24 março 2014

Opinião: A Guerra Eterna (Joe Haldeman)

A Guerra Eterna by Joe Haldeman
Editora: ASA (2014)
Formato: Capa mole | 340 páginas
Géneros: Ficção Científica
Descrição: "Em 1997 a Terra entra pela primeira vez em contacto com os extraterrestres tauranos. Este encontro marca o início de uma guerra impiedosa. As autoridades terrestres decidem enviar um contingente de elite, e preparam um programa de treino quase inumano, destinado a produzir soldados capazes de aguentar tudo.
William Mandella é um desses soldados.
A fim de viajar até à frente de batalha, os soldados têm de atravessar portais chamados collapsars, que causam uma distorção espáciotemporal, fazendo com que o tempo subjetivo da nave seja mais lento que o tempo «real» do universo. Ou seja, quando Mandella regressa a casa após dois anos, quase três décadas passaram na Terra. E conforme viajam para mais longe, maior é a dilatação, passando de décadas para séculos inteiros.
A luta mais cruel que estes soldados terão de travar será a sua batalha pessoal contra o tempo."
(A edição lida está em inglês, mas apresentam-se os dados da portuguesa).

Sinceramente, não sei dizer o que se passa comigo e com a ficção científica ultimamente. Sempre gostei deste género, quero gostar deste género e quero ler mais obras deste género (o que tenho feito recentemente), mas por alguma razão ou tenho azar ou já li a minha conta de obras de ficção científica porque nem sequer deste livro, que é supostamente um clássico do género, consegui gostar particularmente.

Não sei se alguém me vai cair em cima por não ter "percebido esta obra" que aparentemente tem a ver com as experiências do autor na Guerra do Vietname. A mensagem geral parece-me bastante clara e até concordo com ela (diferenças culturais que causam guerras desnecessárias, yadda, yadda), mas a "execução" deste livro foi demasiado nonsense para mim nalgumas partes.

Ok. Estamos em 1996 (não nos esqueçamos que o livro foi escrito em 1975) e os seres humanos descobriram uma série de portais "a la Stargate" (exceto que estes são ocorrências naturais) que lhes permitem fazer passar naves para outros pontos da galáxia. Como somos seres curiosos, a Humanidade decide ir onde nenhum homem, mulher ou chimpanzé foi antes e estabelecer colónias em planetas próximos dos portais. Mas dão de caras com outra espécie, os tauranos. E assim começa uma guerra interminável de 1000 anos que nos é narrada por Mandella, o nosso protagonista. Devido à relatividade do tempo em diversos pontos do espaço (ou algo do género, alguém que saiba mais que me corrija), Mandella está presente durante a primeira e a última batalha desta guerra.

A primeira campanha de Mandella tem lugar em 1997, quando os humanos vêem pela primeira vez os tauranos. É uma carnificina. E depois... bem, depois temos o Mandella a andar de um lado para o outro em naves. De vez em quando volta para a Terra, onde se passaram algumas centenas de anos (enquanto para ele se passou um ano ou algo do género, Relatividade, etc e tal). Quando aí está ele reflete nas mudanças da sociedade; depois é de novo empurrado para o conflito e temos muitas descrições de acelerações de desacelerações das naves, de pessoas a entrarem em tanques para se protegerem, termos técnicos atirados de um lado para o outro e algumas batalhas.

E vira o disco e toca o mesmo. Quando ele chega perto da Terra já mudou tudo outra vez.

Devo dizer que esta dinâmica, a passagem do tempo no livro, foi o que mais me agradou em "A Guerra Eterna". Gostei muito de ler sobre isso, achei interessante se bem que não percebo de todo a teoria por detrás deste fenómeno. Seja como for, gostei de ver como a sociedade humana evoluía de cada vez que Mandella os encontrava.

O que me desagradou foi o sexismo e a homofobia presentes. Ok, esta obra é de 1975... mas podemos se faz favor ter uma mente aberta? Que tal. Quando li que as mulheres eram obrigadas pelo exército e pela lei a ter sexo com os seus colegas masculinos (para os satisfazerem, presumo, porque coitados, ali fechados sem companhia feminina, temos de ser compreensivos, os desejos das mulheres que se lixem) ia atirando com o Kobo à parede. E tipo, transformar toda a gente em homossexuais como forma de contraceção? Ahahahah! Como se as pessoas homossexuais não quisessem ter filhos. Please. E dizer que ser heterossexual era o equivalente a ser sociopata? Achei estas partes do livro tão idiotas, que me estragou a leitura do resto.

Quanto às personagens, devo dizer que não consegui sentir empatia por nenhuma delas. Mandella... sou-lhe totalmente indiferente, a sua narrativa era tão pouco emotiva que o destino da personagem não me interessou minimamente.

E quanto à guerra com os tauranos? Secundária (o que, num livro que supostamente está a tentar fazer ver como certas guerras podiam ser evitadas, me parece bastante grave). Os combates são a única vertente explorada no livro, as motivações e os tauranos enquanto raça nunca recebem qualquer atenção. Não ajuda em muito a mensagem "Guerra é má, especialmente quando é desnecessária". A não ser que seja suposto percebermos isso pelo caso esquisito de Síndroma de stress pós-traumático das personagens.

No geral? Não gostei assim muito. A premissa é gira e tal, mas clássico da ficção especulativa ou não (e prémios Nebula e Hugo ou não), não gostei particularmente da história. Enfim, gostos. Suponho que o devo aconselhar a quem gosta de ficção científica...

6 comentários:

Telma T. disse...

Estou a pensar em arrumar todos os livros escritos nos anos 70 a um cantinho, e tu? É que ao ler a tua opinião sobre este livro chego à conclusão que o mal é da década em que foram escritos.

slayra disse...

Possivelmente... mas eu pensava que nos anos 70 já se reconhecia que as mulheres não estavam lá para darem apoio aos homens quando fosse preciso. :P

Marco Lopes disse...

Quando li esta opinião não quis comentar porque ainda não tinha lido o livro, mas agora que o fiz apetece-me dizer que parece que lemos livros diferentes.

A mensagem não é bem as "diferenças culturais que causam guerras desnecessárias", mas antes a guerra enquanto algo que faz mudar as pessoas seja os soldados sejam o civis. Nós com a Guerra do Ultramar não notamos isso muito isso, mas os americanos, soldados e civis, notaram que havia uma América antes e depois da Guerra do Vietname, especialmente os soldados que regressaram a uma nação diferente e que não sabia muito bem como lidar com eles ora aclamando-os ou vaiando-os.

A questão da homossexualidade como aqui vi abordada foi algo que me deixou de pé atrás, mas ao ler o livro não vi essa "homofobia" de que aqui se falou, nem do sexismo. Concedo que a "rotação" das camas também foi algo que "estranhei" ao inicio, mas não nos podemos esquecer que o Mandella e respectivos camaradas são filhos da geração "peace & love",além disso o mais provável é que o autor se tivesse inspirado no que os antigos Espartanos faziam: promover as relações sexuais entre os soldados (homens) porque acreditavam que os soldados combateriam melhor por alguém que amavam, além disso não vi que as mulheres ou homens fossem coagidos a ter relações seja com quem for, aliás até achei interessante que houvesse combatentes do sexo feminino em pé de igualdade como os homens, pois como referes o livro é de 1975 e foi só a partir dessa década que elas começaram, e friso este começaram, a ser integradas nos exércitos.E a homofobia de que falas não a considero homofobia. O Mandella apenas estranha, mas nunca fala mal ou repudia. O que se vê é uma mudança da sociedade, alias varias ao longo do livro e podemos gostar mais ou menos, mas elas acontecem todos os dias, mas geralmente o nosso tempo de vida é demasiado curto para o notar. Ainda à não muito tempo bater na mulher era normal, e outras atrocidades que hoje são consideradas crime cá, mas noutros países não. Essas realidades estão espelhas nos livros dessas épocas e/ou romances históricos e não é por isso que são maus, muito pelo contrario, é mais uma elemento a dar realismo ao livro.


O Mandella apenas regressa uma vez à Terra uma vez e nunca mais cá volta, portanto não é "vira o disco e toca o mesmo".

A questão sobre o tempo remete para as teorias da relatividade (geral e especial) do Einstien que genericamente diz, no que a este assunto diz respeito, quanto mais rápido nos movemos mais devagar o tempo parece se mover para quem viaja, ou seja imagina que tens um gémeo e tu vais numa viagem de comboio à velocidade da luz (ou tão perto quanto possivel). A viagem dura um ano para o teu gémeo, mas para ti foi apenas uma hora. Também incluir um peculiar efeito, quanto mais rápido te moves mais massa ganhas, mas eu não sou especialista no assunto, apenas um interessado no assunto.

slayra disse...

Marco Lopes, ainda bem que gostou do livro. Se calhar lemos livros diferentes. Ou então, devido ao facto de sermos pessoas diferentes, tirámos coisas diferentes do livro. É essa a beleza da leitura.

Aconselho-o vivamente a escrever uma crítica a este livro no seu blogue (se o tiver) ou no Goodreads. Deste modo as pessoas ficarão a conhecer a sua opinião sobre o assunto.

"Concedo que a "rotação" das camas também foi algo que "estranhei" ao inicio"

Eu não estranhei minimamente que as pessoas pudessem ter sexo umas com as outras livremente. Mas, e não sei se leu o original ou se leu a tradução e isso se perdeu, há uma parte no livro em que se diz especificamente que as mulheres são obrigadas POR LEI a servir sexualmente os homens com quem estão alojadas. Obrigadas. Por lei. Apenas as mulheres. Não é mútuo, não é uma lei que engloba todos os soldados, apenas as mulheres. Se isto não é uma marca de sexismo não sei o que será. É, claro, livre para discordar.

"E a homofobia de que falas não a considero homofobia."

Mais uma vez, é a sua opinião. Eu considero que é homofobia porque o autor acha que tornar toda a gente geneticamente "homossexual" faz com que as pessoas deixem de querer ter filhos. E pela forma como esses homossexuais do futuro tratam as pessoas heterossexuais. Pensar que as pessoas homossexuais alguma vez possam ter a mesma atitude perante as heterossexuais que muitas heterossexuais têm para com elas é extremamente insultuoso.

Mas mais uma vez, pontos de vista, subjetividade, yada, yada.

"O Mandella apenas regressa uma vez à Terra uma vez e nunca mais cá volta, portanto não é "vira o disco e toca o mesmo"."

Mais uma vez, não o é para si. Para mim, foi.

Se quer encetar um debate sobre uma obra comigo (ou qualquer pessoa) não escreva um comentário que tenha como ideia subjacente o facto de eu não ter "percebido" o livro. Só um conselho. As pessoas estarão mais recetivas a debater e até a mudar de ideias se não sugerir que a sua interpretação que deram a uma obra está errada.

Dito tudo isto, obrigada pelo seu comentário.

Marco Lopes disse...

Cara Slayra


Li a edição portuguesa mais recente e à qual faz menção. Esta contém um prefácio do autor John Scalzin, mas mais importante uma introdução e uma nota do Joe Haldeman. É nesta nota do autor que ele explica que a presente edição é a definitiva e que existem mais duas, mas esta é a que foi escrita originalmente. Não sabendo eu que qual a versão que leu confio na sua palavra de que na sua versão venha mencionado que as mulheres são obrigadas por lei a servir sexualmente os homens, e claro que neste caso concordo consigo. Ainda fiz uma leitura na diagonal pelos primeiros capítulos, mas (voltei) a não encontrar menção a essa obrigação.

Quanto à homofobia, e mais uma vez, não a considero como tal porque o autor não pretende ser ofensivo. O que ele faz é utilizar uma artificio para criar mal-estar no personagem principal acentuando assim o seu isolamento dentro daquele grupo. Poderia citar livros e/ou filmes que fazem uso destes artifícios sem que isso queira dizer que são homofóbicos, racistas, etc. Além disso não sabe como irá ser o futuro portanto tanto quanto sabe até pode ser que todos sejam obrigados a tornar-se homossexuais para controlar a população, por muito implausível que isso agora nos pareça. E não vejo, mais uma vez, porque é que é insultuoso que os homossexuais tratem os heterossexuais como alguns heterossexuais tratam os homossexuais. Os homossexuais e os heterossexuais apenas diferem na orientação sexual, ao mais e ao resto são iguais. E o autor não diz que os homossexuais deixam de quer ter filhos, mas terá de reconhecerá que sem "ajuda" é difícil.

Quanto à questão do personagem Mandella apenas regressar uma vez à Terra não se trata de uma questão subjectiva ou de opinião, é uma facto.

Já li e reli o meu comentário e não percebo onde é que deixei subjacente que a cara Slayra não tinha percebido o livro. Se por dar a minha opinião e apresentar factos de que não falou, alicerçando assim a minha opinião é dizer que não percebeu o livro então não sei como é que discute seja o que for seja com quem for. Uma discussão (no bom sentido da palavra) é uma troca de ideias com vários pontos de vista a ser apresentados com argumentos e contra-argumentos e pela minha parte foi o que fiz. Se acha que por dar a minha opinião como dei lhe "chamei algum nome feio", directa ou indirectamente, não sei se lhe peça desculpas ou se fique ofendido.

Por fim informo-a que tenho um blog e que em breve deverei publicar por lá a minha opinião sobre este e outros livros, mas não só. Convido-a a visita-lo e a dar a sua opinião em qualquer do textos:


http://osenhorluvas.blogspot.pt/


PS: Parece que "As Cronicas de Allaryia" do Filipe Faria nos marcaram a ambos. É bom saber que apesar de tudo o que aparentemente nos afasta existem pontes que nos ligam.

slayra disse...

Olá Marco,

Li a versão original definitiva, com o tal prefácio do Scalzi.

Para clarificar, eis a citação "The only area big enough to sleep all of us was the dining hall: they draped a few bedsheets here and there for privacy, then unleashed Stargate’s eighteen sex-starved men on our women, compliant and promiscuous by military custom (and law), but desiring nothing so much as sleep on solid ground."

E é isto. Claro que isto pode ter parecido extremamente progressivo na época (os anos 70), mas sinceramente achei bastante ridículo. Estes arranjos acontecem naturalmente se não forem proibidos... o que demonstraria uma maior abertura do que quase que obrigar seja quem for a ter sexo. Mas, obviamente, é uma opinião.

Quanto à homofobia, e mais uma vez, não a considero como tal porque o autor não pretende ser ofensivo.

Não tem que ver só com isso sabe ("Ajuda"? O quê, acha que uma mulher homossexual não pode ter sexo com um homem ou vice-versa, se quiserem procriar?)? É o facto de o autor estereotipar as pessoas homossexuais. Há um homem que usa verniz e batom e que informa os soldados que, obviamente é homossexual. Obviamente porquê? E é problemático que estes homossexuais sejam representados como intolerantes porque isso pressuporia que os muitos e muitos anos que os homossexuais foram discriminados foram esquecidos. :P

Quanto à questão do personagem Mandella apenas regressar uma vez à Terra não se trata de uma questão subjectiva ou de opinião, é uma facto.

Mas que tem isso a ver com o facto do livro ser repetitivo? Refiro-me ao facto de o autor utilizar a mesma fórmula uma e outra vez. Seja onde for que Mandella vai, de cada vez que encontra pessoas a sociedade humana sofreu uma qualquer mudança radical. É basicamente isto que define o livro inteiro e é a isso que me refiro.

Já li e reli o meu comentário e não percebo onde é que deixei subjacente que a cara Slayra não tinha percebido o livro.

Quando alguém me diz que "parece que lemos livros diferentes", assumo que me está a dizer que por qualquer razão não percebi o que o livro me estava a tentar dizer. Pode nem sequer ter sido consciente da sua parte, mas sinceramente os "fãs" (não digo que seja o seu caso) costumam utilizar muitas vezes esta expressão para dizer a quem não gostou de algo que essas pessoas não "perceberam".

Também me começa por dizer que a mensagem não é exatamente a que eu escrevi na minha opinião... que quer que pense? Poderia ter dito antes "Olhe agora que li, o que eu retirei foi...", mas não, sabe o que disse: "A mensagem não é bem as "diferenças culturais que causam guerras desnecessárias", mas antes...".

Como disse, estaria muito mais tentada a debater consigo, se não tivesse aberto o seu discurso desta forma. Porque para mim, cada pessoa pode tirar coisas diferentes de um livro. Mas enfim, está no seu direito de achar que não é assim.