23 junho 2016

Opinião: Uma Noite para se Render (Tessa Dare)

Uma Noite para se Render de Tessa Dare
Editora: Topseller (2016)
Formato: Capa mole | 320 páginas
Géneros: Romance histórico
Sinopse.

(Nota: a edição lida foi a inglesa, mas apresentam-se os dados da portuguesa)

Uma Noite para se Render, o primeiro livro da série Spindle Cove, de Tessa Dare, foi já uma leitura do ano passado. Na verdade, comprei a versão original deste livro porque a autora, apesar de nunca ter sido uma das minhas favoritas, é bem cotada entre os leitores de romance histórico e parece ter ideias originais para os seus livros.

Infelizmente, não fiquei grandemente impressionada com esta leitura (assim como já não tinha ficado impressionada com a anterior).

Penso que parte do problema se deve ao facto de eu já ter lido muitos livros dentro deste género; como tal, tenho menos tolerância para os estereotipos que povoam este tipo de obras. E um livro, como este, que acumula tantos clichés é particularmente irritante. Ora, vejamos, temos:

 - Um heroi alto, belo e forte que é torturado pelo facto de não poder voltar para a guerra (pois sofreu um ferimento que impede essa possibilidade) para fazer coisas "másculas" como dar ordens ao seu pelotão, lutar e gritar de forma viril (a la Braveheart ou algo do género);

- Uma heroina que é supostamente "independente" (notem as aspas), especialista nas artes de curar e Muito Competente (tm)... ou seja, uma Mary Sue. Ela ainda é solteira apenas porque é, imagine-se, demasiado alta (e bela, claro) para os padrões do século XIX... afinal, o que se quer por estas alturas são mulheres sem graça e inteligência (e, aparentemente, baixas). A nossa heroina é também torturada, porque, woe, para além de ser uma solteirona tem também problemas com o pai;

- Paixão desmesurada à primeira vista (um olhar e pimba... quero mesmo ir para a cama com ele/ela, ai nunca me senti assim) que serve de base para a história de amor;

- A nossa heroina que supostamente é independente e inteligente, quer secretamente ser dominada por um homem (e não apenas na cama, em todos os aspetos da vida... se fosse só na cama, não me faria tanta impressão);

- O nosso heroi é muito macho e tem muito pensamentos/fantasias de dominância, quer resolver tudo com lutas e é daqueles que gosta da carne mal passada (agora repitam comigo: Arrrr! e imaginem um homem com uma espada na boca);

- A opinião geral de que solteironas inteligentes e criativas precisam mesmo é de um homem machão que as domine (yuck, much?);

- Zero porcento de química entre os protagonistas;

- O enredo (o pouco que há... este livro é maioritariamente composto por uma quase interminável cena de sexo, interrompida por alguns acontecimentos pelo meio) e a narrativa seguem padrões tão previsíveis que a leitura me aborreceu em diversos momentos;

Acho que é bastante óbvio que não gostei assim muito deste livro. Já não é o primeiro da autora que leio e, apesar dos primeiros livros dela (os mais antigos) até terem a sua graça, os últimos têm pendido para a categoria de "tempo perdido". O foco na lúxuria instantânea dos protagonistas é sinceramente aborrecido e, apesar de a escrita ser competente, penso que as personagens e o mundo parecem demasiado "modernos" por vezes, o que estraga também a leitura. Tenho sempre a sensação de que a autora está a tentar fazer algo (ou dizer algo) com as suas heroinas, mas nunca lá chega porque quem vence sempre (ou os valores que vencem sempre) são os dos seus "homens medievais".

Penso que continuarei a ler livros desta autora no futuro (quanto mais não seja porque já comprei mais livros dela, antes de ler este malfadado livro), mas não espero muito.

No geral, não é das autoras que mais recomendaria para quem quer algo diferente dentro dos romances históricos. E, sim, é possível escrever um livro focado no romance e mesmo assim abordar temas interessantes ou relevantes. Veja-se o caso de A Loucura de Lorde Ian MacKenzie, editado em Portugal pela Topseller: é um romance histórico, mas foca-se num tema pouco explorado neste género, a Síndrome de Asperger. E mesmo que os livros sejam puramente romances históricos, sem temas mais sérios, podem ser bons, explorar melhor as personagens, criar uma química mais verosímil e um romance mais realista. Como os romances de Sherry Thomas, por exemplo. 

Se querem uma leitura leve e familiar (cheia de clichés), apostem neste livro. Se, como eu, já são leitores calejados neste género e querem algo diferente, não o recomendo. Mas, como digo, uma opinião vale o que vale. O melhor mesmo é experimentarem. :) 

*Esta opinião foi adaptada da minha crítica original em inglês, publicada no Goodreads em 2015.


Outras opiniões sobre livros da autora no blogue:

14 junho 2016

Opinião: série Kitty Norville (Carrie Vaughn)

Editora: Grand Central Publishing + Tor
Formato: Bolso + E-book
Géneros: Fantasia Urbana

Já há muito, muito tempo que o blogue não está ativo. Como escrevi em outubro do ano passado, a vontade de me dedicar ao blogue não voltava, parecia quase um sacrifício escrever. Por isso ficou encerrado por termo indefinido.

E, bem, não posso dizer que esteja novamente cheia de vontade de me dedicar a isto como no passado, mas decidi experimentar, para ver o que sai, até porque escrever opiniões, estranhamente, ajuda a acalmar a irritação causada pelo dia a dia (go figure).

A série sobre a qual vou opinar hoje é de um dos meus géneros favoritos (a fantasia urbana) e está terminada, com 14 livros. Foi uma das primeiras séries do género que li, mas parei a leitura porque na altura só tinham saído 4 livros (estão a ver ao tempo que isto foi). Este ano decidi reler os quatro primeiros e ler o resto. Até agora, li 10 livros e já tenho mais ou menos uma ideia do que vai acontecer.

Kitty Norville foi mordida por um lobisomem depois de uma noite traumática e é acolhida pela alcateia de Denver, na qual assume a posição de submissa, uma loba fraca e abaixo de todos as outros. Como tal, tem de ser protegida pelo alfa, Carl, mesmo que isso implica que ele pode ter sexo com ela quando quer e que pode mesmo dar-lhe umas bofetadas.

O único amigo de Kitty (sim, uma lobisomem? Lobimulher? chamada "Kitty", eu sei) é T.J. um lobisomem mais forte do que ela, mas que a trata como mais do que uma cria de lobo a proteger.

7662235Quando Kitty começa inadevertidamente um programa de rádio noturno para onde outros seres sobrenaturais podem ligar, não só despoleta acontecimentos que vão mudar a realidade em todo o mundo como também mudanças nela própria: torna-se mais confiante, mais assertiva. Mas conseguirá Kitty sair da relação abusiva que tem com Carl, o alfa da alcateia?

Esta série é interessante porque todo o mundo evolui. Passo a explicar: na maioria das séries de fantasia urbana, o sobrenatural é algo reconhecido e estabelecido ou então é algo escondido. Esta é a primeira série que leio onde o sobrenatural passa de algo mitológico para algo bem real. Vemos então como as coisas mudam e os humanos se adaptam, o que é super interessante, de um ponto de vista "what if".

13513643Esta série é também interessante porque Kitty, a protagonista, evolui muito significativamente. Não no sentido de ganhar poderes que a tornam superior, mas de uma maneira mais realista, pois cresce como ser humano, o que afeta a sua "submissividade" perante o resto da sua alcateia. E uma coisa que me surpreendeu imenso pela positiva: Kitty nunca se torna super poderosa, apesar de ascender a uma posição de poder. Ela nunca se torna uma "mary sue" super especial com uma herança escondida e poderes diferentes dos do resto dos lobisomens. Não, Kitty não é a mais forte fisicamente, mas é a mais "apta a liderar" pelo que ascende à sua posição de poder e ganha o respeito de outras criaturas sobrenaturais.

Relativamente à história e à mitologia, as mesmas são generalistas. Não são particularmente originais: a história de cada livro é um pequeno mistério paranormal, não muito elaborado; e a mitologia não difere muito da da maioria dos livros de fantasia urbana do mercado: os vampiros são sedutores e hipnóticos, os lobisomens têm regeneração instantânea, as fadas são misteriosas e traiiçoeiras, etc. Nenhuma das "espécies" está grandemente desenvolvida.

No geral, uma série que vale, principalmente pela originalidade do conceito e pelo desenvolvimento das personagens.

14 outubro 2015

Encerrado... até ver

Antes estava encerrado para férias... mas os meses passam e a vontade de me dedicar ao blogue não volta... porque... bem, não sei porquê. 

Por isso, esta será, provavelmente, a última publicação do Livros, Livros e mais Livros durante... um tempo indefinido.

Continuo a ler e muitas vezes até escrevo uma ou duas linhas sobre o que li. Mas críticas, de momento, não. Mesmo assim, quem quiser pode seguir-me através do Goodreads: https://www.goodreads.com/user/show/149100-patr-cia.

Obrigada a todos os que seguiram, leram ou comentaram neste cantinho ao longo dos anos.

Au revoir.

20 junho 2015

Encerrado para férias

Há alturas em que não nos apetece fazer as coisas que antes gostávamos de fazer. 

É o que se passa atualmente comigo e com o blogue. Pura e simplesmente, não me apetece atualizá-lo, escrever opiniões ou até mesmo mudar o layout. 

Não sei quanto tempo isto vai durar, mas o blogue está oficialmente... encerrado para férias! :)


06 junho 2015

Opinião: Erebos (Ursula Poznanski)

Editora: Editorial Presença (2015)
Formato: Capa mole | 379 páginas
Géneros: Ficção científica, Lit. Juvenil, Mistério

Parece que o blogue agora é semanal, com uma opinião nova a cada sábado. Sinceramente não sei quanto tempo será assim, mas chego a casa tarde e sem vontade para abrir o computador depois de 8 horas à frente de um. Enfim, estou numa daquelas fases em que não me apetece muito andar a escrever aqui. Se será permanente, não sei. Ainda gosto de ler, gosto de ir ao Goodreads, mas as opiniões teimam em não querer ser escritas.

Depois desta breve reflexão, que pouco tem a ver com o livro sobre o qual vou escrever, centremo-nos então em "Erebos".

A verdade é que não há grande coisa a dizer. Foi uma leitura rápida, agradável e medianamente interessante, mas não tem profundidade suficiente para ser mais do que isso.

Numa escola de Londres circula um jogo clandestino: Erebos. Os participantes são secretivos e muito, muito viciados.

Nick Dunmore quer saber o que se passa. Quer entrar nesse clube exclusivo e descobrir todos os seus segredos até porque um dos seus amigos ficou enredado e falta à escola, aos treinos de basquetebol e é mal educado quando falam com ele.

Mas conseguirá Nick entrar no mundo de Erebos sem ficar enredado? Conseguirá descobrir o segredo do seu sucesso?

E... a resposta é não à primeira pergunta, que foi o mais irritante do livro. Nick Dunmore começa como uma personagem bastante ajuizada, mas no fundo, assim que tem acesso ao jogo online, fica igualzinho aos outros. Tudo bem que acontecesse, durante algum tempo; mas não é, infelizmente, a inteligência de Nick que o salva, mas sim o facto de ser, a certa altura, expulso do jogo.

"Erebos" foi, como disse, uma leitura medianamente interessante. Um jogo RPG incrivelmente realista corre uma escola de Londres, rodeado de segredo. O mais interessante é que o jogo parece ter influência na vida real, conseguir saltar para fora das fronteiras do computador. Cedo, o nosso personagem principal, Nick, é "convidado" a jogar (mas mantendo segredo do facto dos "não-jogadores") e vê-se sugado para um mundo de fantasia onde tem de lutar para ganhar experiência. Mas não é tudo. A misteriosa personagem do Mensageiro (uma espécie de Mestre do Jogo) dá aos jogadores "missões especiais" que lhes permitem avançar de nível mais rapidamente. Essas missões têm lugar no mundo real e o jogo só "deixa" os jogadores regressarem se completarem as missões.

O livro retrata a cultura dos jogos online e o vício pelos mesmos. A autora cria bastante bem a atmosfera do jogo, mas falha, na minha opinião, em criar algo que parecesse realisticamente interessante para jovens adolescentes, ao ponto de se esquecerem de dormir e de comer, e de ir à escola para jogar.

A identidade do Mensageiro (ou a sua natureza, direi antes) é bastante óbvia, embora também bastante irrealista. Para dizer a verdade, este livro fez-me lembrar o anime Sword Art Online, o que até nem é uma coisa má; mas mostra que a ideia não é propriamente original.

O desfecho foi tão inesperado quanto apressado e, mais uma vez, irrealista (especialmente porque não nos foi dada qualquer pista no sentido daquele final).

No geral, uma leitura interessante quanto baste, mas nada de especial. Um livro direcionado para um público jovem-adulto que teria beneficiado de mais algum desenvolvimento, uma vez que o conceito não é mau de todo.

30 maio 2015

Opinião: A Lâmina (Joe Abercrombie)

Editora: Gailivro/ 1001 Mundos (2011)
Formato: Capa mole | 624 páginas
Géneros: Fantasia

Mais um livro das minhas prateleiras conquistado.

Este "A Lâmina" é a obra de estreia de Joe Abercrombie, um aclamado escritor de fantasia britânico.

Segue as desventuras de três personagens muito diferentes entre si, que têm todas, aparentemente, a particularidade de serem... más pessoas. Ou pelo menos é o que é apregoado, porque sinceramente nunca me pareceu que qualquer uma delas fosse particularmente malévola... apenas humana.

Logan Novededos é um bárbaro do norte que anda com uma má sorte desgraçada. O seu bando foi atacado e morto às mãos de estranhas criaturas, que denominam "cabeças rasas". E ele próprio anda fugido, quer dessas criaturas, quer do novo, autoproclamado Rei do Norte. Quando um aprendiz de mago lhe diz que o grande Bayaz, o Primeiro dos Magos, pede a sua presença, Logan encolhe os ombros e pensa: "porque não".

Jezal dan Luthar é filho de uma poderosa e nobre família da União, uma potência política e militar encaixada entre o norte (que tem povos reminiscentes dos vikings) e o sul (onde residem povos com uma cultura parecida com a da antiga civilização chinesa, talvez). O seu título militar foi comprado pelo pai e tudo o que Jezal quer fazer é ser um típico adolescente (apesar de não o ser, em idade) e beber, ir para a cama com montes de gajas e, no fundo, curtir a vida. Infelizmente, sem saber bem como acabou inscrito na "Prova" uma competição onde guerreiros combatem por honrarias e prémios.

Glokta, antigo soldado é hoje um Inquisidor de Sua Majestade. Com o corpo e a alma partidos, parece conseguir alguma felicidade em arrancar à pancada e através de tortura, todo o tipo de confissões aos traidores (sejam elas verdade ou não). Vai-se ver metido numa conspiração política cujo objetivo não é claro.

E são estes os heróis improváveis deste livro. Oh... há ainda Ferro Maljinn uma antiga escrava do Imperador (do Sul), cuja especialidade é desancar tudo o que se mexe.

Como já terão podido adivinhar (talvez) pelas minhas descrições algo sarcásticas das personagens, este livro não me encheu, de todo, as medidas. Para uma fantasia épica tão popular e bem cotada, achei que foi extremamente... aborrecida.

Primeiro problema: o mundo. Tão genérico, senhores. As ideias sem qualquer originalidade, os reinos estereotipados, enfim, podia chamar-se "Mundo de fantasia A-3" ou "União" que seria a mesma coisa. Não há descrição que permita a visualização das cidades, da geografia (exceto que no norte está frio e no sul há desertos, I mean, really?), da história... de nada. A mitologia, o pouco que o livro dedica a ela, pareceu-me vagamente interessante e pode ser a única razão pela qual continuarei a ler esta série. De resto... total snoozefest. Pelo menos não há elfos e anões. Ainda.

Segundo problema: as personagens. As suas ações não parecem ter qualquer sentido. O Logan embarca numa viagem para ir conhecer o Primeiro Mago porque... não sei. O Jezal é o mestre da indolência. O Glokta é constantemente usado pelo Inquisidor chefe e sabe que está a ser usado mas não faz mais do que seguir ordens. 

Depois temos o Bayaz, que é um mago Mui Poderoso e que anda de um lado para o outro a intrometer-se em todo o lado e a dizer que é um homem que viveu há eons atrás (e espera que todos acreditem assim, sem mais nem menos).

E nem me ponham a falar da Ferro. A solução dela para tudo é dar porrada em toda a gente. Muito profundo.

Terceiro problema: a história. E qual história, pergunto eu. O livro tem umas impressionantes 624 páginas que são passadas a... apresentar as personagens. I kid you not. Intriga política? Bem, uma coisinha incipiente lá pelo meio, mas apenas para mostrar que o Glokta não tem tomates e que o Bayaz tem todo o direito a interferir em tudo. No fim de tudo, as personagens andam de um lado para o outro a realizar ações perfeitamente corriqueiras: Logan viaja com Bayaz para a capital da União, Jezal treina-se para os Jogos da Fome a Prova e Glokta recebe ordens para torturar pessoas because... razões (que nunca percebemos porque a tal intriga política não leva a lado nenhum e as pessoas torturadas e afastadas não parecem ter assim tanta importância, no final fica tudo em águas de bacalhau). O Bayaz fala numa demanda (uuuuh!) mas isso é só para o segundo livro.

Gosto de personagens desenvolvidas, mas 1) 624 páginas é demais e 2) se realmente se tem de utilizar 624 páginas para o fazer, por favor deem-me personagens que sejam mais do que estereótipos de personagens de fantasia épica (o bárbaro, o guerreiro e o inquisidor) sem profundidade! Vá lá isto não é um RPG online. 

No geral... desapontante. Apenas a mitologia e a promessa da visita a novos mundos me fez ter interesse no segundo livro.