09 dezembro 2013

Opinião: A Estação dos Ossos (Samantha Shannon)

A Estação dos Ossos by Samantha Shannon
Editora: Casa das Letras (2013)
Formato: Capa mole | 496 páginas
Género: Distopia, Romance paranormal, Lit. Juvenil/YA
Descrição (GR): "2059. Paige Mahoney tem dezanove anos e trabalha no submundo do crime da Londres de Scion, na zona dos Sete Quadrantes, para Jaxon Hall. O seu trabalho consiste em procurar informações invadindo a mente de outras pessoas. Paige é uma caminhante de sonhos, uma clarividente - e, no seu mundo, no mundo de Scion, comete traição pelo simples facto de respirar. Está a chover no dia em que a sua vida muda para sempre. Atacada, drogada e raptada, Paige é levada para Oxford - uma cidade mantida em segredo há duzentos anos e controlada por uma raça poderosa, vinda de outro mundo, os Refaim. Paige é atribuída ao Guardião, um Refaíta com motivações misteriosas. Ele é o seu mestre. O seu professor. O seu inimigo natural. Mas, para Paige recuperar a sua liberdade, tem de se deixar reabilitar naquela prisão onde tem por destino morrer."
AVISO: Alguns SPOILERS!
(Li esta obra no inglês original, mas apresentam-se os dados da portuguesa).

Muitas das opiniões do Goodreads, descrevem este livro como um dos mais antecipados do ano, possivelmente devido à gigante campanha de publicidade que se construiu em volta de "A Estação dos Ossos".

Sinceramente, nunca tinha ouvido falar deste livro antes de ver para aí na net algures que o iam publicar aqui em Portugal. Só depois é que percebi que era uma espécie de "fenómeno" e foi por isso decidi ver porque é que toda a gente andava a falar do livro.

A capa da edição portuguesa contém uma citação da autoria da Forbes/N.Y. Times que diz o seguinte "Será Samantha Shannon a próxima J.K. Rowling?".

A minha resposta a esta pergunta é um peremptório Não. Porquê? Porque a J.K. Rowling é uma mestra do world building (construção do mundo). Desde o primeiro livro que ela nos dá informações necessárias para compreendermos o que se passa com o Harry e com o mundo dos feiticeiros. Recebemos esta informação em "doses", de livro para livro, ao mesmo tempo que o Harry até que no final temos uma "imagem" completa e intrincada de todo o panorama: do sistema de magia, das criaturas mágicas, da relação entre os feiticeiros e os "muggles" e muito mais.

Em "A Estação dos Ossos", isso não acontece. A autora "atira-nos" para um mundo estranho, apesar de ser num futuro próximo. Temos a heroína que trabalha num "bar de oxigénio" (apenas como fachada), mas nunca nos é explicado o que é um "bar de oxigénio". É-nos dito que o Scion, o corpo político tirânico que governa muitas cidades da Europa se começou a afirmar no século XIX, devido à "descoberta" de uma nova "classe" de humanos, os "clarividentes", que têm o poder de entrar e/ou manipular o "aether". Aparentemente os clarividentes são considerados um perigo e caçados e encarcerados.

A origem dos clarividentes é-nos explicada de forma sumária e confusa: aparentemente o rei inglês Eduardo VII foi não só o primeiro clarividente mas também Jack o Estripador (porque matou uma data de gente para conseguir o poder ou algo do género). Sinceramente, não percebi esta história e fiquei com imensas dúvidas... isto significa que no mundo da autora a clarividência não existia como conceito cultural e religioso nas sociedades humanas antes do século XIX? Todas as artes relacionadas como o tarot e as runas, etc, não existiam? Ou existiam mas ninguém lhes prestava atenção? Não sabemos.

Ao mesmo tempo, as implicações religiosas deste fenómeno não são referidas de todo. Ao princípio é-nos dito que as pessoas têm "anjos da guarda" e fiquei a pensar que a autora ia fornecer uma explicação... mas não. Afinal os "anjos" são espíritos e nunca nos é dito como é que a existência do "aether", a substância onde, segundo a realidade expressa no livro os espíritos vão para "morrer" mudou a visão da sociedade sobre Deus e a religião. Continua a existir religião? É por pôr em causa a religião que as pessoas ditas "normais" têm tanto receio dos clarividentes? Não sabemos.

A nossa heroína, Paige Mahoney é uma clarividente que trabalha para o "sindicato", uma organização criminosa cujos objetivos, funções e razão de existência estão, mais uma vez, bastante mal explicados. Não consegui perceber muito bem se o sindicato existe para roubar as pessoas "normais", ou se existe para proteger os clarividentes.

Claro que Paige é uma clarividente rara e fora do vulgar que pode invadir os sonhos das outras pessoas. O que ela faz para o seu "mestre", o Jaxon Hall é algo obscuro... Aparentemente ela entra nos "sonhos" das pessoas para ver o que elas estão a pensar... No fundo para ver se existe algum perigo? Penso eu...

Os clarividentes têm de ter muito cuidado com a polícia de Scion (ou SciLo - Londres), que os prenderá na Torre (de Londres?) se os apanhar.

Um dia, Paige é apanhada e levada para Oxford, que por razões obscuras (e mal explicadas), está interdita devido a radiação (mas porquê, ninguém sabe). Acontece que Oxford é na verdade o lar de umas criaturas estranhas, os Refaim que são seres que vieram do aether. Aparentemente (segundo a confusa explicação) houve uma "overload" no aether no século XIX, causando uma fissura. Por isso os Refaim vieram daí e decidiram que iam ficar na Terra e raptar todos os clarividentes para os treinar para matarem os Efrim (sp?) umas criaturas que também vieram do aether e que comem humanos.

Isto causou-me logo estranheza porque: 1) se os Efrim vieram do aether no século XIX para a Terra, pela primeira vez porque é que comeriam humanos e 2) se os Refaim são assim tão mais poderosos do que os humanos (como estão sempre a dizer) porque é que não combatem eles os Efrim?

Não fazemos ideia. Tudo o que sabemos é que os Refaim são belos, poderosos e não gostam nada de humanos. Os clarividentes são basicamente escravos.

Em suma, A Estação dos Ossos é um livro com um conceito bastante ambicioso, certamente. Mas tem um problema que, para mim, é fatal: uma construção do mundo incipiente e imprecisa (mesmo com o glossário e os esquemas). Há muitas coisas a acontecer ao mesmo tempo; há muitas personagens a ocuparem tempo de antena (Jaxon Hall, Nick, o primo de Paige, o pai de Paige, o Guardião, uma mão cheia de Refraim, uma data de clarividentes, entre outros). No fundo, o grande problema deste livro é a sua exposição confusa e incompleta. Dá ideia que a autora não sabe bem em que direção levar a história.

Se tirarmos o conceito, o livro é uma distopia paranormal bastante genérica. O Scion é um governo totalitário genérico e obviamente à mercê de forças externas. Os Refaim são uma raça de extraterrestres misteriosos e poderosos que exercem ao mesmo tempo fascínio e repulsa na nossa heroína. Os seres humanos são, previsivelmente, os sofredores.

Não existe também grande descrição da evolução tecnológica dos humanos. Estamos em 2059 e tudo o que parece diferente são os "bares de oxigénio" (o que quer que isso seja).

Relativamente às personagens, não mostraram grande complexidade neste primeiro livro. Não são propriamente estereótipos, mas também não primam pela originalidade. O romance foi bastante cliché e não foi propriamente realista.

No geral, "A Estação dos Ossos" é um livro certamente ambicioso que tem o potencial para se tornar numa série interessante e complexa. Infelizmente, apesar da escrita envolvente, a autora não foi capaz de esboçar de forma eficaz o mundo em que as personagens se movem. Gostaria de ter sabido mais sobre as origens da sociedade de Scion e de ter lido mais sobre como os clarividentes são diferenciados e discriminados. E claro, sobre os próprios Refaim. Sim, eu sei que isto é uma série, mas relativamente ao que aconteceu neste primeiro livro, penso que a autora omitiu partes fundamentais do world building.

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