18 fevereiro 2014

Se são clássicos porque é que nem todos gostamos deles?

Fonte
Como já devem ter reparado se leram o meu post anterior, estou a ler um livro que é considerado um dos clássicos intemporais da literatura norte-americana. É ele "Por favor, não matem a cotovia" (ou Mataram a cotovia) de Harper Lee, uma história sobre uma pequena cidade do Alabama nos anos 30. O acontecimento que marca este livro (mas não, penso eu, o único acontecimento de monta) é o julgamento de um homem de cor, acusado de violar uma jovem branca. O pai da narradora (uma rapariga de 8 anos) é o advogado de defesa e através dos olhos da criança, podemos ver as atitudes racistas e a mentalidade prevalecentes nas cidades do sul dos Estados Unidos nos inícios do século XX (quando ainda estava bem presente a Guerra Civil americana).

Comecei a ler este livro, como também já mencionei anteriormente, porque a Telma do Ler e Reflectir o leu recentemente e gostou imenso. E eu também estou a gostar. E como podem ver, mesmo sem o ter terminado já tenho algo a dizer.

Tenho sentido tanto interesse pelo livro que fui espreitar as páginas do Goodreads sobre o mesmo e deparei-me com uma discussão em que o autor da mesma se questiona se mais alguém achou que "To Kill a Mockingbird" ficou aquém das expetativas (link aqui). Alguns utilizadores responderam que sim. E imediatamente se iniciou um debate aceso sobre os méritos do livro e como o livro é um clássico da literatura e como, nas palavras de um dos membros "apenas pessoas estúpidas, que não compreendem as subtilezas desta obra, a achariam 'monótona' ou 'aborrecida'." (fonte). 

Porque é um clássico. E todos temos de gostar dos clássicos. Porque se não gostarmos de clássicos enquanto leitores então temos de pressupor que existe algo de errado connosco e com o nosso gosto literário. Pelo menos é o que muita gente diria.

No entanto, nunca percebi muito bem o que é um "clássico". Parece-me que é uma definição muito vaga, muito lata que pode englobar muitos livros e muitos géneros. É um livro com alguns anos? É um livro "bem escrito"? É um livro que se foca em assuntos sociais e humanos? Nesse caso, géneros como o romance e a ficção especulativa estariam desde logo excluídos, porque... o "Senhor dos Anéis" não se foca exatamente e/ou claramente na mentalidade racista do sul dos Estados Unidos. Seria "Orgulho e Preconceito" um clássico se não fosse, para além de um romance, uma crítica social escrita de forma humorística?
Fonte

Porque é que "Os Maias" é um clássico em Portugal? Porque é um retrato da época (não são todos os livros retratos de época)? Porque é um livro antigo? Teve esta obra algum impacto significativo na sociedade (não falo do choque do incesto)?

Uma pesquisa na Internet traz algumas respostas vagas. O site About.com (não das fontes mais fiáveis, mas enfim, isto é um artigo de opinião), diz que um clássico é um livro que "exprime uma qualidade artística", que "que tem um encanto universal", que "resiste ao teste do tempo" e que "um clássico tem ligações com outros movimentos artísticos".

Penso que os clássicos são clássicos primeiro porque alguém decidiu que seriam clássicos. Porque se o forem porque têm "encanto universal" então não existe um único clássico no mundo. Penso que é legítimo afirmar que alguns livros estão mais bem escritos e são mais complexos do que outros, mas não creio ser legítimo dizer que alguns livros não merecem ser livros. Ou que outros não merecem ser considerados aborrecidos, monótonos e simplistas apenas porque são... clássicos. 

As experiências e vivências de um ser humano podem influenciar a leitura de forma profunda e podem fazer-nos gostar ou não gostar de um livro aclamado pela crítica. Isso não nos torna menos cultos do que outros... nem que passem o tempo todo a ler livros quase universalmente considerados "lixo". Leiam o que quiserem. Aquilo que são enquanto seres humanos, a vossa personalidade, os vossos gostos são o que no fim decidirá aquilo que retirarão de um livro, seja ele "As Cinquenta Sombras de Grey" ou "A Cidade e as Serras".

Fonte
A arte é subjetiva. A literatura é uma arte. A técnica pode ser perfeita, em termos artísticos, mas são os observadores (ou os leitores) que têm a decisão final sobre o mérito de uma obra de arte. É por isso que não gostamos todos de Degas, Van Gogh e alguns preferem a Joana Vasconcelos. É por isso que alguns de nós nunca conseguiram ler "Os Maias" até ao fim mas lêem alegremente todos os livros do Nicholas Sparks. Isso não é uma reflexão da qualidade do gosto ou da inteligência de nenhum leitor. Quem utiliza esses argumentos passa a vida a viver um engano na minha humilde opinião e quiçá, a levar a leitura muito mais a sério, muito mais como uma tarefa em vez de uma atividade de lazer.

Tudo isto para dizer que não gostei do tom dos argumentos que li naquele debate. Apelidar os outros de "estúpidos" porque não gostam de um "clássico" é contraproducente e inválido. Leiam o que quiserem e serão muito mais felizes. Dito isto, e como descobri recentemente, variar faz muito bem às saúde das nossas leituras. :)

4 comentários :

Telma T. disse...

Fico muito contente que estejas a gostar do "To Kill a Mockingbird". Eu, quando penso que tenho que ler um clássico é, normalmente, aquele livro que já foi referido em tantas listas de "ter de ler" ou mencionado por várias pessoas, ou que estão sempre a ser reeditados. São, de uma forma ou outra, livros que resistem ao teste do tempo. Pelo menos é assim que os vejo.
Análises mais a sério, ficam para o nosso próximo Só Ler Não Basta, cujo tema é mesmo este.

slayra disse...

Lá estarei (se a minha ligação à Internet o permitir)! ^__^

Paula disse...

Gostei do post!
Quanto ao gosto pelos clássicos, há uns que gosto, já outros que deixo a meio e não tenho problema nenhum em dizer :)
Cada um gosta do que gosta :D

Abraço

WhiteLady3 disse...

Os clássicos parecem-me ser como todos os outros livros, com a diferença de que resistiram ao tempo, ou envelhecem bem. Tratam temas que ainda hoje são válidos, e muitas vezes são tratados com uma escrita mais do que bela, com uma sensibilidade que outros autores não têm. Mas de resto, e como todos os outros livros, uma pessoa tira da leitura o que tira. Aprende-se com todos os livros, com todas as histórias.