13 março 2015

Opinião: To Charm a Naughty Countess (Theresa Romain)


Editora: Sourcebooks Casablanca (2014)
Formato: e-book | 384 páginas
Géneros: Ficção histórica, romance histórico

Por vezes, é complicado dar uma opinião sobre romances históricos como "To Charm a Naughty Countess". Toda a gente espera que um livro com a palavra "naughty" (marota, para quem quer saber), com uma mulher e rosas, e com um tipo de letra feminino e cheio de arabescos e curvas seja um livro formulaico, com foco no romance e com tanta substância como algodão doce.

Mas, por vezes, estes livros encerram surpresas e podem ser bastante interessantes. Para quem já está a torcer o nariz, asseguro que já vi os autores destes supostos "bodice-rippers" e "romances" tocarem em assuntos como a diferença entre classes, a Revolução Industrial e diversas doenças, geralmente do foro psicológico (como Síndrome de Asperger) e mesmo problemas de aprendizagem como a dislexia.

Também se deve louvar a pesquisa histórica que algumas autoras fazem; por mais que goste da Julia Quinn, tenho de admitir que os seus livros desenvolvem apenas superficialmente as complexidades da alta sociedade londrina do século XIX e até chegam a modernizá-la.

Mas, como disse, nem todos os romances históricos são assim (apesar das capas serem todas muito parecidas).

"To Charm a Naughty Countess" não se foca, ao contrário do que se poderia pensar, na sedução de uma condessa inglesa. Aliás, o romance neste livro é discreto e não nos é atirado na cara (nada contra isso... adoro esses romances históricos em que o "histórico" só lá está para que as personagens tenham uma dificuldade acrescida em irem para a cama); não é, diria eu, sequer o foco.

Este livro foca-se em Caroline Stratton, uma condessa viúva que é uma referência na alta sociedade londrina. Todos gostam dela e todos seguem a sua opinião.

Do outro lado do espectro, temos Michael, um duque empobrecido que sofre de um problema que, claro, ninguém conhecia no século XIX: ansiedade social. Por isso, Michael é considerado louco e decide refugiar-se na sua casa de campo, até que o estado das suas finanças o obriga a entrar no chamado "mercado de casamento" e a procurar uma herdeira com quem casar. E quem melhor para o ajudar do que Caroline, a mulher que dita as tendências da sociedade?

Mas Caroline e Michael têm um passado, que pode fazer com que a convivência entre eles seja difícil.

É sobre as dificuldades de Michael que o livro se debruça, claro, juntamente com a crescente (mas, novamente, discreta) atração entre os protagonistas. Mas, talvez porque ambos sejam já mais velhos do que a generalidade dos protagonistas (pelo menos femininos) neste tipo de livros, a "fogosidade" que costuma caracterizar estas relações (por vezes até ao ponto de se tornarem ridículas e irrealistas) não está presente no livro.

E Romain é uma das autoras que fez o trabalho de casa: não só a ação se passa num período altamente específico da história inglesa e europeia (1816, o Ano sem Verão), como a autora nos dá imensos pormenores interessantes acerca da forma como as novas tecnologias que utilizavam o carvão, o petróleo e o vapor se estavam a imiscuir na vida das pessoas. O nosso protagonista é um amante das novas invenções e tenta aplicar inovações agrícolas nas suas terras (com pouco resultado devido ao clima).

Adorei toda esta contextualização. Adorei a forma discreta e realista como o romance foi abordado. Adorei a forma como a autora explorou os problemas sociais de Michael e como estes afetam a sua relação com todos os que estão à sua volta, mesmo aqueles que Michael ama. Achei que foi feito de forma realista (tendo em conta a época) e informativa.

No geral, uma ótima leitura. Não, não temos muitas cenas sensuais, nem um foco quase completo no romance (coisa de que também gosto nos romances históricos, nada de enganos) mas isso não significa que não tenha gostado do livro. É algo diferente do que se esperaria, tendo em conta a capa e mesmo a sinopse, mas vale a pena ler. A meu ver, não difere muito de obras que são consideradas "ficção" histórica em vez de "romance" histórico. Recomendado.

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