24 julho 2012

Em Foco: série Downside Ghosts

Hoje vou falar um pouco de uma das séries de fantasia urbana que mais me impressionou nos últimos tempos.

A série Downside Ghosts, da autoria de Stacia Kane, tem como protagonista Chess Putnam. Chess é uma protagonista invulgar que vive num futuro próximo invulgar.

Em 1997, um acontecimento à escala mundial mudou radicalmente o futuro da Humanidade: no presente do livro chamam-lhe "Haunted Week" (Semana Assombrada ou Assombrosa). Nessa semana os mortos ergueram-se das suas sepulturas, exércitos de fantasmas irados que pegaram em tudo o que pudesse constituir uma arma e desataram a matar pessoas. A Igreja [da Verdade] (que, pelo que nos é dito, era, até ao momento uma seita, provavelmente constituída por bruxas e feiticeiros) veio em defesa da Humanidade, combatendo os fantasmas e prendendo-os numa caverna gigante com feitiços para os acalmar. A essa caverna chamou-se a "Cidade da Eternidade".

Alguns anos mais tarde (pelo menos 20, não se sabe bem quantos), a Igreja governa o mundo. Todas as outras religiões são proibidas, uma vez que se provou que eram falsas, quando os fantasmas apareceram. A Igreja ensina que apenas os Factos e a Verdade importam.

Chess é uma bruxa afiliada à Igreja cujo trabalho é investigar assombrações (assim mais ou menos como os Ghost Busters). Se a assombração for verdadeira, a Igreja (através de Chess), tem como dever 'banir' o fantasma para a Cidade da Eternidade e pagar uma compensação ao lesado. Se a assombração for falsa, quem tiver pedido os serviços da Igreja irá preso. É que caçar fantasmas não é isento de riscos uma vez que estes são por norma (99,9% como refere Chess) violentos.

Chess vive no pior lado da cidade, o Downside, um local governado por dois gangues rivais. É também viciada em drogas. Leva uma vida dupla, pois se descobrissem o seu vício não poderia continuar a trabalhar para a Igreja. A sua vida complica-se quando o seu vendedor de drogas lhe pede (ou melhor, a força) para trabalhar também para ele. Chess vê-se obrigada a aceitar pois não pode deixar que a Igreja descubra a realidade da sua vida.

Esta é a premissa base da série. Chess é uma personagem complicada que teve uma infância horrorosa, tendo sido abusada física e psicologicamente nas maioria das casas de acolhimento onde foi colocada. Só quando foi testada pela Igreja e se descobriu que tinha poderes mágicos é que se libertou. Assim, Chess tem de ser quase duas pessoas diferentes; depende de drogas (nas quais foi viciada por um ou mais dos pais adoptivos) mas tem de esconder esse facto da Igreja que não tolera tais vícios. E Chess quer continuar na Igreja, porque na sua mente, foi a Igreja que a salvou, quando a retirou do "sistema" para ser educada nas artes de bruxa e caçadora de fantasmas.

Downside Ghosts é uma série de fantasia urbana bem mais sombria e violenta do que o normal. Para além do apelativo e bem estruturado mundo distópico, Kane apresenta-nos uma personagem profundamente magoada física e psicologicamente, que tem de se obrigar a viver uma vida que no fundo, não quer assim muito viver. Chess é uma personagem perturbante, pelos seus problemas, pela sua profunda falta de auto-estima e pela escuridão que a rodeia, devido aos seus sentimentos negativos e muitas vezes, de auto-comiseração. A autora não está com meias medidas; Chess não é "pseudo-torturada" como tantas heroínas de fantasia urbana que por aí andam, sofreu muito e o leitor não é poupado às descrições (em nada gráficas, no entanto), daquilo que lhe aconteceu. Esta protagonista é muito mais humana, real e consequentemente falível do que muitas outras dentro do género.

Até ao livro 5 (Chasing Magic), a autora focou-se mais no desenvolvimento de Chess e do conjunto de personagens com quem interage (basicamente criminosos residentes em Downside) do que nas origens (A "Semana Assombrada") do mundo em que as personagens se movem. Mesmo assim esta é uma óptima série, diferente, sombria e completamente viciante. Stacia Kane tem uma maravilhosa atenção ao detalhe e cria um mundo sólido e interessante, do qual é muito difícil fugir.

Esta apresentação não estaria completa sem se falar um bocado do Terrible. Que é o protagonista e interesse romântico da heroína. Nunca vi uma relação tão bem construída e credível neste tipo de livros (fantasia urbana). O Terrible (Terrível) é um protagonista diferente (lá está), e ao princípio é um bocado estranho pensarmos nele como interesse romântico (bem, ele é um dos 'vilões' por assim dizer), mas não tarda muito estamos a torcer por ele! E quando damos por ela estamos com os olhinhos a brilhar quando pensamos no Terrível! xD
Word! Altamente recomendada, esta série! Se uma autora consegue fazer-me sentir tantas emoções (como choque, nojo, tristeza e coisas assim) de uma só vez, então para mim vale a pena. :)

4 comentários:

WhiteLady3 disse...

Convenceste-me com a parte do nojo! Nah, estou a gozar mas parece realmente interessante. Já experimentaste a Mercy? Se sim, está ao nível ou superior à Mercy?

slayra disse...

LOLOL, nojo, no sentido de que algumas personagens são más... mesmo.

Yah, já li. É diferente, para já Downside Ghosts passa-se numa sociedade distópica, os EUA não são bem iguais. E todo o sistema é mais ou menos teocrático. E depois a Chess não é para toda a gente. Ela é mesmo screwed-up, consome drogas, está sempre a ter diálogos interiores deprimentes e tem muitos momentos de self-pity. Mas isso é porque o background dela é mesmo muito mau. Ou seja não é uma personagem que vá agradar a todos. Tipo, não é a protagonista heróica o costume. E o Terrível... digamos que ele de 'bonzão' não tem muito, como o descrevem tem mesmo aquela vibe de "lackey nº 2 dos filmes de acção". Mas as personagens estão muito bem escritas. Eu acho. A cena é que sendo tão screwed-up a coisa não se resolve em 2 livros... no 5º ela continua screwed-up. :P

Para mim esta série é muito melhor, mas é mesmo uma questão de gosto.

WhiteLady3 disse...

Hum, talvez dê então uma vista de olhos. Às vezes gosto de livros "murros no estômago" e estes parecem ser desses. O cor-de-rosa às vezes irrita. :P

Telma Teixeira disse...

Pá, tou convencida! :)