói (do qual também é extremamente fácil gostar, para que saibam... é muito querido)... bem, é aqui que começam os spoilers. Porque, sim, este livro foi bastante absorvente; sim, gostei da leitura e do ritmo da narrativa e das personagens e mesmo do romance, em geral. Mas este livro tem um triângulo amoroso e não creio que lhe tenha sido dado o destaque necessário. Como explicar? Aqui vai. (SPOILERS ahead!)

A Mariana reencarna na Julia e esta segue a viagem daquela e vive o seu romance em "visões" do século XVII. Ora, o herói, o Richard de Mornay também reencarnou. E a heroína passa o livro quase todo a pensar que ele é uma determinada pessoa e só no final (literalmente nas últimas páginas) é que se apercebe que é outro homem. Logo, não há grande desenvolvimento na relação entre a Julia e o Richard de Mornay do século XX. Para já não falar do facto que o homem que a Julia pensa ser Richard de Mornay tem muito mais destaque do que o que é efectivamente Richard de Mornay; e a Julia gosta dele (do primeiro e não do segundo). No entanto, quando ela descobre a verdadeira identidade do Richard parece conseguir descartar os seus sentimentos pelo outro homem, assim sem mais nem menos. Basicamente, esta dinâmica pareceu-me estranha e pouco convincente. FIM dos SPOILERS.

No geral, um livro muito ternurento. Bem escrito, interessante, com uma pitada de história à mistura. Só tenho pena que o final tenha sido tão abrupto, que a relação entre os protagonistas tenha parecido bastante vazia e que o facto de Julia se sentir atraída por outro homem no presente não pareça ter criado conflito. Mas isso é um ponto menor. Recomendado.

05 agosto 2013

Opinião: O Estrangulador de Cater Street (Anne Perry)

O Estrangulador de Cater Street by Anne Perry
Editora: Asa (2013)
Formato: Capa Mole | 336 páginas
Género: Ficção histórica, mistério/ thriller
Descrição (GR): "O primeiro mistério do casal de detectives Charlotte e Thomas Pitt Enquanto as irmãs Ellison - Charlotte, Sarah e Emily - visitam amigos e tomam chá nos melhores salões londrinos, uma das suas criadas é brutalmente assassinada. Para Thomas Pitt, o jovem e pacato inspetor destacado para o caso, ninguém está acima de suspeita. A sua investigação na requintada casa da família Ellison vai provocar reações extremas: para uns, será de absoluto pânico; para outros, de deselegante curiosidade; para a jovem Charlotte será algo mais íntimo e empolgante. Algo capaz de levar Thomas a perder momentaneamente o seu instinto detetivesco e a andar com a cabeça nas nuvens. Mas sobre o casal pairam sombras impossíveis de ignorar: Charlotte é uma menina da sociedade e Thomas pertence à classe trabalhadora... e o assassino que atormenta as ruas da cidade continua à solta, implacável."
Aviso: Um spoiler muito pequeno (nem sei se é)

Já tinha ouvido falar de Anne Perry, claro, porque esta senhora já escreve livros há bastante tempo e tem fama de escrever bons livros. No entanto, os mistérios nunca foram o meu género favorito e foi por isso que comecei esta leitura com alguma trepidação. 

Se me perguntassem o porquê de ter, sequer, adquirido este livro, tenho de confessar que não saberia como responder. Talvez tenha sido a capa, com o Big Ben em proeminência, ou a sinopse que dá a entender que se trata, mais ou menos, de um "cozy mystery" ao estilo dos da Agatha Christie, passado na época Vitoriana. Sinceramente não sei. Mas comprei-o e deu-me vontade de o ler, e apesar de este realmente não ser o meu género acho que valeu a pena pois foi uma leitura muito agradável.

Charlotte Ellison é a irmã do meio de uma família de classe média alta. O seu pai trabalha num banco na City e ela pode dar-se ao luxo de ser ociosa e de se preocupar com tão pouco como a paixoneta que tem pelo marido da irmã ou com os cachecóis que tem de levar à casa do vigário. Mas Charlotte é inquisitiva e gosta de fazer coisas "pouco femininas" como ler os jornais e discutir os assuntos que tipicamente são mais masculinos do que femininos.

Quando uma jovem aparece estrangulada em Cater Street, perto da sua casa, Charlotte trava conhecimento com Thomas Pitt, um inspector da polícia (de classe mais baixa, claro). Pitt dá-lhe a conhecer um mundo que Charlotte desconhecia e à medida que o assassino tresloucado vai deixando um rasto de vítimas, ela e Pitt têm de unir esforços (mais ou menos) para descobrir a identidade do estrangulador.

Este livro lembrou-me realmente, em certos aspectos, dos de Agatha Christie. Há um foco bastante vincado no desenvolvimento das personagens, no que diz respeito aos seus sentimentos relativamente aos crimes. Anne Perry mostra-nos com mestria como uma comunidade mais ou menos amigável se vai tornando hostil quando se abate sobre eles a suspeita. É curioso ler sobre os processos de pensamento de Charlotte, da sua mãe e de Dominic o marido da irmã de Charlotte, por quem ela tem uma paixão secreta. É também interessante (mas algo macabro) descobrir as motivações do culpado.

O mistério é bastante simples, mas não deixa de ser inventivo. Talvez se deva ao facto de ler poucos livros de mistério, mas apesar de ter algumas suspeitas não consegui ter a certeza da identidade do assassino.

O que já não achei tão bom foi o "romance". Charlotte e Pitt são uma "dupla" de detectives (isto não é propriamente um spoiler, vem na contracapa) e é neste livro que se conhecem. No entanto, não achei que houvesse grande química entre ambos. Mas tenho de reconhecer que ambas as personagens são carismáticas; gostei bastante do facto do Thomas gostar da Charlotte exactamente por ela não ser um modelo de feminilidade Vitoriana.

No geral, uma leitura agradável. A autora imprime um bom ritmo à narrativa, não havendo tempos mortos, apesar de haver uma boa dose de introspecção por parte das personagens. O mistério é adequado, as personagens são interessantes q.b. e a escrita é fluida. Para quem gosta de história, as descrições dos valores e do quotidiano vitorianos irão com certeza ser uma adição intrigante. Devo também referir a excelente qualidade da tradução (quero dizer, pelo menos do texto). Recomendado para os fãs de Agatha Christie.

21 julho 2013

Opinião: Morte em Pemberley (P.D. James)

Morte em Pemberley by P.D. James
Editora: Porto Editora (2013)
Formato: Capa mole | 304 páginas
Género: Mistério, Ficção histórica
Descrição (Porto Editora): "1803. Elizabeth Bennet e Fitzwilliam Darcy o famoso par de Orgulho e Preconceito, casados há já seis anos e com dois filhos, não podiam estar mais felizes na imponente propriedade rural de Pemberley. Até ao dia em que Lydia, uma das irmãs Bennet, chega à mansão gritando que o marido foi assassinado na floresta.
Em Morte em Pemberley, P. D. James combina as suas duas maiores paixões: a literatura policial e a obra de Jane Austen. O romance é uma clara homenagem à grande autora novecentista, mas faz justiça também às melhores histórias de assassinato, seguindo a tradição dos grandes romances de mistério sobre a aristocracia inglesa. Ou não fosse P. D. James a grande senhora do crime nas terras de Sua Majestade..."
PRIMEIRAS IMPRESSÕES: Nem sei bem o que dizer. O que me tem passado pela cabeça mais frequentemente é "que raio de introdução à autora de "The Children of Men"!"

Primeiro, devo dizer que não tinha quaisquer expectativas em relação a este livro. Quero dizer, já tinha visto que tinha classificações algo baixas aqui no Goodreads, mas não li nenhuma crítica e tentei não formar ideias preconcebidas. Dentro da medida do possível, porque obviamente, apesar de nunca ter lido nenhum livro dela, sei quem é a P.D. James. E como tantas outras pessoas, já vi "Os Filhos do Homem".

Mas que desilusão que este livro foi. Fiquei bastante curiosa com a ideia do livro: um crime em Pemberley, com as personagens da minha obra favorita, "Orgulho e Preconceito", envolvidas? Sim, se faz favor! Muitos fans não gostam de ler o que é, essencialmente, "fan fiction" (isto é, tudo o que são sequelas e afins) dos seus livros favoritos, mas eu até gosto de um ou outro. Mas este. Não. Simplesmente, não.

1803. Elizabeth e Darcy estão casados há seis anos, têm dois filhos e passam as suas vidas tranquilamente entre visitas aos seus vizinhos os Bingley, festas e outras coisas que os nobres da altura faziam. Um dia, estão todos muito bem na conversa quando a Lydia aparece a dizer que o Wickham foi assassinado, ai qu'horror. E pronto assim começa. Eu pensei que o Mr. Darcy e a Elizabeth iam desvendar um mistério, mas não é nada disso que acontece. O que acontece é entrarem todos em pânico e sentirem-se todos muito deprimidos (a tentativa falhada da autora de dar um ar gótico à coisa, juntamente com a noite escura e ventosa) porque quem morreu foi o Denny, o amigo do Wickham, e o Mr. Darcy tem de ser uma testemunha no inquérito, woe!

Eis o meu problema principal: o "mistério" foi completamente ridículo e previsível. Parece ter sido escrito por um miúdo de cinco anos (sem ofensa para os miúdos de cinco anos), uma vez que o seu grau de complexidade é para aí... menos um. Metade do livro é "info-dump" sobre o que se passou em "Orgulho e Preconceito" com uma data de personagens; a autora limita-se a fazer um resumo do livro, como se estivéssemos a ler um daqueles livros que explicam aquelas obras chatas que temos de ler no secundário para que possamos passar sem termos de ler o livro.
Além disso, todas as personagens, quer apareçam quer não (quer entrem no enredo por carta, como é o caso da Lady Catherine ou do Mr Collins) dizem e fazem coisas muito parecidas com o que fizeram no livro original; ou seja, desenvolvimento das personagens? Zero.

A Elizabeth quase não aparece, o Mr. Darcy não faz uso dos miolos e o Coronel Fitzwilliam e a Georgiana foram vítimas dos body-snatchers, só pode, porque longe de não terem mudado nada, estão 100% diferentes sem nenhuma razão aparente.

Nenhuma das personagens participa na resolução do crime, são todos meros espectadores e/ou testemunhas. Tudo o que fazem é prestar depoimentos (e nem o julgamento tem emoção suficiente para interessar o leitor) e lamentarem-se porque uma pessoa morreu no bosque de Pemberley e ai que agora está tudo tão gótico por causa disso. Alguns dos acontecimentos nem sequer são explicados (as letras que a Elizabeth e a Georgiana encontraram gravadas nas árvores, por exemplo) e não existem quaisquer pistas que nos permitam tentar adivinhar ou mesmo apenas especular sobre o que se passou. A conclusão, com a descoberta do culpado, é completamente aleatória e não faz muito sentido. Não descobri quem era o culpado porque simplesmente não há pistas, "foreshadowing", nada que nos permita antever as motivações para o crime.

Este foi o meu primeiro livro de P.D. James mas esperava mais, sendo ela tão famosa. Isto foi... bastante mau. Sinceramente, não recomendo isto a ninguém. Nem aos fans de Jane Austen, nem aos de James e nem a quem só queira ler um livro de mistério.
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25 outubro 2012

Opinião: O Lar da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares (Ramson Riggs)

O Lar da Sra. Peregrine para Crianças Peculiares by Ransom Riggs
Editora: Contraponto (2012)
Formato: Capa Mole | 344 páginas
Géneros: Fantasia Urbana, Lit. Juvenil
Descrição (Bertrand.pt): "Uma ilha misteriosa. Uma casa abandonada. Uma estranha coleção de fotografias peculiares. 
Uma terrível tragédia familiar leva Jacob, um jovem de dezasseis anos, a uma ilha remota na costa do País de Gales, onde vai encontrar as ruínas do lar para crianças peculiares, criado pela senhora Peregrine.
Ao explorar os quartos e corredores abandonados, apercebe-se de que as crianças do lar eram mais do que apenas peculiares; podiam também ser perigosas. É possível que tenham sido mantidas enclausuradas numa ilha quase deserta por um bom motivo. E, por incrível que pareça, podem ainda estar viva as...
Um romance arrepiante, ilustrado com fantasmagóricas fotografias vintage, que fará as delícias de adultos, jovens e todos aqueles que apreciam o suspense."
AVISO: Contém SPOILERS!
(Nota: a edição lida foi a inglesa, mas apresentam-se os dados da portuguesa)

Com a recente explosão de obras sobrenaturais juvenis no mercado português, é normal que uma pessoa alguma trepidação ao começar um livro do género.

No entanto depois das muitas opiniões positivas d'O Lar da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares que li no Goodreads estava com algumas expectativas em relação a este livro... e de certo modo estas expectativas não foram defraudadas. Mas lá chegaremos.

O nosso protagonista, Jacob, cresceu a ouvir as histórias fantásticas do seu avô, Abe, sobre o lar para crianças onde passara parte da infância.

Abe regalava o neto com o dia a dia atribulado de um conjunto de crianças muito peculiares: o rapaz que tinha abelhas dentro do corpo; a rapariga que flutuava como um balão e o rapaz invisível, entre muitos outros. Claro que Jacob, como todas as crianças cresce e aos 16 anos, sabe que as histórias do seu avô não passam de fantasia.

Quando Abe morre inesperadamente, atacado por uma criatura estranha as suas últimas palavras reacendem a dúvida no espírito de Jacob: será que aquilo que o avô lhe contava tinha um fundo de verdade?

As respostas estão numa ilha remota, no País de Gales, onde ficava o lar para crianças peculiares da Senhora Peregrine. E é para lá que Jacob vai.

Algumas opiniões no Goodreads mencionam que este livro parece ter duas "partes" (notavelmente a review dos Book Smugglers) e que o livro sofre uma transformação radical da primeira para a segunda parte. Eu concordo plenamente. Foi exactamente isso que senti ao ler o livro.

A primeira parte é genial. Muito atmosférica, com personagens bem desenvolvidas e uma magia muito própria. Abe conta histórias a Jacob e mostra-lhe fotografias antigas (reproduzidas no livro) de coisas "peculiares", o tipo de atracções que esperaríamos ver num circo dos anos 50. Jacob é um adolescente atípico e muitas vezes infantil, mas creio que resulta neste livro.

Depois da morte do avô é-nos mostrada a forma como Jacob lida com a dor e com os problemas que advêm de acreditar em "coisas peculiares". E claro, a visita à ilha e a descoberta das ruínas do lar da Senhora Peregrine tornaram a leitura ainda mais empolgante. Parecia estar a desenvolver-se um mistério interessantíssimo.

Infelizmente Jacob não tarda a perceber o que se passou no lar da Senhora Peregrine e a partir daí o livro perde muito da sua graça e encanto. Há um romance muito mal explicado e desenvolve-se uma linha de acção que é muito menos interessante do que a anterior. Algumas das explicações em relação aos "hollows" não me convenceram e algumas partes da história não fazem grande sentido. Continuamos a ter fotografias mas considero que são desnecessárias nesta parte e torna-se irritante ter o texto cortado por uma ou duas páginas de fotografias supérfluas.

No geral um livro com muito potencial e uma primeira parte belíssima. Mas penso que o autor quis fazer demasiado com a história logo no primeiro livro e ficou uma grande salganhada lá pelo meio. O facto de se apoiar nos materiais fotográficos durante o livro todo também não ajudou. Podia ter sido muito bom, mas mesmo assim recomendo. Dentro das obras juvenis com este tema, é das melhores publicadas em Portugal.

17 setembro 2012

Discussão: Nunca me Esqueças (Lesley Pearse)

Apesar da primeira leitura conjunta não ter sido um sucesso (não gostámos muito do livro), eu e a Whitelady (Este meu Cantinho) insistimos com uma segunda edição; desta vez escolhemos o livro Nunca me Esqueças de Lesley Pearse. Cliquem aqui para verem as nossas conclusões sobre o livro. 

Detalhes da edição lida:
Título Original: "Remember Me"
Autor: Lesley Pearse
Série: N/A
Editora: Asa
Data de Publicação: Novembro 2008
Encadernação: Capa Mole
N.º de Páginas: 432
Idioma: Português
Géneros: Ficção Histórica, Romance

13 setembro 2012

Opinião: Long Lankin (Lindsey Barraclough)

Editora: Corgi Children's (2012)
Formato: Capa mole | 464 páginas
Géneros: Lit. Juvenil, Mistério, Terror, Fantasia Urbana
Descrição (GR): "In an exquisitely chilling debut novel, four children unravel the mystery of a family curse - and a ghostly creature known in folklore as Long Lankin. 
When Cora and her younger sister, Mimi, are sent to stay with their elderly aunt in the isolated village of Byers Guerdon, they receive a less-than-warm welcome. Auntie Ida is eccentric and rigid, and the girls are desperate to go back to London. But what they don't know is that their aunt's life was devastated the last time two young sisters were at Guerdon Hall, and she is determined to protect her nieces from an evil that has lain hidden for years. Along with Roger and Peter, two village boys, Cora must uncover the horrifying truth that has held Bryers Guerdon in its dark grip for centuries - before it's too late for little Mimi. Riveting and intensely atmospheric, this stunning debut will hold readers in its spell long after the last page is turned."
AVISO: Alguns SPOILERS.
Geralmente não costumo escrever opiniões em português de livros que não estão publicados por cá, mas Long Lankin foi uma leitura tão surpreendente que decidi que valia a pena dar a conhecer este livro aos leitores que gostam deste género.

Quando comecei esta leitura não esperava muito da obra. Este livro é geralmente classificado como "juvenil" (ou YA - jovem adulto) pelo que depreendi que se tratava de mais uma obra na veia de Sangue Ruim. Com fantasmas e casas assombradas e uma heroína metida no meio de um imbróglio sobrenatural. Provavelmente com um romance adolescente lá pelo meio.

Devia ter lido melhor a sinopse.

Primeiro, Long Lankin não se passa na actualidade, mas sim nos finais dos anos 50, em Inglaterra. A autora pinta um retrato assustadoramente real da vida numa pequena aldeia pouco mais de dez anos após a Segunda Guerra. Não há qualquer tentativa de sanitizar a realidade: Barraclough descreve a situação de miséria em que tantos ingleses se encontravam; as diferenças entre classes e entre o campo e a cidade; a dor sentida pelas famílias ao perderem os seus filhos. Os protagonistas desta história - um grupo de crianças de idade indeterminada - comem mal (por vezes comem mesmo pão bolorento), brincam em abrigos contra bombas e têm muitas vezes de se desenvencilhar sozinhos. São crianças muito auto-suficientes, com preocupações diferentes das actuais.

Tudo isto nos é descrito em pormenor pela autora, nas primeiras 200 páginas. Este é outro aspecto a reter em relação a este livro: o ritmo é lento, quase demasiado lento a princípio. Barraclough leva o seu tempo a descrever os locais de interesse na aldeia onde se passa a trama, a vida quotidiana das pessoas, os passatempos das crianças protagonistas, entre outras coisas. A parte sobrenatural do enredo vai-se insinuando lentamente em conversas e suspeitas vagas, mas nada de significativo acontece durante quase metade do livro.

Este ritmo e esta demora em chegar ao ponto central da história tornaram a leitura aborrecida. Mas quando Cora (a heroína) e Roger (o herói) começam a investigar a lenda de Long Lankin, o livro torna-se tão interessante (apesar de igualmente descritivo) que é quase impossível largá-lo. Queremos sempre saber mais.

Long Lankin é, de certo modo, a personagem central deste livro. Trata-se de um espírito maléfico baseado numa personagem de uma balada inglesa ('Long Lamkin'), que é também várias vezes apresentada ao longo do livro (na sua versão de 1968, cantada por Martin Carthy). Os nossos heróis vão ter vários encontros com esta personagem e terão de tentar descobrir as suas origens.

No geral, gostei deste livro. Custou-me um bocado entrar na leitura porque muito pouco acontece de início, mas assim que o Long Lankin aparece, o livro torna-se mais interessante. Algumas partes são perturbadoras, quer devido ao realismo que influi por esta obra quer devido à mestria da autora em criar uma personagem maléfica e repulsiva. Apesar do seu começo lento, Long Lankin é um livro que fica connosco muito depois de terminarmos a leitura. 
Penso no entanto que dificilmente agradará aos leitores de YA mais tradicional não só pelo nível de exposição, mas também porque as personagens são mais realistas e consequentemente mais 'infantis' do que é normal dentro do género. A inexistência de um romance poderá também desencorajar alguns leitores.

04 agosto 2012

Discussão: Duas Irmãs, um Rei (Phillipa Gregory)

Duas Irmãs, um Rei by Phillipa Gregory
Editora: Civilização Editora (2008)
Formato: Capa mole | 640 páginas
Géneros: Ficção Histórica, Romance
Sinopse (GR): "Duas Irmãs, Um Rei apresenta uma mulher com uma determinação e um desejo extraordinários que viveu no coração da corte mais excitante e gloriosa da Europa e que sobreviveu ao seguir o seu próprio coração.
Quando Maria Bolena, uma rapariga inocente de catorze anos, vai para a corte, chama a atenção de Henrique VIII. Deslumbrada com o rei, Maria Bolena apaixona-se por ele e pelo seu papel crescente como rainha não oficial. Contudo, rapidamente se apercebe de que não passa de um peão nas jogadas ambiciosas da sua própria família. À medida que o interesse do rei começa a desvanecer-se, ela vê-se forçada a afastar-se e a dar lugar à sua melhor amiga e rival: a sua irmã, Ana. Então Maria sabe que tem de desafiar a sua família e o seu rei, e abraçar o seu destino. Uma história rica e cativante de amor, sexo, ambição e intriga."
Recentemente, eu e a Whitelady do blogue "Este meu Cantinho" fizemos uma espécie de leitura conjunta do romance histórico "Duas Irmãs, um Rei" (The Other Boleyn Girl) da autoria de Phillipa Gregory.

O romance retrata a vida na corte do rei inglês Henrique VIII durante a primeira metade do século XVI, através dos olhos de Maria Bolena, a irmã mais nova (algumas fontes pensam que seria a mais velha) da segunda esposa do rei, Ana Bolena.

Com pouca substância histórica e personagens bi-dimensionais, este romance soube a pouco. Trocámos algumas impressões acerca desta obra e apontamos as causas do nosso desencanto com um livro que foi um sucesso a nível internacional e deu mesmo origem a um filme.


slayra: Então, Whitelady, o que te fez pegar neste livro em particular?

Whitelady: Peguei nele porque foi-me emprestado por uma colega de trabalho, e os livros emprestados têm preferência, e porque esperava riscar mais um quadrado no Book Bingo. Tal não aconteceu porque não cheguei a acabá-lo.

Pedi emprestado porque andava de olho neste livro desde que saiu o filme, por isso há anos, não só porque se trata de ficção histórica, que tem sempre um lugarzinho especial nas minhas preferências, mas também porque parecia debruçar-se sobre uma época e personagens que sempre achei serem das mais fascinantes da História. Mas eu devia ter sabido no que me estava a meter quando uma das colegas por quem o livro passou (parece que estamos prestes a formar um grupo de leitura no trabalho, já que há livros que vão passando por um monte de mãos :D ) parecia demorar-se na leitura. Ele até fascina, mas pela insipidez da narrativa.

slayra: Tenho de concordar contigo em relação à insipidez da narrativa. A protagonista, Maria Bolena, parece ter muito poucos miolos, por assim dizer. Ao início pensei que fosse devido à idade (empurrada para os braços do rei aos 13 anos), mas a sua irmã, Ana Bolena pareceu-me bastante mais calculista e cabeça-fria, apesar de ser apenas um ano mais velha.

E quando a protagonista é aquilo que chamo, por falta de melhor termo, uma sonsa, uma pessoa fica realmente com pouca vontade de saber mais.  E o facto da história se centrar nas maquinações da família Bolena não torna o enredo mais interessante; nunca se fala assim muito de política apenas de jogos amorosos e dos esforços para atirar ambas as irmãs ao rei.

Por falar em rei, o que achaste do Henrique [VIII]?

Whitelady: Achei-o mimado, cheio de caprichos e aqui deixa-me ressalvar que o retrato da corte até me parece estar bem conseguido. Gostei sobretudo de ver a preocupação em manter o rei entretido e satisfeito, chegando ao cúmulo de toda a gente perder jogos para alimentar o seu ego ou rirem-se apenas quando ele se ria.

Maria Bolena. (Fonte)
Sim, a Maria deve ser, de toda aquela família, a personagem mais aborrecida que a autora podia ter escolhido para seguir. Começa como uma jovem de 14 anos, casada com alguém que não conhecia aos 12, para que a família pudesse ganhar algo com isso. Ao longo da história (mas vai daí nem metade eu li) acabei por não perceber bem o que ganharam com este casamento. Apoio? Um homem que não se importaria de ser corno manso? O_o E como é estúpida, meu Deus! A vontade que tive de atirar o livro à parede quando o irmão é forçado a explicar-lhe as consequências de o imperador espanhol aprisionar o Papa. *massive eye roll*

A Ana acaba por ser mais inteligente. Acho que se destaca por ter uma ambição desmedida num mundo onde praticamente não há espaço para a mulher, que para pouco mais serve que alegrar a vista e ser usada como peão nas jogadas de corte, contraindo matrimónios ou enfiando-se na cama do rei, por modo a conseguir favores e títulos para toda a família, quase como uma espécie de máfia.

Ana Bolena (Fonte)
Realmente de política vê-se pouco, quando é uma das épocas mais ricas da História, não só inglesa como europeia (já para não falar mundial com os portugueses a darem novos mundos ao mundo). E diria que mesmo das relações amorosas vê-se muito pouco. É suposto a Ana estar apaixonada pelo Percy (?) e a Maria pelo Henrique, mas acaba por ser mais tell do que show. Nunca nos é mostrado nenhuma ação que nos prove realmente o sentimento. Quanto à Ana, tudo bem ela não dava ponto sem nó e o facto de dizer que estava apaixonada pode não ser bem assim, mas toda a escrita acaba por ter falta de emoção, mesmo no que a ligações familiares diz respeito. A Maria chega mesmo a dizer "Era melhor que ninguém soubesse que eu teria sepultado os Howard, cada um deles excepto Jorge, no grande túmulo da família e nunca o encararia como uma perda." Até me custa acreditar que estavam a trabalhar para a família, parece que só viam o seu próprio umbigo e a sua progressão à custa de um elemento da família mais fraco e com nenhuma iniciativa, ou seja à custa de Maria, que só ganha alguma espinha depois de ter os filhos.

Ela é tão fraca como personagem e acaba por ser fraca como mulher! E não é por falta de bons exemplos. Quer dizer, a irmã tem inteligência, procurava cultivar-se, e a Maria manda-lhe livros à espera que Ana lhe faça resumos em vez de pôr os seus miolos a funcionar. *revira os olhos* Admira Catarina por ser o "embodiment" (esqueço-me da palavra em PT) do que uma rainha deve ser e comportar-se, mas ela enrijece como aquela? Não, deixa toda a gente pisá-la! Bah!

Ana Bolena (Natalie Dormer) na série Os Tudors
slayra: Também achei o mesmo. Demasiado mimado e juvenil. Acho que a autora não lhe dá crédito suficiente enquanto monarca. Aliás um dos meus problemas com o livro foi exactamente a forma como a autora retrata as personagens. São todas horrorosas em termos de personalidade. A Ana Bolena é especialmente má: manipuladora, uma histérica e aparentemente muito mimada. A inteligência do rei não é tida em grande conta uma vez que a Ana parece ser bastante desequilibrada mas mesmo assim consegue manipulá-lo.

A Maria é realmente aborrecida. É sempre um cordeirinho (ahah), faz tudo o que lhe mandam e nunca se defende. As mulheres eram realmente consideradas seres inferiores, mas algumas faziam pela vida. Parece-me que a Ana Bolena era uma dessas mulheres, e olha o que lhe valeu a inteligência? O ideal da mulher submissa e pouco inteligente (Maria) é considerado, neste livro, escrito no século XXI, como a perfeição. A ambição por parte das mulheres leva apenas ao afastamento. É a mensagem que retiro do livro.

Claro que na época era provavelmente assim. Mas é bastante evidente que a própria autora não gosta da figura da Ana Bolena pelo que a escreveu de forma a que não tivesse qualquer qualidade positiva. 

Whitelady: Acho que a autora não dá qualquer qualidade positiva a ninguém e caracteriza de forma bastante extremada para diferenciar as poucas personagens que povoam com mais frequência a narrativa. Não há quase nenhuma personagem com voz própria e só as diferenciamos porque uma é bitchy em comportamentos e como fala, a outra é a mais dócil das criaturas, etc, mas pouco mais sabemos sobre elas. Entre o pai e o tio, por exemplo, nem sequer fazia diferença quem é que estava a falar, porque ambos soavam ao mesmo, mais valia existir apenas um deles. 

Ana (Natalie Portman) e Maria (Scarlett Johansson)
Bolena (Duas Irmãs, um Rei)
Para um livro tão longo há pouca evolução de personagens, mas vai daí nem a meio da leitura cheguei. Também fiquei com a sensação de que havia muita coisa a acontecer, mas depois fechava o livro e parece que a história pouco ou nada tinha avançado. Não sei se me faço perceber. Li quase 300 páginas e nessas 300 páginas a corte passeou de um lado para o outro, a Maria meteu-se na cama do rei, teve dois filhos e foi trocada pela irmã, tudo isto sob o olhar da Catarina enquanto rezava. E foi isto! Supostamente houve batalhas, negociações com o rei francês e o imperador espanhol, mas disto nada vemos e é isto, que na minha opinião, faz um bom romance histórico. Tentar colocar a protagonista no centro de tudo o que se passa e fazer dela alguém activa, ou que pelo menos tem interesse no que se passa à sua volta. Neste livro isso não acontece, a personagem é a coisa mais passiva que pode haver. Dá ideia que a autora a escolheu apenas porque de toda a família é a única que mantém a cabeça presa ao pescoço e por isso poderia vir a relatar os seus familiares a perderem a sua.

slayra: É interessante que refiras o porquê da autora ter escolhido esta personagem. A meu ver, penso que se deve muito àquilo que disseste: a Maria é praticamente a única que não morre e que está também intimamente ligada ao rei (há os rumores do rei com a mãe delas, mas... nem quero pensar nisso). E não é uma personagem central pelo que não tem de ter emoções particularmente fortes em relação aos acontecimentos (uma narrativa, na primeira pessoa pela Ana Bolena, seria muito mais complicada de escrever, por exemplo).

Natalie Portman no papel de Ana Bolena
(Duas Irmãs, um Rei)
Enquanto personagem, a Maria não tem grande profundidade. Nada de mais lhe acontece: primeiro é um joguete nas mãos da família, mas depois sai de cena e temos a história da Ana. Todos os outros personagens têm os seus problemas: Ana tem as pressões de ser observada e odiada pela corte e pelo rei, o irmão tem de fugir aos seus desejos, mas a Maria... a Maria não tem problemas de maior. O problema deste livro é que não é, de facto, a história de Maria Bolena, mas sim a de Ana Bolena contada de forma ligeiramente diferente.

E ainda acho que se centra demasiado nos jogos sensuais da corte. O período foi tão rico, o Henrique e a Ana Bolena deram início a uma reestruturação da Igreja, mas estes são aqui tratados como factores secundários. 

No fundo, a falta de profundidade das personagens e o foco da história não me puxaram. Acho que o livro pende mais para o bodice ripper do que para a ficção histórica.

Whitelady: E mesmo de bodice ripper tem muito pouco.

Por acaso o irmão, o Jorge, foi das personagens que mais curiosidade tive de seguir, sobretudo devido à sua sexualidade algo dúbia (até à parte que li): beija as irmãs como um amante, sente-se repugnado pelos avanços e as ideias/fantasias da mulher, e encontra-se ligado a 2 ou 3 elementos do mesmo sexo. Além disso de toda a família era capaz de ser o que realmente se importava com... bem, com a família. Juntamente com a Catarina, foram as personagens que mais curiosidade tinha em seguir mas acabam por aparecer muito pouco aqui e ali, não tendo sido o suficiente para me forçar a continuar a leitura.

Maria Bolena (Perdita Weeks) em Os Tudors
Até podia ser a história de Ana Bolena pelos olhos da Maria, mas mais interessante. Que mostrasse exactamente o tipo de pressões que Ana sofria. Que a Maria fosse confidente, ou até rival como a sinopse apregoa, da Ana mas se debruçasse mais sobre conflitos internos, a influência que o exterior exercia nela. A Maria acaba por passar um pouco por aquilo que a Ana passa, mas é tão passiva que não questiona, não se queixa (faz birra aqui e ali mas nada mais), obedece e pronto. Tens os livros da Agatha ou do Conan Doyle, eu sei que é um género completamente diferente, mas tem uma personagem, a contar a história que vivem com outra personagem e apesar das capacidades dedutivas menores, não deixam de participar ativamente na história, de se imiscuírem nos problemas que surgem e tal.

Mas pronto, foi uma escolha da autora e parece que acabou por ser uma boa escolha porque há imensa gente que gostou e quem considere mesmo dos melhores livros do género. Eu preciso de algo mais que novela na ficção histórica, leio sobretudo para escape mas não me importo de aprender e era isso que procurava e não tive. Acho que histórias como esta há para aí ao pontapé, ainda que com protagonistas diferentes, mas já que foi com estas queria ver a tal reestruturação da Igreja, como as ideias protestantes foram aproveitadas, como acabou  por seccionar a igreja inglesa, com católicos num lado e anglicanos no outro (Thomas More era um dos pensadores mais ilustres e dos que Henrique mais gostava e acabou sem a sua cabeça, meu Deus, e nem nunca me lembro de o ter visto mencionado!), como apesar dos problemas internos Inglaterra estava a cimentar uma importância que viria a ter com Isabel.

Coisa parva mas, a meio da minha meia leitura parecia tanto uma novela daquelas muito más, em que afinal se descobre que o protagonista tem um irmão gémeo malvado ou em que alguém morre e volta à vida para se vingar, depois de ter feito uma plástica ou até tendo mudado o sexo, que cada vez que Ana ia exilada para Hever estava à espera de algo do género! xD E sinceramente isso era capaz de trazer alguma emoção à história. Ou então ela chegar ao trono e mandar cortar a cabeça a toda a sua família, mas não é isso que acontece na História e apesar se este livro se tratar de ficção, não me parece que a autora fosse tão longe. Pena.

Assim sendo, e conhecendo o destino de cada uma das personagens, não me apeteceu ler mais 400 páginas para ver alguém perder a cabeça, por muito que goste de tal coisa. Ainda assim não vou desistir da autora. Sou capaz, caso tropece no livro, de ler o volume dedicado à Catarina. Parece-me que a autora também tem uma série sobre a Guerra das Rosas, que é uma época que conheço menos e o querer conhecer mais pode ser que ajude à leitura.

slayra: Ou seja, no fim, não ficámos encantadas nem com o tema, nem com o foco da narrativa, nem com as personagens.

Parece-me que a falta de acuidade histórica, o facto de a autora se focar numa personagem mais obscura no reinado de Henrique VIII mas não lhe dar uma personalidade de destaque e também o facto de se centrar mais nas intrigas da corte (e nem sequer da forma mais interessante) tiram o brilho a este livro.

Os Tudors
O período dos Tudors foi tão rico em mudanças políticas e sociais mas ninguém adivinharia tal coisa, ao ler este livro. Devo dizer no entanto, que o mesmo despertou o meu interesse e decidi ver a série "Os Tudors" (que é tão pouco histórica como o livro e parece mesmo retirar inspiração para algumas cenas do mesmo).

Sinceramente "Duas Irmãs, um Rei" não me convenceu. Tive com o livro o mesmo problema que tive com "Nefertiti" de Michelle Moran: as personagens são demasiado infantis e maldosas sem qualquer traço positivo que as possa redimir. Por outro lado as personagens não se desenvolvem minimamente ao longo do livro e penso que uma vez que a Maria é a única que acaba feliz, que o livro promove uma imagem errónea das qualidades que se devem prezar numa mulher. 

Whitelady - Não Acabei
slayra - 1.5 estrelas

28 junho 2012

Opinião: A Mecânica do Coração (Mathias Malzieu)

Editora: Contraponto (2009)
Formato: Capa Mole | 143 páginas
Géneros: Romance, Ficção Histórica, Fantasia
Descrição (GR): "Edimburgo, 1874. Jack nasce no dia mais frio do mundo, com o coração… congelado. A Dr.ª Madeleine, a parteira (segundo alguns, uma bruxa) que o trouxe ao mundo, consegue salvar-lhe a vida instalando um mecanismo – um relógio de madeira – no seu peito, para ajudar a que o coração funcione. A prótese funciona e Jack sobrevive, mas com uma condição: terá sempre de se proteger das sobrecargas emocionais. Nada de raiva e, sobretudo, nada de amor. A Dr.ª Madeleine, que o adopta e vela pelo seu mecanismo, avisa: «o amor é perigoso para o teu coraçãozinho.» Mas não há mecânica capaz de fazer frente à vida e, um dia, uma pequena cantora de rua arrebata o coração – o mecânico e o verdadeiro – de Jack. Disposto a tudo para a conquistar, Jack parte numa peregrinação sentimental até à Andaluzia, a terra natal da sua amada, onde encontrará as delícias do amor… e a sua crueldade."
"A Mecânica do Coração" é um daqueles livros que deixam uma marca. É um pequeno livro, pouco mais do que um conto, com personagens simples e uma história terna e encantadora. No entanto é difícil emitir uma opinião sobre a obra, porque apesar da sua premissa simples é tantas, tantas coisas ao mesmo tempo: romance, amizade, amor, tragédia, esperança.

Edimburgo, finais do século XIX. Jack nasce no dia mais frio do mundo e o seu coração congela, deixando de bater. Felizmente a parteira, a Dra. Madeleine, dá-lhe um novo coração, um relógio de cuco ao qual tem de se dar corda todos os dias. E assim Jack é salvo, mas não é, de todo, uma criança vulgar. Qualquer emoção forte pode despoletar uma crise, fazer o coração bater depressa demais, estragar o relógio. Jack não pode, acima de tudo, apaixonar-se.

Uma vez que tem um relógio como coração, Jack não é adoptado e vive com a Dra. Madeleine, que o protege do mundo exterior. Mas todas as crianças crescem e Jack não é excepção. Depois de conhecer uma dançarina de grandes olhos negros Jack apaixona-se perdidamente e o seu coração está em risco. Quanto estará Jack disposto a arriscar, por amor?

Como disse acima, a história de "A Mecânica do Coração" é bastante simples e directa. É a viagem de descoberta de Jack, a sua gradual aprendizagem das mecânicas do coração que dão valor a este livro. A prosa alterna sendo intrincada (quase poética) nalgumas passagens e mais corrente noutras. Confesso que não percebi muito bem se as referências modernas espalhadas pelo livro (Charles Bronson? Plástico?) foram intencionais; considerando que algumas são flagrantes, diria que sim, mas sinceramente não achei que fossem necessárias.

Este livro é muito atmosférico e tem uma beleza muito própria e penso que é o que encanta os leitores (pelo menos foi o que me encantou a mim). Algumas partes pareceram um bocado forçadas, mas no geral foi uma leitura agradável, algo bizarra mas intrigante.

19 maio 2012

Opinião: Matadouro Cinco (Kurt Vonnegut)

Editora: Bertrand Editora (2011)
Encadernação: Capa Mole | 200 páginas
Géneros: Ficção
Descrição (GR): "O romance da vida de Billy Pilgrim (duplo quase autobiográfico de Kurt Vonnegut), nascido em Ilium en 1922, filho único do barbeiro da aldeia. Neste livro Kurt Vonnegut utiliza os métodos da ficção científica para permitir flash-back contínuos do personagem, mas também para abrir uma quebra narrativa na trama principal intitulada A Cruzada das Crianças, e que é antes de tudo uma extraordinária denúncia dos extermínios organizados pela humanidade. Uma obra prima da literatura."
Este livro foi-me recomendado por uma colega da faculdade e em boa hora o li. Confesso que nunca teria tido a iniciativa de o comprar, por causa do tema. Na verdade, o período histórico que abarca as duas grandes guerras (no fundo o século XX em geral) é o que menos gosto. Por isso evito livros com esta temática.

Mas Matadouro Cinco é mais do que um relato sobre a Segunda Guerra Mundial. É a história de um soldado, Billy Pilgrim, que é tudo aquilo que um soldado americano nunca é nos livros e nos filmes (principalmente nos filmes): medroso, ignorante, um pouco indiferente e em geral boa pessoa, sim, mas dificilmente um herói. No fundo, um homem perfeitamente normal e vulgar. Um homem que é mandado incrivelmente mal preparado (se é que há preparação possível) para uma guerra sangrenta e horrível. E que tem a infelicidade de estar presente durante o bombardeamento de Dresden.

Vonnegut descreve com uma mestria ímpar os acontecimentos traumáticos que tiveram lugar na Segunda Guerra, onde também esteve em combate. Apesar de nos apresentar um relato por vezes chocante das realidades da guerra, a forma como a narrativa está organizada permite ao leitor ler tudo de enfiada.

Assim começa Matadouro Cinco: "Escutem: Billy Pilgrim tornou-se volúvel no tempo". Esta frase é o início da odisseia de Billy, o nosso "herói", um optometrista que se vê de repente com a capacidade de viajar no tempo. É através desta capacidade que Billy escapa às suas circunstâncias terrificantes durante a guerra e é também assim que conhece os Tralfamadorianos; extraterrestres do planeta Tralfamadore que lhe ensinam uma ou duas coisas sobre a inevitabilidade dos acontecimentos e da vida em geral.  

Na minha humilde opinião, esta foi uma forma brilhante (se bem que algo perturbante e distorcida) de escrever sobre esta temática. O livro de Kurt Vonnegut é ao mesmo tempo ficção, memória e testemunho das consequências da guerra na psique humana. Um relato verdadeiro de um homem autêntico, de alguém que esteve lá e que não tenta amenizar a verdade. E estranhamente, é uma leitura bem mais leve do que se poderia pensar.

O que dizer mais sobre este livro? Atirem "O Resgate do Soldado Ryan" pela janela e leiam isto, acho eu. Acho que não tenho mais palavras.
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18 novembro 2011

Review: A Spy in the House (Y.S. Lee)

A Spy in the House by Y.S. Lee
Publisher:  Candlewick Press (2011)
Format: Paperback | 352 pages
Genre(s): Young Adult, Mystery / Thriller, Historical Fiction
Description (GR): "Rescued from the gallows in 1850s London, young orphan (and thief) Mary Quinn is surprised to be offered a singular education, instruction in fine manners — and an unusual vocation. Miss Scrimshaw’s Academy for Girls is a cover for an all-female investigative unit called The Agency, and at seventeen, Mary is about to put her training to the test. Assuming the guise of a lady’s companion, she must infiltrate a rich merchant’s home in hopes of tracing his missing cargo ships. But the household is full of dangerous deceptions, and there is no one to trust — or is there? Packed with action and suspense, banter and romance, and evoking the gritty backstreets of Victorian London, this breezy mystery debuts a daring young detective who lives by her wits while uncovering secrets — including those of her own past."
WARNING: Contains SPOILERS!
"A Spy in the House" is the first book in a new series featuring Mary Quinn, a Victorian heroine.

It is 1858 and Mary Quinn (formerly a street urchin) is drafted into "The Agency", a mysterious organization where all the agents are (apparently) women. The supposition that women are easily ignored because they are considered beings of inferior understanding is what drives this Agency. According to the leaders, women make the better spies.

So, Mary is sent on her first mission: to be a paid companion to the daughter of a rich merchant who seems to be smuggling jewels. She is to keep her ears open and report back. Seems like a fairly simple mission... except that Mary isn't happy with just sitting back and listening; and there is James Easton, a handsome engineer who is also investigating her charges.

At first glance, "A Spy in the House" looks like a fun mystery with lively characters, plenty of suspense and some romance. It is an entertaining read, sure. But there are too many inconsistencies with the plot construction and world building.

While I recognize Mary is not your typical female (she is an agent after all) I still didn't understand James' reactions to her behavior. He seems to take the fact that she's a sleuth and dresses like a boy more or less in stride. It's something that you see a lot in historical romances, but there it has a purpose. In a YA book that is first and foremost a historical mystery I really don't think it worked. I mean, Mary might be ahead of her time but she still has to conform to the norms of Victorian society. That didn't happen... there were a few occasions when her reputation would have been severely compromised. It kind of bothered me because if she was trying to prove that women are better spies then the best thing to do was to behave as a model of Victorian female perfection... which she didn't.

Another problem I had with the book: Mary and James didn't seem all that smart. She agrees to enter "a partnership" with a virtual stranger (James) because he told her he was investigating the Thorolds (the family she was meant to watch); he believed her story about investigating the disappearance of a maid, yet wasn't suspicious even once when she seemed more interested in the Thorold's financial records.

Also, the chemistry between James and Mary? Not good.

Overall: "A Spy in the House" was an interesting debut, with a compelling mystery, yes, but still rather lackluster. The mystery, the characters' behavior and the world building were implausible really. While I liked the book in general I felt there were many flaws in the portrayal of Victorian life, beliefs and behavior.