10 fevereiro 2014

Opinião: The Darwin Elevator (Jason M. Hough)

The Darwin Elevator de Jason M. Hough
Editora: Titan Books (2013)
Formato: Capa Mole | 484 páginas
Género: Ficção científica, Ficção pós-apocalíptica
Descrição (GR): "The Builders came to Earth and constructed an elevator from Darwin, Australia into space. No one know why, or if they will return.
Years later, a virus ravaged the planet. The rare immunes survived, others became less than human. How the elevator supresses the disease, and why, remains unknown. But scientist Dr Tania Sharma has a terrifying theory...
As Darwin collapses under the onslaught of refugees, reluctant captain Skyler Luiken and his scavenger crew scour the wasteland outside the elevator's protective aura for essential resources.
but when the alien technology fails, will humanity survive?"
AVISO: Alguns SPOILERS (nada que estrague realmente a leitura)
The Darwin Elevator já me tinha chamado a atenção há bastante tempo, com a sua premissa aparentemente bastante interessante: extraterrestres construíram um elevador (para o espaço, por isso espacial? Orbital?) na cidade de Darwin, na Austrália por razões desconhecidas e misteriosas. Quase ao mesmo tempo, uma praga misteriosa dizima grande parte da Humanidade e transforma uma pequena fração em "sub-humanos", criaturas selvagens, quase zombies, mesmo, que só pensam em atacar e matar. Apenas a "aura", uma espécie de campo de forças gerado pelo elevador protege os resquícios da Humanidade.

Quem não quereria ler isto, certo? Pelo menos se, como eu, o leitor gostar de ficção especulativa. Por isso, quando andava há procura de algo para ler, algo para passar o tempo entre a minha última leitura e o inicio da Temporada de Ficção Pós-apocalíptica, decidi pegar neste livro, sem me aperceber que o enredo faz dele um candidato ideal para este desafio.

Infelizmente, a ideia que parecia tão boa na sinopse, tornou-se um desastre nas mãos de Jason M. Hough. Desde o primeiro momento que senti que havia algo errado na forma como o livro estava escrito e com o passar das páginas percebi o que era: a caracterização das personagens é, numa palavra, horrível. E o facto de o livro ter inicio numa altura em que o elevador já foi construído há anos e que a praga já teve os seus efeitos mais nefastos não ajuda, porque o autor não nos dá contexto suficiente para perceber a sociedade atual em Darwin. A construção do mundo é confusa; os pedaços de informação que nos são dados pelos personagens não chegam para formar mais do que uma ideia fragmentada do que se passou com o elevador e a praga e, no meu caso, isso deixou-me muito pouco satisfeita com a progressão e com o foco do livro; se não sei nada de relevante sobre o mundo em que a história se passa, como posso interessar-me por ele?

Para dar um exemplo mais concreto, a história passa-se no final do século XXIII (2280 e tal, salvo erro) mas não nos é dada qualquer ideia do nível tecnológico da Humanidade. Aparentemente (uma vez que necessitam do elevador e que não utilizaram naves para fugir da praga), a Humanidade ainda não é capaz de viagens estelares... mas porquê? Tendo em conta o nosso nível de desenvolvimento atual, se as coisas progredirem regularmente, isso será uma possibilidade no século XXIII não? Quer dizer, se agora já conseguimos viajar até à Lua e mandar sondas para Marte, não me parece descabido que no século XXIII possamos ir, sei lá, até Marte, pelo menos (corrijam-me se estiver errada, que posso estar para aqui a inventar). E achei sinceramente estranho que, com tanto satélite, ninguém tenha dado pela nave dos "Construtores" como chamam os humanos aos extraterrestres. Isso também não nos é explicado. O autor simplesmente nos diz: apareceu aqui um elevador, apareceu uma praga, muita gente morreu e agora vamos em frente e o "backstory" que se lixe.

Outra coisa que me pareceu bastante parva (lamento, mas não me lembro de mais nenhuma palavra de momento), e atenção que aqui haverão spoilers, foi a premissa inicial que despoletou a "investigação" de uma das protagonistas, Tania aos dados sobre a nave dos "Construtores". Outro dos personagens (Neil) sabia da existência (ao contrário do resto do mundo), de uma segunda nave dos "Construtores" onde estes, muito gentilmente delineavam o seu "plano" nas proximidades do planeta Terra. Mas um dos amigos do Neil decidiu explodir com a nave e agora o Neil tem de ser maroto e fazer com que a Tania investigue os dados para saber se consegue descobrir o "plano" dos Construtores? Porque é que ele faz tanto segredo de tudo se precisa de ajuda? E porque é que, se as pessoas associam o elevador e a praga aos extraterrestres, ninguém tentou investigar esta ligação antes? Sinceramente, a aleatoriedade do enredo não me convenceu.

E as personagens? Terríveis! O herói era uma mosquinha morta (o que até seria ok, se ele evoluísse), o vilão era um estereotipo saído de um filme de categoria B (a sério, só lhe faltava o bigode... ele disse à heroína "Se não me disseres o que quero saber ficas a ser a escrava sexual dos meus homens"... I kid you not) e a heroína devia ser uma investigadora toda xpto e super inteligente, mas acabou por ser uma "donzela em apuros e um bocado burra" que não sabia fazer nada sozinha. A personagem feminina que era forte era também, para falar mal e depressa (e de forma um pouco misógina, peço desculpa), uma cabra. Via-se mesmo que o objetivo era que os leitores gostassem da heroína submissa e "feminina" e pseudo-cientista e que detestassem a protagonista kickass, que era alta, sabia lutar e utilizar armas. E nem me vou por a barafustar por causa dos sorrisinhos ("grins"). Toda a gente dava sorrisinhos dementes em situações despropositadas e a toda a hora: Uma pessoa morre, alguém "sorri"; uma pessoa pensa numa coisa sem piada nenhuma, alguém "sorri". Muito sorri esta gente e sem motivo. 

No fim, apesar do seu conceito interessante, The Darwin Elevator acabou por ser pouco mais do que o equivalente de um filme "feito para a TV" de ficção científica: elementos especulativos ostentosos mas muito pouca ciência; "zombies", para dar efeito e proporcionar um inimigo sedento de sangue mas pouco complexo; cenas de ação non-stop e muito pouca substância. Um foco de narrativa confuso e uma má construção do mundo. E a escrita? Medíocre.  

No geral, uma desilusão e um livro algo penoso de ler. Não me considero especialista no género, longe disso, mas não achei nada de especial. Admito ter alguma curiosidade sobre os "Construtores" e o seu "plano", mas até me esquecer desta experiência não volto a pegar no segundo da série... esperem uns quinze dias, portanto e lerão por aqui uma crítica do segundo livro comigo a queixar-me porque sou masoquista. Enfim.

Lido para a Temporada Ficção Pós-Apocalíptica:

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