20 fevereiro 2012

Opinião: Sangue Quente (Isaac Marion)


Sangue Quente de Isaac Marion
Editora: Contraponto (2010)
Formato: Capa Mole | 244 páginas
Géneros: Ficção Científica, Fantasia Urbana
Descrição da Edição Portuguesa (GR): "R é um jovem em plena crise existencial. É um zombie. Numa América devastada pela guerra, pelo colapso da civilização e pela fome incontrolável de hordas de mortos-vivos, R anseia por algo mais do que devorar sangue quente. Só consegue pronunciar alguns monossílabos guturais, mas a sua vida interior é rica e complexa, cheia de espanto pelo mundo que o rodeia e desejo de o compreender – bem como a si próprio. R não tem memórias, não tem identidade e não tem pulsação… mas tem sonhos. Depois de um ataque, R devora o cérebro – e, com ele, as memórias – de um rapaz adolescente, e toma uma decisão inesperada: não devorar a jovem Julie, a namorada da sua vítima, e até protegê-la dos outros zombies. Começa então uma relação tensa mas estranhamente terna entre ambos. Julie traz cor e vivacidade à paisagem triste e cinzenta da semi-vida de R. E a sua decisão de proteger Julie pode até trazer de volta à vida um mundo marcado pela morte… Tão assustador quanto divertido e surpreendentemente terno, Sangue Quente é um livro sobre pessoas mortas que se sentem vivas, pessoas vivas que se sentem mortas – e o que podem sentir e fazer umas pelas outras."
Sangue Quente (Warm Bodies) não é, definitivamente o tipo de livros que costumo ler. Sou uma aficionada da fantasia urbana, sim, mas não gosto muito de histórias sobre zombies. Não aprecio o facto de serem todas muito parecidas com o seu grupo de heróis a resistir corajosamente, armados de machados e facas. Gore, sangue e muita angústia emocional por todo o lado. Não faz o meu género.

Mas Isaac Marion escreveu um livro que desafia estas convenções, um pouco como "Eu sou a Lenda" (o livro e não o filme), desafia as convenções dos livros com vampiros. Sangue Quente é contado do ponto de vista de R, um zombie. Apesar de não conseguir falar e de ter perdido as memórias da sua 'vida anterior' R conserva ainda alguma capacidade cerebral. Ele e os seus companheiros vivem num aeroporto abandonado onde construíram uma espécie de sociedade numa desesperada tentativa de permanecer humanos. Apesar do tempo pouco significar para eles, saem várias vezes para se alimentar, uma necessidade se querem sobreviver. Os cérebros dão-lhes a possibilidade de entrever as memórias dos humanos a quem pertencem. 
O livro explora perguntas clássicas como "o que nos torna humanos?" e "o que nos distingue dos animais?" que são aqui respondidas através de uma viagem de auto-conhecimento, empreendida por R. 
Quando o bando de R ataca um grupo de humanos nos escombros de uma cidade, R consome o cérebro de um jovem e depois de partilhar as suas memórias apaixona-se pela namorada daquele, Julie. R leva Julie para o seu covil e protege-a dos outros zombies. Aos poucos as suas perceções mudam, o seu pensamento agiliza-se e R apercebe-se de que quer mais do que a vivência vazia que teve até ao momento... 

Este é um daqueles livros que pedem do leitor uma confiança total no autor, na história e nas personagens. Não nos é explicado o porquê da existência destas criaturas, o porquê do mundo ter entrado em colapso. Sabemos apenas que aconteceu. Provavelmente isto deve-se ao facto do narrador ser R e de R não ter memórias (nem nome).

Apesar das ocasionais cenas violentas e da premissa apocalíptica, Sangue Quente é como disse anteriormente, um livro sobre o que significa ser humano; como é mais do que meramente sobreviver, como é mais do que viver uma vida vazia e como o nosso pensamento crítico e filosófico nos distingue dos animais. R e os outros zombies regrediram de forma a que a maioria da sua humanidade deixou de existir, mas R, através dos seus sentimentos por Julie, começa a questionar esta forma de vida. O autor explora também o reverso da medalha, por assim dizer, deixando o leitor entrever o dia a dia dos seres humanos, fechados em fortes, também eles sobrevivendo, sem esperança.

No geral: mesmo não gostando particularmente da temática e mesmo achando que algumas partes do livro poderiam ter sido muito melhor exploradas, gostei de Sangue Quente. Foi uma leitura diferente, de um ponto de vista diferente do que é típico neste género de obras (ou filmes). Recomendado para quem gosta de fantasia urbana, não se importa com zombies e gostou de "Eu sou a Lenda" (o livro, não o filme).

4 comentários :

WhiteLady3 disse...

Talvez seja só eu mas
R e Julie = Romeu e Julieta ?

Romance entre zombie e humana é provavelmente proibido e daí serão star-crossed lovers mas pergunto-me se morrem no final... O_o

p7 disse...

Também não sou muito fã de livros ou filmes de zombies, talvez pela mesma razão que apresentas. Isso e a recente moda de romantizar zombies em livros YA. Mas pela tua review parece-me que vale a pena espreitar, pelo menos este livro. ;)

slayra disse...

WhiteLady: não és não, lol. Acho que é bastante óbvio e o melhor amigo do R é o M. Eheh.

Isto não é bem um romance. Não há promessas de amor e parvoíces. O romance é uma forma do R começar a utilizar as célulazinhas cinzentas. :P

P7: eu gostei do livro. Achei que era um bocado rebuscado e realmente tens de te render à ideia porque se vais céptica para a leitura encontras imensos buracos na história, mas acho que a originalidade ajuda. ^_^

WhiteLady3 disse...

I knew it! *self five!* E uau, por uma vez o romance faz pensar... costuma ser o contrário, os apaixonados a ficarem estúpidos e fazerem coisas idiotas. :P