28 outubro 2010

Opinião: Criaturas Maravilhosas

Criaturas Maravilhosas de Kami Garcia, Margaret Stohl
Editora: Gailivro (2010)
Formato: Capa Mole | 480 páginas
Géneros: Fantasia Urbana, Lit. Juvenil
Sinopse (Gailivro): "Lena Duchannes é diferente de qualquer pessoa que a pequena cidade sulista de Gatlin alguma vez conheceu. Ela luta para esconder o seu poder e uma maldição que assombra a família há gerações. Mas, mesmo entre os jardins demasiado crescidos, os pântanos lodosos e os cemitérios decrépitos do Sul esquecido, há um segredo que não pode ficar escondido para sempre.
Ethan Wate, que conta os meses para poder fugir de Gatlin, é assombrado por sonhos de uma bela rapariga que ele nunca conheceu. Quando Lena se muda para a mais infame plantação da cidade, Ethan é inexplicavelmente atraído por ela e sente-se determinado a descobrir a misteriosa ligação que existe entre eles.
Numa cidade onde nada acontece, um segredo poderá mudar tudo.
"

Depois de terminar a leitura de "Criaturas Maravilhosas" (e mesmo antes disso, começou enquanto lia) senti uma enorme frustração e irritação. Isto porque, na minha humilde opinião, este livro tinha potencial para ser bom. Pelo menos, melhor do que a maioria dos livros juvenis de fantasia urbana que por aí andam. Mas há um elemento no livro que o estragou demasiado para mim... o romance.

Pois é... é cansativo dizer isto, mas "Criaturas Maravilhosas" segue o mesmo modelo de "Crepúsculo". Conta a história de um amor adolescente inverosímil e irreal. As duas personagens, Lena e Ethan apaixonam-se violentamente à primeira vista, sem qualquer tipo de explicação racional (até ao meio do livro, pensei que tivesse a ver com vidas passadas, mas nem isso). Como todo o bom livro juvenil "pós-Crepúsculo" o seu amor é relatado de forma melodramática e francamente irritante de tão irrealista.

Tudo isto se torna pior devido ao facto de a narrativa estar a cargo de Ethan... cuja voz, devo dizer, não se parece com a de nenhum outro rapaz de 16 anos que conheça - não que conheça muitos, mas ao ler o livro não me deu a sensação de estar a ler os pensamentos e experiências de um rapaz, mas sim de uma... rapariga. O que não é estranho uma vez que as autoras são mulheres.

Suponho que as autoras pensaram que terem Ethan como narrador principal iria dar uma nota de originalidade à obra, mas a meu ver só lhe conseguiram acrescentar outro estereótipo, uma vez que neste tipo de livros é sempre o mortal ou a pessoa sem poderes que narra a história. Para já não falar, novamente, no risco (que não deu resultado) que foi escrever sob o ponto de vista de um rapaz uma vez que os seus processos de pensamento e acção são bastante diferentes. E neste livro não se vê essa diferença... um rapaz de 16 anos, sem lhes querer fazer qualquer tipo de deserviço, não é assim tão maduro ou está assim tão em contacto com os seus sentimentos.

No fim, "Criaturas Maravilhosas" acaba por se debruçar quase inteiramente sobre esta entediante história de amor. Oh, as autoras têm toda uma história paralela a decorrer (a tal que poderia ter feito deste livro algo verdadeiramente especial, porque é bastante imaginativa), sobre as origens de Lena, e o que acontecerá no seu décimo-sexto aniversário, mas os protagonistas só estão interessados nestas coisas porque querem "ficar juntos para sempre". O que para mim não faz sentido nenhum... acho que faria muito mais sentido se as personagens se apaixonassem durante a sua investigação dos problemas sobrenaturais e do seu passado, ao invés de porem os olhos um no outro e decidirem ser novas versões do Edward e da Bella (um pouco menos tolas, mas mesmo assim).

No geral, mais uma versão do "amor Crepúsculo" (vai passar a ser a minha expressão para designar o enredo deste tipo de livros) que poderia ter sido muito, muito mais uma vez que o resto da história está extremamente bem conseguida (e é intrincada e complexa e vê-se que as autoras pesquisaram o suficiente para tornar o seu mundo dos Encantadores verosímil). Infelizmente esta belíssima história é completamente eclipsada (haha) pela história lamechas do amor profundo e incrível de Lena e Ethan. Que desapontante. É como ler a mesma história vezes sem conta.

6 comentários:

Elphaba J. disse...

Eu gostei muito desde livro, no entanto não sou fã do Crepúsculo, lembro-me de que há uns anos quando o li foi, mais um livro…! Penso que tudo depende da forma como interpretas a leitura. Sinceramente eu estava desejosa de um romance e talvez por isso tenha gostado tanto.
Também não considerei que Ethan um rapaz com pensamentos mais apropriados para uma rapariga, passando pelo que ele passou acho que é normal aquela maturidade pré-adulta. E sim, dei mais ênfase a todo o mundo criado pelas autoras que achei muito original. E Lena como personagem irreverente dá “um chega para lá” em Bella sem dúvida (perdoem-me os amantes da novela Crepúsculo). Tenho pena que não tenhas gostado (lol), Beijinhos* =P

slayra disse...

Elphaba, não é que não tenha gostado... até gostei (muito mais do que o Crepúsculo e até mais do que outros livros que são, basicamente, cópias do Crepúsculo, como "Eternidade", por exemplo), aliás refiro várias vezes como gostei de todo o enredo secundário (ao romance) sobre Encantadores, tipos de Encantadores, etc. Achei que as autoras fizeram um esforço para criar um mundo minimamente original, com história de fundo e mitologia próprias, o que é uma coisa que muitos autores de fantasia urbana juvenil já não se dão sequer ao trabalho de fazer... simplesmente têm um heroi que é vampiro/lobisomem/fada e uma heroina e só escrevem sobre relações atormentadas.

O que não gostei foi do facto das autoras terem construido um mundo tão aliciante para depois não aproveitarem o seu potencial, preferindo dedicar a maioria das 400 e tal páginas do livro a descrições francamente floreadas do amor ardente entre os protagonistas. Basicamente, adoptaram aquilo que chamo "o modelo Crepúsculo" e escreveram um romance que sinceramente, me pareceu exagerado e irrealista, para já não dizer melodramático.

Não quis dizer com isto que ache mal que as personagens tenham um romance... acho que o livro precisava de um romance lá pelo meio sim, mas gostava que tivesse acontecido de forma mais... natural e realista; gradualmente, à medida que as personagens se conhecem e não logo no segundo capítulo ou algo do género. Vêem-se pela primeira vez e pronto... estão caídos um pelo outro. Onde é que isso é realista? :D

Tenho de discordar quanto ao Ethan... mesmo que ele tenha passado pelo trauma que passou, que, concedo, lhe pode ter dado uma maturidade que a maioria dos adolescentes de 16 anos não têm, acho que não é suficiente para explicar os pensamentos dele... vá lá, sejamos sinceras, quantos rapazes de 16 anos haverá no mundo que não pensem em sexo cerca de 70% do tempo e que consigam dizer "Amo-te", "adoro-te" e outras expressões que tais de uma maneira tão desprendida? E que descrevam as roupas da namorada da maneira como o Ethan as descreve (não em termos de "ela estava uma brasa", mas "ela vestia um vestido preto que lhe assentava bem"?). Isso é mais uma versão idealizada do namorado perfeito. As autoras correram um risco ao escreverem do ponto de vista de um rapaz, e acho que não conseguiram um grande grau de autenticidade. Mas é só a minha opinião. ^^

Este testamento todo para dizer que gostei do livro Elphaba, a sério, mas apesar disso, quando escrevo uma crítica, mesmo tendo gostado nunca consigo deixar de apontar os pontos que considero mais fracos. :D

Elphaba J. disse...

Pondo as coisas dessa forma compreendo, relativamente ao Ethan, de facto não parei para reflectir sobre a forma como um rapaz de 16 anos falaria. Estou muito longe do mundo adolescente dos dias de hoje, acho que nem conheço nenhum, imagino apenas que “estarão muito à frente” do que eu era no meu tempo. (pareço uma velha a falar… =/)
De qualquer forma gostei do romance, penso que li algures numa crítica, considerando o livro um romance com laivos de fantasia…
=)**

em fuga... disse...

Finalmente! Finalmente encontro alguém com a mesma opinião que eu sobre este livro. Não poderia estar mais de acordo! Foi uma lufada de ar fresco perceber que não fui a única a pensar tudo isso do livro!
Gostei do teu blog!

Pedacinho Literário disse...

Slayra... Adoro o tom das tuas críticas e tenho de admitir que tenho uma pontaria dos diabos! As últimas três ou quatro opiniões tuas que li são todas do modelo de “Crepúsculo” (ahaha). :) De qualquer das formas, tudo para dizer que tenho este livro, e o seguinte, na enorme pilha dos livros a ler e se até então não tinha grande curiosidade ou vontade em lhes pegar então agora...
Fiquei algo cativada pelo que disseste sobre o “mundo paralelo” que as autoras criaram mas a verdade é que para um livro desta envergadura (e com isto quero dizer tamanho!) se mais de metade é sobre um amor irrealista e pouco ou nada profundo então não o quero sequer ler. Estou um pouco farta desse tipo de estrutura por ser sempre “um pouco mais do mesmo”, pelo menos no que se refere ao contemplar e construir do romance entre as personagens e, assim sendo, ainda bem que li a tua opinião primeiro. Ao menos quando pegar no livro sei que tenho de estar mesmo para aí virada... se não será algo como pausa atrás de pausa. :)

slayra disse...

Pedacinho, muito obrigada, ainda bem que as minhas opiniões (por mais subjectivas que sejam e tenho a consciência que são mesmo) te ajudam a decidir o que ler a seguir, mas como eu sempre digo nada como a própria pessoa ler o livro em questão. Mesmo que eu não tenha gostado tu podes gostar. :D

É, as "mensagens mais populares" são todas sobre livros que seguem o "amor crepúsculo". É um termo que designa o amor à primeira vista das personagens adolescentes de muitos livros (em inglês creio que lhe chamam "insta-romance" ou "insta-love") ou então um romance que realisticamente nunca poderia acontecer. Mas basicamente, se estás a ler as "mensagens mais populares" é o que vais encontrar, lol.

Este livro é bastante interessante, como aliás disse à Elphaba na minha resposta ao comentário dela, o problema é o foco da narrativa. Mas achei melhor do que outros livros do género como "Anjo Caído" ou "Eternidade".