30 outubro 2011

Opinião: Jane Eyre (Charlotte Bronte)

Editora: Wordsworth Editions (1999)
Formato: Capa Mole | 401 páginas
Géneros: Ficção Histórica, Romance
Descrição da edição portuguesa (Wook.pt): "Considerada uma obra-prima da literatura inglesa, Jane Eyre é um romance da escritora inglesa Charlotte Brontë, publicado no século XIX, mais precisamente em 1847. Jane Eyre é uma autobiografia ficcionada da protagonista que, depois de uma infância e adolescência desprovidas de afecto, se torna preceptora em Thornfield Hall e se apaixona pelo seu proprietário, Mr. Rochester. Plenamente correspondida nos seus sentimentos, Jane julga ter encontrado o amor por que ansiara toda a vida, mas Thornfield Hall esconde um segredo tenebroso que ameaça ensombrar a sua felicidade. Numa atmosfera misteriosa e inesquecível, acompanhamos esta heroína de espírito puro e apaixonado, que trava uma luta interior constante para se manter fiel às suas convicções e a si própria. Uma história sobre a liberdade humana, repleta de elementos dramáticos (incêndios, tempestades, tentativas de homicídio) que compõem uma atmosfera de mistério e suspense."
Como na famosa canção de Katy Perry (e peço desculpa pela menção de uma cantora pop numa opinião sobre um clássico) a história de "Jane Eyre" foi, para mim, "hot and cold" (quente e fria). Por vezes achei-a interessante (a parte do mistério gótico, momentos da infância de Jane e ínfimas partes do romance) e noutras... horrivelmente aborrecida (a parte em que Jane se encontra com esse possessor de imensas virtudes que é o St John Rivers, provavelmente a personagem estereotipo com mais estereótipos nela concentrados - tipo Sunquick).
Talvez isto se prenda com o facto de ter lido a obra em inglês; confesso que não estou muito habituada a ler este tipo de livros no original e penso que a linguagem (bem mais rebuscada do que Austen) fez com que a leitura se tornasse, por vezes, penosa.

Mas a maior parte prende-se com as personagens. Os protagonistas são pouco carismáticos: a personagem de Jane Eyre parece limitar-se a ser um receptáculo para determinados valores e filosofias ou uma forma de retratar realidades da época... não me pareceu especialmente humana, a não ser numa ou duas cenas, particularmente quando finalmente perde a compostura com o Sr Rochester e lhe diz (com sentimento): "Do you think I am an automaton? — a machine without feelings? and can bear to have my morsel of bread snatched from my lips, and my drop of living water dashed from my cup? (...)"; aí, confesso, achei-a soberba, entrevi aquilo que esta personagem podia ser mas não foi devido à sua educação rígida e à sua moral intransigente (e tão Vitoriana). Mas, como dizia, Jane Eyre é um estereotipo. Claro. Mas é apenas um estereotipo, nada mais. Não se desenvolve de modo a ser algo diferente, uma personagem, uma personalidade distinta para além do estereotipo de toda uma classe de mulheres trabalhadoras da época Vitoriana e os seus valores morais. Jane parece realmente sempre à beira de inovar, de virar as costas à rigidez da educação, a deixar sair a jovem fogosa que responde à sua tia com dez anos quase nas primeiras páginas... mas nunca acontece.
Quanto ao Sr Rochester... bem, digamos que não entendo bem porque é que a Jane se apaixonou por ele. Não há qualquer base coerente para o romance.

A frequente menção aos atributos físicos tanto da Jane como do Sr Rochester deixou-me algo irritada. Obviamente Charlotte Bronte decidiu que todas as personagens belas seriam insidiosas e hipócritas (com a excepção de Rosamond Oliver que mesmo assim é apenas 'normal') e as feias, excepcionais.

Então... porquê a classificação?
Porque o livro tem momentos interessantes. Por causa de personagens como Bertha, que merece completamente ter um livro só dela porque em termos de personagens é a que mostra mais promessa. E porque reconheço que esta obra terá tido uma filosofia e história algo controversas na altura em que foi escrita (apesar do final cor-de-rosa, certamente para apaziguar os ânimos) embora não seja nada de extraordinário actualmente pois a personagem não tem fogo, ou pelo menos eu não acho que tenha quando confrontada com escolhas que a fariam desviar-se dos seus valores morais. Oh certamente, como sabemos Jane Eyre acaba com o Sr Rochester; mas apenas depois de todos os entraves à união terem sido removidos de modo a não comprometer o rígido código moral da jovem de 18 anos (quem é que tem um carácter daqueles aos 18 anos, de qualquer modo?). Jane Eyre, à beira do precipício escolhe não se atirar e não é por o visitar novamente, quando se encontra escorado, que passa a ser uma personagem inovadora.

Não tiro a este livro o seu mérito ou importância literária, obviamente, pois quem sou eu para o fazer? Mas esperava um romance mais faiscante e uma personagem mais fogosa. Claro que os diálogos são apropriadamente melodramáticos mas é preciso mais do que diálogos para tornar realista a acção que se descreve. Tendo agora lido livros das três irmãs Bronte devo dizer que aquele que me pareceu mais realista foi "Agnes Grey" de Anne Bronte.

Podia tecer muitas mais considerações sobre a história ou personagens mas acho que não vale a pena alongar-me. "Jane Eyre" tem indubitavelmente o seu valor como romance Vitoriano e merece a designação de 'clássico' pela qualidade intemporal da história (será provavelmente intemporal até os preconceitos e as diferenças de classe deixarem de existir) e achei que a narrativa flui harmoniosamente através das diversas partes do livro. Jane Eyre é uma personagem interessante pelas suas convicções e a sua aparente indisposição para a submissão... excepto quando se torna submissa por amor.
Mr Rochester não cativa. Claro que não é esse o seu papel (penso que é suposto parecer intratável e rude), mas como a narrativa é na primeira pessoa é difícil perceber o que faz com que Jane se sinta atraída por ele e sinceramente mesmo conhecendo os pormenores da sua vida não vejo como é suposto o leitor desculpar as acções do nosso herói (claro que como a autora nos apresenta alternativas ainda piores para a pobre Jane não podemos deixar de desejar que ela volte para o Mr Rochester).

No geral, uma obra interessante com um mistério gótico bem desenvolvido. As personagens seriam inovadoras para a época mas tendem a não surpreender o leitor actual.

NOTA: Esta é uma opinião inteiramente subjectiva deste livro. Não tem nada a ver com o seu valor literário mas só e apenas com a minha percepção esteja ela certa ou errada.

10 comentários:

Diana Marques disse...

Ai, eu gosto tanto da Jane Eyre!!! ^^ Tenho pena de não teres gostado assim tanto... Discordo de muitas coisas que disseste, mas não me vou pôr aqui a contra-argumentar, porque cada um tem os seus gostos, a sua maneira de ver as coisas e eu respeito isso.

Mas numa coisa tens razão: este tipo de obras têm que ser lidas tendo em conta a época em que foram escritas, os valores e crenças dessa época, para que algumas coisas façam sentido e para se perceber o impacto que tiveram na literatura. :)

slayra disse...

Certamente que há livros de que gostei mais, mas a Jane Eyre foi uma leitura bastante boa. Pena que, na minha opinião a pobre Jane arda com um fogo muito lento e bem escondido. Eu teria levado a personagem noutras danças, mas eu não sou a mundialmente aclamada Charlotte Bronte por isso suponho que a versão dela é a mais correcta. ^_^

Não descuro a época em que foi escrito e fez bastante sentido para mim o desenvolvimento que foi dado à história (embora algumas plotlines tenham sido demasiado convenientes), simplesmente achei que a autora podia ter arriscado mais com a Jane Eyre. Ela revolta-se mas é uma "revolta pianinho" e o facto de haver um "final feliz" tão perfeito faz com que muita da sua viagem e crescimento pareça sem sentido. Mas como digo... é apenas a minha percepção de pessoa não informada que só escreve o que lhe pareceu e não se põe a analisar cada frase para ver se tem algum valor satírico em relação à sociedade da época, LOL. :D

Gostei muito mais da Jane Eyre do que do Monte dos Vendavais. Mas achei que Agnes Grey tem personagens mais realistas e humanas.

Diana Marques disse...

A revolta dela pode parecer "pianinho" nos dias de hoje, porque hoje a mulher tem muito mais liberdade do que na altura. Mas se fores a ver, é a tal "passion" que a leva para o orfanato, que a faz bater de frente algumas vezes com o Rochester, que a faz sair de Thornfield Hall e, depois, recusar-se a casar com o John e voltar a ver Rochester. Além disso, mais do que revolta, ela põe em causa, questiona certas atitudes e valores da época e é aí que ela se destaca.
Na altura, uma mulher tinha mais era que aceitar essas oportunidades por mais pequenas que elas fossem, mas Jane queria ter o seu trabalho e dinheiro (de certa forma uma independência) e queria uma posição de igualdade numa possível relação com Rochester, daí o tal diálogo de que falas que é soberbo!
Se reparares, ela nunca se parece com a típica dama que precisa de ser salva por um cavaleiro... Ela faz-se à vida e tem convicções morais. É "passionate".
O final feliz, epah... a rapariga já tinha passado por tanto, também merecia, né? LOL Além disso, o final feliz é a sobreposição da ordem sobre o caos, e na altura era uma convenção literária. Podia haver muitas revoltas e polémica, mas no fim tinha que haver alguma ordem. xD

Manuel Cardoso disse...

O que eu achei mais interessante no livro foi o acento tónico no papel social da mulher. Penso que este livro foi um marco histórico, em grande parte por isso mesmo; a literatura desta época normalmente reflete esse papel secundário do elemento feminino, aquela imagem da mulher submissa bem patente, por exemplo, em Jane Austen e mesmo na "mana" Emily Brontë.
Aqui, pelo contrário, o elemento feminino tem uma força extraordinária.
Mas concordo que não é um livro empolgante.

slayra disse...

Diana: Exacto. Por isso é que refiro que acho que a personagem terá causado mais impacto na época do que no leitor actual. Hoje em dia temos muitas mulheres submissas na literatura, sem dúvida, mas temos também muitas mulheres com garra.

Novamente, exacto. Gostei desse diálogo porque aí ela revelou espírito. No final, quando disse: se não casares comigo fico a viver aqui ao lado (não deixemos de mencionar que nesta altura o Sr Rochester estava muito diminuído fisicamente e pelo escândalo) achei que mostrou espírito. Mas outras alturas, penso que ela se submete demasiado às circunstâncias. É só isso.

Lol, definitivamente ela precisava de um final feliz. :D Não contesto.

Manuel Cardoso: Certamente esse aspecto é interessante. Gostei bastante de ler sobre o percurso de Jane Eyre nesse ponto, as dificuldades que uma mulher tinha para encontrar uma situação e para se arranjar sozinha.

Não acho, no entanto, que se possa estabelecer grande comparação com Austen. Os livros da Jane Austen passam-se noutra época e as personagens são de outra classe em que estes meios de arranjar independência não eram facilmente atingidos (i.é. seria difícil para as personagens arranjarem colocação como governantas).
Dentro da situação não penso que as personagens de Austen sejam particularmente submissas... mas claro que o seu "feminismo" é mais subtil. :D

O problema com a Jane Eyre é que a personagem parece contradizer o seu próprio carácter. Por vezes revolta-se abertamente contra a situação mas noutras vezes submete-se às circunstâncias. E o enredo tem demasiadas coincidências estranhas. O.o Mas não nego que é um livro pioneiro de certo modo. :)

Diana Marques disse...

As Brontë suscitam sempre grandes discussões, tanto a Charlotte como a Emily. :) É engraçado ver como, passado tanto tempo, estas obras ainda suscitam reacções tão fortes por parte dos leitores, quer gostem ou não gostem. Falta-me experimentar a Anne Brontë!

jen7waters disse...

Então, então, mas o que se passa aqui afinal?! O Mr Rochester não cativa. Ai Jesus! *benze-se* xD

slayra disse...

Nuh Uh Jen. Sabes porquê? Porque a Charlotte Bronte insistia e insistia que tanto a Jane como o Sr Rochester eram feiotes mas muito prendados no que toca a força de carácter e inteligência. Tirou-me logo o apetite, por assim dizer. E no fundo, apesar das suas brilhantes 'turns of the phrase' que mais há a recomendar o Sr Rochester? O-o
Sorry mas eu sou uma "Mr Darcy girl". *sigh*

Filipa disse...

I'm a Mr. Darcy girl too :D *hi5's*
Adorei esta tua opinião e em termos gerais concordo com tudo o que disseste. Hum, não foi um livro que me tenha empolgado grandemente, mas leu-se bem! :)

jen7waters disse...

Aaah, mas alto lá que eu também sou uma Darcy girl, o que não tira de ser uma Rochester girl também. Eles que não se atrevam a competir, que o meu coração não aguenta.