22 janeiro 2014

Opinião: Ultraviolet (R.J. Anderson)

Ultraviolet de R.J. Anderson
Editora: Orchard (2011)
Formato: Capa Mole | 416 páginas
Géneros: Fantasia Urbana, Ficção Científica, Lit. YA/Juvenil
Descrição (GR): "Once upon a time there was a girl who was special.
This is not her story.
Unless you count the part where I killed her.
Sixteen-year-old Alison has been sectioned in a mental institute for teens, having murdered the most perfect and popular girl at school. But the case is a mystery: no body has been found, and Alison's condition is proving difficult to diagnose. Alison herself can't explain what happened: one minute she was fighting with Tori -- the next she disintegrated. Into nothing. But that's impossible. Right?"
AVISO: SPOILERS (muito pequenos).
Ultraviolet é um livro um bocado estranho, porque aparenta não saber bem o que "quer ser": se fantasia urbana, se ficção científica.

Depois de ler inúmeras críticas positivas a este livro, comprei-o (as críticas são a origem de muitas compras por impulso) e mais recentemente decidi-me finalmente a lê-lo, talvez porque achasse que necessitava de algo diferente e a protagonista deste livro, a Alison vive de uma forma realista o seu "poder" sobrenatural.

O livro abre com Alison a ser internada numa instituição psiquiátrica, depois de uma estadia num hospital onde esteve por ter tido um esgotamento nervoso, causado por ter morto uma colega de escola.

Alison sempre se considerou algo estranha porque as suas perceções sensoriais são diferentes das das outras pessoas: Alison vê sons e sentimentos, associa cores e personalidades a letras e com cheiros. Os seus sentidos formam associações diferentes e muitas vezes mais completas do que as das outras pessoas. É por isso que, quando Alison suspeita que causou a morte de Tori, a sua colega e rival, começa a pensar que realmente é louca e que deve estar internada... devido aos seus "poderes".

Apesar do início algo lento, Ultraviolet é uma leitura envolvente. Nunca tinha ouvido falar na Sinestesia antes e foi fascinante não só aprender sobre a mesma enquanto forma de linguagem e de expressão (utilizada principalmente na literatura), mas também ler sobre como a autora, R.J. Anderson, reformulou o conceito de forma a fazer com que a Sinestesia se tratasse, neste caso, de uma "condição" que faz com que as perceções sensoriais das pessoas que dela sofrem sejam diferentes.

O livro não tem propriamente a ação formulaica da maioria dos livros de fantasia urbana (seres sobrenaturais aparecem, heroína descobre que tem poderes, romance, etc, vira o disco e toca o mesmo); a maioria do enredo tem lugar em Pine Hills, uma instituição psiquiátrica para onde Alison é mandada para ser avaliada psicologicamente. Muitas páginas (a maioria, mesmo), são gastas a descrever os sentidos de Alison, as suas tentativas de racionalização relativamente ao que aconteceu com Tori, as suas lutas interiores e sua raiva contra a família, que a abandonou numa instituição.

Muitas páginas são gastas também na descrição da Sinestesia de Alison e à medida que esta compreende melhor a sua "condição", também o leitor sente o seu entendimento da mesma aumentar. 

Gostei bastante desta leitura. O mistério da morte de Tori, que segundo Alison, "se desintegrou" é um chamariz obviamente, mas não se torna o ponto fulcral do livro, o que para mim não foi mau de todo, pois estava a gostar bastante de saber mais sobre como a Alison vê e sente o mundo.

No entanto, a três quartos do livro, a história sofre uma reviravolta à qual não posso dar outro nome se não... mirabolante. Imprevisível, mas não no bom sentido de "nunca teria adivinhado mas faz sentido"; antes no sentido de "de onde é que a autora tirou isto?". Porque até três quartos do livro temos uma história de ritmo moderado, uma espécie de thriller psicológico com laivos subtis de elementos sobrenaturais... e de repente temos extraterrestres, portais galáticos à la Stargate e chips e experiências. 

Sem o leitor perceber bem como, quase no final do livro, a autora muda completamente a direção da história. E foi disto que não gostei, porque não há nenhum prelúdio, nenhum "foreshadowing" que dê sentido ao "twist" que vira este livro para a ficção científica. Num momento temos a Alison a explorar a forma como vê o mundo; e noutro ela vai atrás do seu psiquiatra misterioso (sim, temos um herói misterioso, mas isso ainda é o menos) e acaba por descobrir que existe um outro mundo, noutra ponta do Universo, onde seres que provavelmente têm antepassados em comum com os humanos estão a fazer experiências numa rutura no espaço-tempo que liga o planeta deles à Terra. A única ligação a esta surpreendente descoberta é a "morte" por desintegração da Tori, que, lembrem-se, esteve em segundo plano até ao momento.

Uma vez que esta reviravolta ocorre tão tarde no livro, a conclusão é apressada e pouco satisfatória. O ritmo torna-se frenético, a ação intensifica-se e a magia anterior da narrativa desfaz-se. 

Foi isto que me fez classificar o livro com três estrelas.

No geral, uma boa leitura, mas infelizmente não gostei muito da direção escolhida pela autora. A história transformou-se de forma abrupta e pouco realista. No entanto devo dizer que o livro é bastante interessante e merece uma leitura.

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