23 outubro 2011

Opinião: O Fim Chega Numa Manhã de Nevoeiro (Renato Carreira)

Editora: Saída de Emergência (2011)
Encadernação: Capa Mole | 232 páginas
Géneros: Thriller, Fantasia Urbana 
Descrição (GR): "Quando um grupo de feiticeiros renegados decide despertar uma personagem maldita da história portuguesa para cumprir uma profecia de séculos, Baltazar Mendes (investigador policial a quem acusaram de loucura!) vê-se envolvido contra sua vontade num conflito mortal em que nem todos os oponentes são humanos. Tudo dependerá de si porque, se a profecia se cumprir e o desejado regressar, o fim chegará numa manhã de nevoeiro. Uma aventura frenética, metade thriller, metade fantasia, que apresenta uma nova e talentosa voz do fantástico nacional."
"O Fim Chega Numa Manhã de Nevoeiro" de Renato Carreira foi a minha primeira obra de fantasia urbana por um autor português. Como sempre, entrei na leitura com expectativas baixas (devido a desilusões passadas e ao facto de ler, maioritariamente, obras do género e por isso conhecer a maioria dos enredos e características inerentes a este tipo de livros).

Felizmente, esta aventura sobrenatural pelas ruas de Lisboa lê-se com facilidade devido à acção quase constante, às personagens caricaturais e ao humor verdadeiramente engraçado (e algo auto-depreciativo).

Baltazar Mendes, inspector da polícia, foi recentemente despedido por motivos de saúde; ou seja, foi corrido da força por ser doido. Ou pelo menos é o que os seus superiores pensam... porque a verdade é que Baltazar está longe de ser maluco e tem apenas a má sorte de se ter associado com um feiticeiro.

Sem emprego e com a sanidade em causa, Baltazar certamente não precisa de mais complicações. Mas quando se conhece um feiticeiro e se tem uma insignificante imunidade ao sobrenatural as complicações vem bater-nos à porta, como o ex-polícia descobre quando se vê envolvido numa conspiração secreta que envolve feiticeiros renegados, uma mão-cheia de vampiros e uma ou outra figura histórica.

"O Fim Chega Numa Manhã de Nevoeiro" é como já disse, um livro que se lê bastante bem e com relativa rapidez. Tenho de confessar que achei a história mal explorada (tudo aconteceu muito depressa e algumas pontas ficaram por atar) e por vezes demasiado inverosímil, mas não é por isso que deixa de ser interessante, com a acção constante e um protagonista sarcástico que é, primeiro que tudo, um "tipo muito normal" e por isso uma personagem com quem o leitor se identifica facilmente.

Gostei também da óbvia brincadeira do autor com as suas personagens. Foi engraçado ver versões tipicamente portuguesas de vampiros e feiticeiros; nem todos são belos e hipnotizantes: alguns têm mau gosto no vestir, no pentear e nem mesmo os vampiros escapam aos problemas dos mortais, como uns quilinhos a mais ou um sinal no meio da cara.
Um dos meus maiores problemas foi mesmo o facto da caracterização não ser muito mais pronunciada no caso das personagens principais do que no das secundárias.

O ponto mais fraco do livro é o enredo. O autor poderia ter feito muito, mas muito mais com a história, mas o que me incomodou mais foi o facto de sermos lançados abruptamente num mundo escondido sem grandes explicações. As experiências iniciais de Baltazar dentro desse mundo são-nos relatadas de forma sucinta, o que não me agradou particularmente; acho que teria tido mais impacto se o livro abrisse com o herói a viver essas experiências.

No geral, este é um livro que irá certamente agradar a leitores que gostam de acção, aventura e alguma fantasia. Não tem uma história propriamente original ou particularmente bem desenvolvida e as personagens precisavam de uma caracterização mais cuidada, mas o ritmo "frenético" (como o descreve o resumo na capa) o humor e a escrita envolvente cativarão os leitores desde a primeira página. Um autor a seguir.
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3 comentários :

Maria Filomena Barradas disse...

Também li O Fim Chega numa Manhã de Nevoeiro e gostei.
Ao contrário de Slayra, não acho que fosse necessário explicar quais as razões que conduziram à associação entre Baltazar e o sr. Salcedo e o seu bando de feiticeiros.
Aliás, a opção pela não explicação cria uma espécie de narrativa in media res, em que Baltazar - tal como o leitor - é mais um espetador do que um participante efetivo. Este efeito resulta da característica distintiva de Baltazar: sendo imune ao sobrenatural, ele torna-se um herói marginal, espécie de Jack Burton lisboeta, capaz de enfrentar todos os perigos, mas nunca sucumbindo ao inexplicável. Baltazar é, também, um herói bem português, pelo modo como lida com os eventos ora de maneira sarcástica, ora com um encolher de ombros, ora revelando grande versatilidade e adaptabilidade às novas circunstâncias.
Bem portuguesa foi também a escolha do "taumaturgo Sebastião". No entanto, O Desejado passa a Indesejado nesta aventura. Mexendo com um conceito caro à cultura portuguesa, o autor interroga e reflecte a propensão nacional para se acreditar num salvador. No fundo, salvadores não há. Os únicos possíveis somos nós mesmos, heróis acidentais como Baltazar, a quem cabe a missão de nos salvarmos todos os dias.
Uma última palavra para o humor. O registo bem humorado de O Fim Chega Numa Manhã de Nevoeiro é incontornável. Percorre toda a narrativa e sublinha a sua natureza de narrativa fantasiosa, i.e., que dispensa a verosimilhança e que é capaz de se rir de si própria.
Baltazar é um pouco o Duarte sem Companhia; é um Indiana Jones sem arca da aliança; é um Marty McFly sem o DeLorean. A mim, lembra-me esse tempo em que havia filmes e livros de aventura, trazidos pela carrinha da Biblioteca Itinerante da Fundação Gulbenkian, em que a aventura existia pela aventura. E tinha saudades.

slayra disse...

Hmm... muito obrigada pelo comentário adicional Maria! Ainda bem que gostou do livro. :D Eu também o achei interessante se bem que na minha humilde opinião o herói do livro deva estar o mais envolvido possível na acção. :)

E para avisar potenciais leitores de comentários... a opinião/ crítica da Maria têm alguns SPOILERS.

Rute disse...

Olá, adorei o blog e já sigo.
Se me puder seguir também :

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