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10 maio 2018

Opinião: Verão em Edenbrook (Julianne Donaldson)

Editora: TopSeller (2018) 
Formato: Capa mole | 288 páginas 
Géneros: Romance histórico, ficção histórica 

OMG, uma publicação no blogue! Finalmente conquistei a minha preguicite (mas durante quanto tempo, I wonder)!

"Verão em Edenbrooke" foi uma leitura estranha para mim. Como consumidora ávida de romances históricos mais picantes, esta tentativa de Julianne Donaldson de criar algo mais "clássico", ao estilo de Jane Austen, falhou em imensos aspetos, que irei enumerar a seguir a uma breve descrição da ação.

Marianne Daventry é uma jovem de 17 anos proveniente da baixa nobreza (pelo menos é o que parece). Vive com a avó em Bath após a morte da mãe e de o pai ter "fugido" para Paris para suportar o desgosto. Foi, estranhamente, separada da irmã gémea, Cecily, que foi mandada para Londres.

Marianne aborrece-se em Bath, com a avó sempre a querer que ela se comporte "como uma senhora" e com o pretendente, cujo nome não fixei, mas que é mais velho do que ela e cujo único problema parece ser o de acumular demasiada saliva nos cantos da boca (de resto parece ser um cavalheiro simpático).

Por isso, quando a convidam para passar algum tempo em Edenbrooke, casa de uns amigos de família, Marianne sente-se feliz. Mas o problema é que vai ter muitos tête-a-tête com o anfitrião, o jovem (e belo) Sir Phillip.

Ora bem... o que dizer deste livro? Numa palavra: simplista. A escrita é fácil de ler q.b., mas Verão em Edenbrook tem muito pouco de original. Não só lhe faltam as cenas picantes, como as personagens principais são quase tiradas a papel químico dos famosos heróis de Jane Austen, Elizabeth Bennet e Mr Darcy.

Se não, vejamos: Marianne é um espírito livre (porque gosta de rodopiar e do campo), mas ao mesmo tempo uma senhora recatada e seguidora dos costumes que fica chocada com o facto da irmã trocar uns chochos com um ou outro pretendente. Esta parte moralista desagradou-me um bocado, mas pronto. Já Sir Phillip é um cavalheiro do mais alto gabarito com quem a heroína se dá mal logo de início e com o qual tem muitos debates acesos.

Mas se as características são semelhantes, faltam a Marianne e a Phillip o fogo dos seus modelos. São personagens muito superficiais e pouco desenvolvidas.

O enredo é bastante típico e parece que Donaldson decidiu meter tudo o que é cliché em romance histórico no livro: desentendimentos, mal-entendidos, salteadores, raptos, declarações fervorosas de amor... tudo acontece e mesmo assim, a prosa da escritora não consegue nunca dar-nos um sentimento de urgência, de calor; as emoções não saem do papel, não se concretizam.

No geral, uma leitura "meh". Acabei o livro ontem à noite e os pormenores já se desvanecem da minha mente. Houve algumas falhas de caracterização da época, alguma moralidade incomodativa e de nariz empinado e personagens que não ficam na memória. Poderia tecer muitos e muitos mais comentários à falta de desenvolvimento das personagens e do enredo, à superficialidade de todo o livro, às múltiplas situações que demonstram falta de conhecimento da época da Regência britânica e de como as pessoas se comportavam. Mas não vale a pena; basta dizer que as palavras que melhor caracterizam este livro são "superficial" e "simplista". Uma leitura rápida e, no final, agradável q.b., suponho.

Detalhes da versão original:
Título: Edenbrook
Ano: 2012

19 abril 2015

Opinião: Jovens Rebeldes (Edith Wharton)

Editora: Europa-América (1996)
Formato: Capa mole | 384 páginas
Géneros: Ficção histórica

(A edição lida está em inglês, mas apresentam-se os dados da portuguesa)

Edith Wharton foi uma escritora norte-americana nascida em meados do século XIX (faleceu em 1937), que escreveu diversas obras, sendo a mais famosa das quais (e também a vencedora de um prémio Pulitzer) "A Idade da Inocência" (The Age of Innocence).

Não sou muito de me forçar a ler clássicos; creio mesmo que, ao longo dos anos, adquiri uma espécie de aversão a tudo o que fosse livro classificado como "grande literatura" ou "clássico", por teimosia e porque não gosto muito de rótulos. Mas, se for sincera, é também um pouco por preguiça que não costumo pegar neste tipo de livros, que poderão, talvez, dar algum trabalho a ler e a absorver.

No entanto, a sinopse para esta obra de Edith Wharton interessou-me, pelo que, apesar de já ter visto a adaptação cinematográfica de "A Idade da Inocência" e achado que era demasiado dramática para o meu gosto, decidi ler, mesmo assim, este The Buccaneers ("Jovens Rebeldes" em português).

Este livro conta a história de quatro jovens americanas, filhas de duas famílias ricas (os St. George e os Elmsworth) mas ainda demasiado nouveau riche para poderem "entrar" na alta sociedade americana em Nova Iorque. Desanimada, Mrs. St. George segue o conselho da inglesa Laura Testvalley, precetora da sua filha mais nova, e leva as suas filhas para Londres, para tentar arranjar casamentos prestigiosos com aristocratas.

Os Elmsworth depressa seguem o exemplo e todas as quatro raparigas conseguem casar-se com partidos ricos. As raparigas St. George conseguem mesmo casar-se com aristocratas (Virgínia, a mais velha, com um herdeiro de um marquês e Annabel ("Nan"), com um duque.

Mas nem tudo são rosas... as raparigas, e especialmente Nan, em quem a história se vai focar, sentem-se como peixes fora de água no seio de uma sociedade alicerçada em tradições, rituais e na crença de que nada deve mudar.

Jovens Rebeldes explora as sociedades americana e londrina de 1870. As suas diferenças, como uma (a americana) tenta emular a outra (a inglesa) adotando uma visão elitista da riqueza: as antigas fortunas valem mais do que os "novos ricos", assim como em Inglaterra. Mas as diferenças são também exploradas, uma vez que as meninas St. George viajam para Londres; aqui vê-se, que apesar das tentativas de imitação, a sociedade americana não se rege pelos mesmos preceitos da inglesa. E que essa estranheza vai fazer com que os casamentos, pelo menos o casamento de Nan, não sejam felizes,

Gostei desta leitura. A autora consegue mostrar claramente as diferenças entre americanos e ingleses, o declínio do modo de vida inglês e como os aristocratas recusam a mudança, simbolizada pelas ricas herdeiras americanas que vêm para Londres para ganhar estatuto social, tanto nos Estados Unidos como na Inglaterra. O que não me agradou particularmente foi a falta de desenvolvimento das personagens, especialmente Nan e Guy.

Fiquei impressionada com a dimensão da tragédia que envolve Nan, o seu marido, o duque e Guy, porque não há realmente um vilão entre eles: apenas uma educação e valores ultrapassados pelo mundo real, decisões feitas sem todas as informações e um amor trágico (mas não demasiado trágico, o que me faria torcer o nariz). Mas, lá está, o problema foi não ter havido desenvolvimento das personagens. O de Guy é quase nulo, o de Nan é incipiente, e por vezes, não consegui sentir grande simpatia por ela, porque me pareceu uma personagem egoísta que não fez o mínimo esforço para tentar perceber a sua situação e mudá-la em vez de, simplesmente, se sentir sufocada.

Percebo que a ideia da autora poderá ter sido fazer com que as personagens representassem comportamentos, problemas e classes inteiros, mas, penso que poderia, ao mesmo tempo, ter feito algo para fazer com que o leitor se "ligasse" um pouco às personagens... para mim, isso não aconteceu.

Esta obra foi a última escrita por Wharton e ficou inacabada. A edição que li foi concluída por uma estudiosa de Wharton, Marion Mainwaring, e pareceu-me que esta última fez um bom trabalho. Mas, mais uma vez, não conseguiu tornar as personagens mais... humanas e menos conceitos.

No geral, uma boa leitura. Foi ótimo ler algo sobre a sociedade da época, escrito por quem a viveu e a escrita é bastante boa. Não consegui criar empatia com as personagens, mas gostei de ler sobre a minudências das sociedades inglesa e americana em meados do século XIX e ver como eram ao mesmo tempo semelhantes e diferentes, uma simbolizando o progresso mas tentando emular valores do passado e outra presa no passado, tentando resistir a uma mudança inevitável, mas entrando, ao mesmo tempo, em decadência.

02 abril 2015

Opinião: Uma Fortuna Perigosa (Ken Follett)

Editora: Editorial Presença (2015)
Formato: Capa mole | 568 páginas
Géneros: Ficção histórica

Só muito recentemente comecei a ler livros do Ken Follett (com uma notável exceção). Apesar da sua enorme popularidade, tanto internacional como em terras lusas, confesso que tenho algum receio de ler este tipo de autores super famosos, com inúmeros bestsellers em seu nome. Isto porque, geralmente, estes autores escrevem thrillers e livros de ação que, para mim, se revelam leituras muito semelhantes umas às outras e de uma forma que não aprecio particularmente. Exemplos são os livros de Dan Brown, que li uma vez e já não consigo reler e os de James Patterson, que não achei nada por aí além.

Suponho que não serão os meus livros de eleição. Mas Ken Follett escreve também ficção histórica e, depois de ter lido o famoso "Pilares da Terra" (e de ter gostado) e o primeiro livro da trilogia "O Século" (do qual gostei ainda mais), comecei a pôr este autor num patamar diferente dos Dan Browns e James Pattersons do mundo.

Quando saiu este novo livro (novo como quem diz... a versão original é de 1993), corri a comprá-lo, até porque, mais uma vez, se tratava de um romance histórico. E não fiquei desiludida.

Corre o ano de 1866 quando uma tragédia se abate na Windfield School, uma escola preparatória para a classe média e para a classe abastada composta por homens de negócios. Um rapaz de 13 anos é encontrado morto numa lagoa e, no centro do mistério estão alguns dos seus colegas: Edward Pilaster, filho de um rico banqueiro, Micky Miranda, filho de um rancheiro de Córdova, um país na América do Sul e Hugh Pilaster, primo de Edward, cujo pai tem uma fábrica de tinturas. O segredo do que aconteceu naquele dia em 1866 vai unir estas personagens ao longo das décadas seguintes, acabando por dar origem a um acontecimento de proporções devastadores, que quase destruirá a família Pilaster, na altura uma das mais ricas de Inglaterra.

O livro explora então a vida destas personagens, a sua relação e o clima de segredos que são perpetuados por Augusta Pilaster, a matriarca da família que tem, deixei-me dizer-vos, uma afeição quase obsessiva pelo filho Edward.

As personagens não fogem muito aos seus papéis predefinidos. Ou seja, vemo-las crescer, certamente, mas as características fundamentais de cada uma continuam sempre inalteradas: Hugh é o homem reto e honesto, cuja vida está repleta de adversidades, quer nos negócios quer no amor; e claro, é um génio banqueiro. Edward é o indolente, o permissivo, aquele a quem tudo lhe é dado em virtude do seu nascimento e que, no fim, toma decisões desastrosas. Micky é o encantador de serpentes, sedutor e manipulador. E temos Augusta, também manipuladora, que apenas se interessa em avançar a causa do filho, cega aos seus defeitos e que quer mover-se em círculos cada vez mais elevados. Achei que a sua personagem é algo irrealista porque Augusta não me pareceu burra e, no entanto, apesar de estar casada com um banqueiro e de conviver com banqueiros, não mede as consequências das suas ações no banco.

O enredo está cheio de intrigas, segredos, traições e todas essas coisas que fazem uma boa telenovela e lê-se de forma compulsiva.

Gostei também de todo o desenvolvimento do mundo. Follett dá-nos informações aprofundadas sobre o sistema financeiro da época, sobre como eram geridas as instituições bancárias, sobre quais eram as leis relativas à finança e sobre o panorama económico da segunda metade do século XIX. E claro, sobre a posição destas famílias, muitas vezes mais ricas do que os próprios nobres, numa sociedade de classes rígidas. Esta foi, para mim, a parte mais interessante do livro.

O romance pareceu-me bastante irrealista, o que não me incomodaria tanto se não fosse uma força motriz para a criação de tanto drama para a nossa personagem principal: Hugh Pilaster.

No geral, um livro que se lê muito bem mesmo e que é extremamente interessante. Recomendado para quem gosta de ficção histórica. 

20 março 2015

Opinião: The Diabolical Miss Hyde (Viola Carr)

Editora: Harper Voyager (2015)
Formato: e-book | 464 páginas
Géneros: Ficção histórica, steampunk, fantasia urbana

Decidi ler este livro depois de ver uma opinião muito positiva do mesmo no blogue Smart Bitches, Trashy Books. Pareceu-me uma transição interessante dos romances históricos que andava a ler para outros géneros (neste caso, fantasia urbana, steampunk e mistério), por isso arrisquei.

"The Diabolical Miss Hyde" é, sem dúvida, uma leitura multifacetada, que mistura diversos géneros e linhas de ação de forma mais ou menos coerente e eficaz.

Eliza Jekyll vive numa época vitoriana um pouco diferente da que conhecemos. Invenções diversas permitiram a utilização de eletricidade nas mais diversas máquinas, desde o sistema elétrico comum (iluminação de ruas e de casas), até meios de transporte (como o metro), entre outros. O estado parece também ser muito mais totalitário, com a Sociedade Real, uma organização dedicada à ciência e dedicada também a erradicar aquilo que considera crendices (magia, por exemplo) e "heresias científicas", a ter um comando quase total da sociedade.

No entanto, tal como na nossa época vitoriana, as mulheres são também consideradas seres inferiores. É por isso que Eliza encontra tanta contestação à sua ocupação: médica e médica legista.

Eliza tem também de ter muito cuidado com a Sociedade Real, porque ela tem um segredo sombrio: tal como o seu pai, Dr. Jekyll, também Eliza tem uma "sombra" ou segunda personalidade dentro de si: Lizzie Hyde, uma mulher desenrascada e sociopata. 

O livro abre com Eliza e o seu amigo inspetor da polícia (cujo nome não me lembro) a investigar um assassínio brutal de uma mulher. Remy Lafayette, um agente da Sociedade Real, aparece na cena do crime e Eliza pensa que finalmente foi descoberta.

Este livro foi certamente uma leitura interessante. Já tinha lido um livro que misturava steampunk com elementos do livro The Strange case of Dr. Jekyll and Mr Hyde de Robert Louis Stevenson, mas foi uma obra para jovens adultos e sinceramente não gostei assim muito.

Já este "The Diabolical Miss Hyde" tem todos os elementos para uma boa leitura: um mundo interessante e bem construído, um mistério horripilante, elementos sobrenaturais subtis e uma heroína carismática (mais Lizzie do que Eliza, no entanto).

 A autora foi parcialmente bem sucedida na construção deste livro que explora tantas vertentes. O seu mundo inclui dois lados opostos e aparentemente irreconciliáveis: um mundo mágico onde as crianças têm caudas de rato e as pessoas fazem magia e um outro mundo onde inovações tecnológicas e experiências científicas aprovadas são postas ao serviço da sociedade. É também um mundo à beira da revolução social e política.

Achei o mundo imaginado por Carr muito intrigante e bem conseguido. É descrito em termos claros (e muitas vezes num inglês mais das "classes baixas" pois é Lizzie quem fala) mas não deixa de ser fascinante e, talvez por ser apresentado de forma tão... crua, parece estranhamente realista.

As personagens de Lizzie e Eliza também me pareceram bem desenvolvidas e interessantes assim como Mr Todd, um assassino em série por quem Eliza tem uma paixoneta que se pode tornar mortal (Mr. Todd gosta de brincar com facas).

Este livro explora então estes mundos, as duas personalidades que vivem dentro de um só corpo e também um mistério, uma vez que Eliza é médica legista e está a investigar um crime. Na maioria das vezes, a autora consegue um equilíbrio mais ou menos balançado entre tudo isto; afinal, para desenvolver Eliza, Lizzie precisa de ter também tempo de antena e Eliza tem de ter alguma angústia emocional. O mistério é um pouco relegado para segundo plano e a resolução parece um bocado forçada, mas mesmo assim é um mistério intrigante.

A parte que mais sofreu, na minha opinião, foi a interação entre Eliza/Lizzie e o misterioso Lafayette. Isto porque Lafayette tem também os seus segredos, mas já se estava a passar tanto no livro que foi impossível fazer com que este personagem fosse mais do que um estereótipo do homem torturado e alfa.

No entanto e no geral, esta foi uma leitura extremamente satisfatória. Apesar da capa um bocado a pender para o boddice-ripper, este livro não se foca particularmente no romance (que, aliás, é quase inexistente, a não ser aquando das perturbadoras confissões de Mr. Todd), mas sim no desenvolvimento de personagens (quase sempre) complexas, de um mundo original e intrigante e de um mistério que fará as delícias de quem gosta deste género (especialmente mais na onda de "Mentes Criminosas"). Recomendado! 

06 março 2015

Opinião: O Miniaturista (Jessie Burton)

Editora: Editorial Presença (2015)
Formato: Capa mole | 412 páginas
Género: Ficção histórica

"O Miniaturista" é o romance de estreia de Jessie Burton e tem sido um sucesso de vendas nos EUA. Segundo a capa, foi considerado um dos melhores livros de 2014 pela Waterstones.

Foi, em parte, por isso que comprei este livro. As outras razões incluem a maravilhosa campanha de marketing, a bela edição portuguesa (abram o livro, I dare you) e, claro, a sinopse, que me pareceu bastante interessante.

Esta obra foi, nalguns aspetos, bastante interessante. Nunca tinha lido um romance histórico focado nos Países Baixos e como não sei muito sobre a sociedade da época na região, foi bastante intrigante ler sobre a mesma e a sua evolução política, religiosa, social e cultural, em alguns aspetos tão diferente da do resto da Europa.

O livro centra-se em Nella Oortman, uma jovem de 18 anos de uma família rural aristocrata mas empobrecida, que se vê subitamente casada com um rico mercador de Amesterdão, chamado Johannes Brandt.

Nella chega à sua nova casa sem nunca ter conhecido bem o marido (apenas se viram na cerimónia de casamento) e mal preparada para a vida na grande cidade. A adaptação revela-se difícil: o marido é distante, a irmã do marido é autoritária e amarga e os criados tomam demasiadas liberdades. Nella sente-se deslocada, sozinha e como se não pertencesse a lado nenhum e vai encontrar consolo na compra de miniaturas para uma pequena casa, réplica da sua nova casa, que Johannes lhe oferece, como prenda de casamento.

Encomenda algumas miniaturas a um misterioso profissional, que começa depois a mandar-lhe cada vez mais miniaturas, que parecem prever as tragédias e segredos com que Nella terá de lidar na sua nova vida. À medida que Nella procura conseguir a identidade do miniaturista, a sua vida e a sua nova família começam a cair numa espiral de intrigas e segredos negros que podem ter consequências muito graves.

O enredo deste livro tinha tudo para ser genial: uma jovem largada no seio de uma nova família rica e poderosa, parte da elite e aparentemente de bem, mas também com muitos segredos e intrigas à mistura. E, claro, temos o miniaturista, uma figura misteriosa que adiciona ainda mais mistério e alguma magia subtil à história.

Podia ter sido bom, sim. Mas creio que a execução deixa muito a desejar, possivelmente porque é o primeiro livro da autora (e nota-se). O problema, para mim, enquanto leitora, é que este livro deveria ter sido... mais atmosférico. Mais misterioso. Mais... mágico. Mas não foi.

A autora não conseguiu criar a atmosfera que o livro merecia. Não acreditei na "magia" do miniaturista. Os segredos da família não me deixaram de boca aberta, quer por serem demasiado óbvios, quer por terem, pelo contrário, aparecido de repente, sem qualquer explicação racional ou premonição. Nella não é uma personagem suficientemente interessante para sustentar a narrativa, pelo que não consegui ligar-me a ela e sentir algo quando ela descobre o que realmente se passa na sua nova casa. O resto das personagens pareceram-me igualmente sem sal e bidimensionais. 

Gostei, como já mencionei, de ler sobre a cultura dos Países Baixos no final do século XVII, sobre o facto da sociedade ser bastante puritana e do contraste que a autora faz entre estas mentalidades e a realidade de uma cidade governada pela ganância e pela riqueza. Mas aquela magia que esperava sentir, não está lá. 

No geral, uma boa leitura dentro do género do romance histórico. A escrita da autora é competente e mesmo de leitura compulsiva, por vezes, mas o enredo não foi desenvolvido e falta qualquer coisa ao livro para o tornar especial.

21 novembro 2014

Opinião: O Palácio de Inverno (Eva Stachniak)

O Palácio de Inverno de Eva Stachniak
Editora: Casa das Letras (2014)
Formato: Capa mole | 536 páginas
Géneros: Ficção histórica
Sinopse: "Quando Vavara, uma jovem órfã polaca, chega à ofuscante e perigosa corte da imperatriz Isabel em Sampetersburgo, é iniciada em tarefas que vão desde o espreitar pela fechadura até à arte de seduzir, aprendendo, acima de tudo, a ser silenciosa - e a escutar.
Chega, então, da Prússia Sofia, uma frágil princesa herdeira, a potencial noiva do herdeiro da imperatriz. Incumbida de a vigiar, Vavara em breve se torna sua amiga e confidente e ajuda-a a mover-se por entre as ligações ilícitas e as volúveis e traiçoeiras alianças que dominam a corte.
Mas o destino de Sofia é tornar-se a ilustre Catarina, a Grande. Serão as suas ambições mais elevadas e de longo alcance? Será que nada a deterá para conquistar o poder absoluto?" 
O Palácio de Inverno de Eva Stachniak retrata uma época e um país sobre os quais não li assim muito: o século XVIII e a Rússia.

A história foca-se na personagem de Varvara Nikolayevna (ou Barbara, o seu nome “verdadeiro” polaco), uma jovem filha de um encadernador polaco que se muda para a Rússia com a mulher e a filha e consegue obter alguns trabalhos no palácio da Imperatriz Isabel. 

Quando os pais morrem, Varvara é levada para o palácio como órfã protegida da Imperatriz e poderia ter tido uma vida normal a trabalhar no guarda-roupa imperial, se o chanceler da Imperatriz não tivesse reparado nela e começado a treiná-la como espia para a soberana. Varvara aprende a espiar, ouvir às portas, desencantar informações escondidas em escrivaninhas, baús e mesmo no soalho. Mas depois, conhece a jovem Catarina, noiva de Pedro, o herdeiro do trono e forma-se, entre as duas, uma amizade tanto terna como perigosa… pois Catarina tem muitos inimigos na corte, e Varvara é, no fundo, a espia de Sua Majestade.

Este livro está repleto de intriga, traição e tudo o que qualifica um bom livro deste género, que se foca numa corte europeia, cheia de sumptuosidade e liderada por uma mulher aparentemente fútil.

Não sei praticamente nada sobre a história russa deste período, envergonha-me dizer, exceto que Catarina, com o cognome de “a Grande” conduziu a Rússia a uma época dourada de progresso e riqueza. Este livro propõe contar a “(…) implacável ascensão de Catarina, a Grande, vista através dos olhos da jovem espia da imperatriz na Rússia do século XVIII.” mas, na verdade, Catarina, apesar de presente durante grande parte do livro, não é, na minha humilde opinião, nem de perto nem de longe, a personagem principal. 

O livro foca-se mais na imperatriz reinante, Isabel e na amizade entre Varvara e Catarina, mas esta última nunca é retratada como particularmente envolvida na política imperial (exceto quando a envolvem) ou como estando a maquinar algo. Esse conhecimento é-nos dado em retrospetiva, no final do livro: afinal Catarina era mais calculista do que pareceu durante as 500 páginas anteriores; o que faz (ou pelo menos fez, no meu caso) com que Varvara pareça especialmente parvinha, no fundo. Enganada por uma jovem mais nova e não treinada (como ela) nas artes da espionagem.

Este ponto incomodou-me, confesso. De resto, foi uma leitura interessante e envolvente como são a maioria das obras que se centram nas intrigas da corte numa determinada época. Foi muito interessante ver como funcionava a corte russa, como a Rússia se relacionava com o resto da Europa e a mentalidade dos nobres e da corte. Foi bastante intrigante perceber que na Europa Central e de Leste, as monarquias permitiam que as mulheres reinassem como soberanas, enquanto tal não era permitido na maioria das monarquias na Europa do Oeste.

O palácio a cair, a pompa sem sentido, as dívidas da Coroa. Tudo isto me fascinou enquanto amante de História.

No geral uma obra muito interessante do ponto de vista da ficção histórica. Pena que a personagem principal não pareça primar muito pela inteligência e que o enredo não se tenha focado assim muito na “ascensão de Catarina”. 

18 novembro 2014

Opinião: As Fadas de Edimburgo (Elizabeth May)

Editora: Planeta (2014)
Formato: Capa mole | 384 páginas
Géneros: Romance hist., Fant. urbana, Lit. Juv./YA, Ficção cient.
Sinopse: "Lady Aileana Kameron, a única filha do marquês de Douglas, estava destinada a uma vida cuidadosamente planeada em torno dos encontros sociais de Edimburgo - até ao dia em que uma fada assassina a sua mãe. Está determinada a encontrar a fada que lhe matou a mãe e, pelo caminho, vai destruindo todas aquelas que se alimentam dos humanos nas muitas ruelas escuras da cidade. O equilíbrio entre as exigências da alta sociedade e a sua guerra privada é, porém, delicado e, quando um exército de fadas ameaça destruir Edimburgo, ela tem de tomar algumas decisões. O que estará Aileana disposta a sacrificar?"
Já estou sinceramente a ficar farta de escrever opiniões más e “assim-assim”. Ok, eu adoro uma boa sessão de criticismo, especialmente quando o livro não me cativou e/ou chateou mas tudo o que é demais enjoa.

Acho que é esta uma das razões pelas quais não me tem apetecido escrever opiniões. Entre outras, claro, mas esta é importante.

As Fadas de Edimburgo, o primeiro livro de uma nova série “Young Adult” (ou juvenil), é uma mistura de romance histórico e de fantasia urbana. A protagonista, Lady Aileana Kameron é filha de um marquês e depois de uma ocorrência trágica em que a sua mãe morre às mãos de uma fada, Aileana alia-se, não sabemos bem como (nunca nos é explicado) a uma fada chamada Kiaran (um gajo bom e uma fada poderosa) para caçar, todas as noites, fadas malignas como a que matou a sua mãe. Estranhamente, no meio disto tudo, Aileana consegue fazer amizade com um duende (como são chamadas aquelas fadas tipo Sininho neste livro).

Ao mesmo tempo, Aileana tem de manter a sociedade, os seus amigos e o seu pai no escuro acerca das suas atividades.

Ai por onde começar? Talvez pelo conceito. Sim, este livro tem um bom conceito porque a) tem fadas (fae ficaria bem melhor, no entanto), b) steampunk e c) heroína kick-ass!

Mas não resultou porque… a autora falha redondamente tanto na caracterização, como no desenvolvimento do mundo.

Vejamos:
Esta Inglaterra de meados do século XIX parece ter algumas invenções e desenvolvimentos tecnológicos que não existiram realmente. Mas temos alguma razão para isto? Não, não nos é dada qualquer explicação sobre o surgimento de tudo isto. Ok, este é um livro juvenil, mas mesmo assim…

As fadas são seres que se alimentam da energia dos humanos. Mais do que isto, não se sabe. A caracterização destas personagens, tanto enquanto indivíduos como enquanto raça sobrenatural é escassa e a que há, pouco interessante. Porque é que as fadas querem sugar a energia dos humanos? Como eram vistas antigamente? Como estão organizadas? Nada disso se sabe.

Kiaran: é um verdadeiro estereótipo. Diz que não é humano mas comporta-se como tal. Não mostra assim muita emoção, mas isso não o torna diferente dos humanos, apenas um idiota. Não dá para ver como é que passou de ser completamente indiferente a "amar" a protagonista.

Aileana: apesar de ser uma heroína que dá porrada nos mauzões, não gostei particularmente dela. Para já é demasiado perfeita: bonita, rica, sabe construir coisas, etc. E claro que tinha de ser uma "escolhida" super, hiper, mega especial, uma "Falcoeira". Depois é demasiado convencida e antipática.

O romance pareceu-me ter pouco brilho e ser pouco realista. Apesar de Aileana e Kiaran terem “discussões” (nem lhes chamo debates com espírito, porque para isso seria necessário que houvesse conversa espirituosa), nunca senti nenhuma faísca entre os dois.

O enredo está mal desenvolvido, primeiro que tudo porque começamos logo a meio e certas coisas (muitas) não nos são explicadas. As relações entre as personagens já estão estabelecidas e são-nos explicadas através de flashbacks confusos. A história é bastante simplista e pouco interessante no geral.

No geral, uma leitura rápida mas menos intrigante do que previa. Gostaria que a história e as personagens tivessem sido melhor desenvolvidas e que os protagonistas não fossem tão... pouco interessantes.

04 novembro 2014

Opinião: A Queda dos Gigantes (Ken Follett)

Editora: Editorial Presença (2010)
Formato: Capa mole | 916 páginas
Géneros: Ficção histórica
Sinopse: "Ken Follett, esse grande mestre do romance, publica uma nova obra de grande fôlego histórico, a trilogia O Século, que atravessará todo o conturbado século XX. Neste primeiro volume, travamos conhecimento com as cinco famílias que nas suas sucessivas gerações serão as grandes protagonistas da trilogia. Mas não esgotam a vasta galeria de personagens, incluindo figuras reais como Winston Churchill, Lenine ou Trotsky, que irão cruzar-se uma complexa rede de relações, no quadro da Primeira Grande Guerra, da Revolução Russa e do movimento sufragista feminino. Um extraordinário fresco, excepcional no rigor da investigação e brilhante na reconstrução dos tempos e das mentalidades da época."
No ano passado li “Os Pilares da Terra” de Ken Follett e achei que o autor tinha bastante “jeito”, digamos assim, para a construção de personagens e para tecer uma boa história.

A leitura de “A Queda dos Gigantes” cimentou essa ideia. A estrutura é semelhante, uma vez que seguimos diversas personagens (desta vez, em diversos países) durante pouco mais de uma década, num século onde as mudanças sociais, políticas e mesmo económicas foram profundas.

O problema é que… não gosto especialmente desta época. A cadeira de “História contemporânea” foi das que menos gostei na faculdade. Não sei bem porquê, nunca me cativaram as guerras, as mudanças sociais e a emergência de novas potências ao nível mundial. Por isso, esta trilogia de Follett nunca esteve no meu radar.

Mas quando o livro me apareceu em casa (mais um daqueles raros, que não fui eu que comprei), decidi experimentar. A escrita de Follett tinha-me cativado no passado; talvez voltasse a fazê-lo. E fez.

Ken Follett conseguiu manter o meu interesse num livro sobre os inícios do século XX, uma das épocas históricas de que gosto menos, durante 900 páginas.

A história centra-se em cinco famílias diferentes, duas inglesas (ou galesas), uma americana, uma russa e uma alemã e tece com mestria uma tapeçaria dos inícios do século XX, da luta das classes operárias, das mulheres pela igualdade e das mudanças sociais e políticas que ocorreram em toda a Europa.

Ok, houve um pouco de caracterização exagerada da América como um país perfeito, mas de resto, Ken Follett conseguiu apresentar um retrato bem construído das profundas mudanças operadas na Europa e mesmo no mundo, através das vivências das suas personagens.

Personagens essas, que achei bem caraterizadas e interessantes. Walter, o alemão que se bate contra a guerra, Ethel, a sufragista, William o rapaz simples mas sábio e os seus pais, que representam as gerações mais conservadoras apesar do seu progressismo.

No geral, podia dizer muito sobre este livro, falar da época que abarca e das mudanças, tão importantes, que descreve (e para falar disso seria necessária alguma pesquisa). Mas não é esse o tipo de opinião que quero publicar; quero apenas dizer que este foi um livro do qual gostei bastante, apesar do tema não me entusiasmar muito, geralmente, e que é também um livro que recomendo sem reservas; uma ótima leitura dentro da ficção histórica.

19 setembro 2014

Opinião: As Estrelas Brilham na Cidade (Laura Moriarty)

As Estrelas Brilham na Cidade de Laura Moriarty
Editora: Editorial Presença (2014)
Formato: Capa mole | 367 páginas
Géneros: Ficção histórica
Sinopse.

Geralmente, a maioria dos livros de ficção histórica que leio, passam-se ou no século XIX (romances históricos daqueles mais sensuais... o que não quer dizer que não sejam o mais precisos possível, ao nível histórico) ou na Antiguidade, ou na Idade Média. A ficção histórica passada na "Idade Moderna", nos períodos das Grandes Guerras ou entre as Grandes Guerras nunca me interessou particularmente.

Mas este livro pareceu-me interessante. Uma das protagonistas era a estrela do cinema mudo Louise Brooks e pela sinopse, pensei que a sua acompanhante (ou chaperon, como lhe chamam no livro) iria acompanhar a viagem de Louise de uma forma ou de outra. Não tinha qualquer problema em ler sobre a jornada própria de Cora, a acompanhante... mas pensei que essa jornada estaria ligada de alguma forma à de Louise. O que não é verdade.

A verdade é que Cora é a protagonista. É uma mulher que por acaso teve de acompanhar a jovem Louise Brooks a Nova Iorque quando esta entrou numa escola de dança na "Grande Maçã", pois naquela altura as jovens mulheres solteiras não podiam andar sozinhas na rua, pelo menos em Wichita, no Kansas. 

Toda a narrativa se centra em Cora, nos seus problemas, no seu passado, nas suas angústias. Louise não passa de uma personagem muito secundária. E não haveria problema... se Cora tivesse uma vida minimamente interessante, sobre a qual desse gosto ler. Mas não. Na verdade Cora é uma mulher relativamente jovem que tem uma mente inflexível e pouca tolerância. 

Certamente que gostei de ler sobre as convenções sociais da época e sobre como tudo mudava tão depressa, as modas, os costumes sociais, e tudo o resto, de ano para ano. Como havia ainda um "gap" social vincado entre gerações e entre as cidades mais pequenas (como Wichita) e as grandes cidades como Nova Iorque.

E foi engraçado ler sobre algumas das mudanças operadas em Cora, fruto também da sua convivência com a muito mais jovem Louise.

Mas não foi nada engraçado ler tanto pormenor sobre um verão, que no final mudou Cora sim, mas não de uma forma assim tão vincada e depois ler cerca de 150 páginas que contam, a alta velocidade, o resto da sua vida.

E o enredo pareceu-me um bocado forçado, com o Joseph a ir viver para o Kansas e tudo o mais.

No geral, fiquei algo desapontada. Para quê escrever um livro sobre a vida desinteressante de uma mulher que foi acompanhante da famosa Louise Brooks, quando se podia escrever um livro sobre a Louise Brooks? 

Além disso, este livro tem problemas de ritmo narrativo bastante vincados. Mais de metade centra-se num verão passado com Louise em Nova Iorque, as últimas 150 páginas são o resto da vida de Cora, a protagonista do livro. Ok, ela aprendeu algumas coisas na sua convivência com outras pessoas e com Louise, mas sinceramente falta... glamour ao livro e especialmente às personagens. Um livro que se lê bem, mas que, na minha opinião, tem o foco errado.

Secção de bónus: porque é que a Louise Brooks está na capa, sequer? E, de cada vez que punha os olhos no livro a música "Quando cai a noite na cidade" começava a tocar na minha cabeça. Que raio de título!

17 julho 2014

Opinião: A Princesa Guerreira (Barbara Erskine)

A Princesa Guerreira de Barbara Erskine
Editora: Planeta (2011)
Formato: Capa mole | 670 páginas
Géneros: Mistério, romance contemporâneo, fantasia, ficção histórica
Descrição: "No limiar entre o sonho e a vigília, a loucura e a clarividência, duas mulheres separadas por dois mil anos de História partilham o mesmo segredo, nas encruzilhadas e labirintos de uma perseguição milenar.
Jess, professora em Londres, é vítima de um ataque de que não consegue recordar-se. Tudo indica que o agressor é um homem que a conhece bem. Assombrada pelo medo e pela suspeita, Jess refugia-se na casa isolada da irmã, na fronteira do País de Gales. O silêncio que procura é, porém, interrompido pelo choro de uma misteriosa criança.
A casa, a floresta que a cerca e o vale mais abaixo transportam ecos de uma grande batalha, travada dois mil anos antes. Ali caiu Caratacus, liderando a resistência das tribos da Britânia aos invasores romanos. O rei foi capturado e levado para Roma como prisioneiro, juntamente com a mulher e com a filha, a princesa Eigon.
Sentindo-se impelida a investigar a história de Eigon, Jess segue os seus passos até à Roma de Cláudio e de Nero, onde a princesa assistiu ao grande incêndio, presenciou a perseguição movida aos cristãos e privou com o apóstolo Pedro. Aqui, talvez o mistério da extraordinária vida de Eigon se desvende, ou Jess se abandone progressivamente à sua obsessão, arriscando uma proximidade crescente com o seu agressor."
Ora bem, por onde começar. Talvez pelas expectativas que tinha para este livro. Pela sinopse pareceu-me um livro bem ao estilo da Susanna Kearsley uma autora da qual li dois livros no ano passado e dos quais gostei. Estava à espera de uma narrativa que interligasse passado e presente de forma fluída, com personagens interessantes e uma descrição da época romana que me parecesse viva.

Em vez disso levei com uma história mal amanhada com personagens apenas superficialmente desenvolvidas, um século I d.C. apenas esboçado (e cheio de imprecisões históricas), um enredo confuso e uma dor de cabeça por revirar imenso os olhos (na verdade não, mas suspirei bastante.

Quando era criança, ensinaram-me uma anedota que não tem assim muita piada e que provavelmente não será a mais apropriada tendo em conta as circunstâncias do país (ou talvez seja ideal, quiçá), mas que me permite efetuar uma comparação semi-inteligente. Era mais ou menos assim: era uma vez uma família pobre; o pai era pobre, a mãe era pobre, os filhos eram pobres, o mordomo era pobre, a criada era pobre, o jardineiro era pobre... eram todos pobres.

E este livro é assim mesmo. Substituam "pobre" por confuso e terão este livro bem descrito. Era uma vez um livro... o enredo era confuso, as personagens eram confusas, a construção do mundo era confusa... era tudo uma confusão. Que se prolongava por umas dolorosas 670 páginas.

Então é assim. A nossa protagonista Jess (qualquer coisa) atrai as atenções de um estupor de um homem e infelizmente é violada depois de uma festa. Em vez de ir à polícia decide não contar nada a ninguém e despedir-se do emprego e fugir para a casa da irmã, nas remotas montanhas do País de Gales. Quando lá chega, percebe que o local está assombrado pelas filhas de um rei do século I d.C., chamadas Glads e Eigon. Sem sabermos bem como ela fica determinada a descobrir o percurso de Eigon, que foi levada como prisioneira para Roma, depois do seu pai, Caratacus ter sido derrotado. Esta empatia vem do facto de também Eigon ter sofrido às mãos de um legionário chamado Titus. O livro conta alternadamente a vida de Jess e de Eigon, que têm de fugir dos homens que lhes fizeram mal, em I d.C. e no presente.

Pareceu-me uma história bastante interessante. Não sei muito sobre a conquista romana da Bretanha (?) e na sinopse dizia que Eigon tinha assistido ao incêndio de Roma no tempo de Nero e privado com S. Pedro! Claro que achei altamente!

Mas... enfim, não foi tão impressionante como eu pensei que ia ser. Não consegui sentir empatia por nenhuma das personagens, apesar das suas terríveis experiências. A maioria do livro é preenchido por acontecimentos corriqueiros, especialmente nas partes de Eigon. Jess vai ficando cada vez mais enredada na vida de Eigon acabando (bem cedo no livro) por abandonar a sua racionalidade e pondo inclusive a sua vida em perigo (o homem que a magoou continua atrás dela) só para descobrir o que se passou com Eigon.

As partes de Jess são ligeiramente mais interessantes, mas também há muito recurso a cartas de tarot e a guias espirituais que sinceramente não me pareceram muito vertentes muito bem exploradas (e quando exploradas, foram-no de forma um bocado para o... piroso).

Isto para já não falar da construção do mundo. Jess viaja do País de Gales para Roma mas nunca temos descrições que nos permitam imaginar os cenários. O mesmo se passa na época de Eigon; Roma e Bretanha são descritas de forma incipiente e muitas vezes com pouca precisão. Hades, o deus grego do Submundo é adicionado ao panteão romano, por exemplo e Jesus Cristo está já divinizado para os cristãos, quando nesta época ele era geralmente considerado um profeta e não tanto "o filho de Deus". Até a região celta e o druidismo são explorados apenas de forma superficial.

Nem me façam começar a falar das personagens. Já referi que Eigon e Jess são desinteressantes; o mesmo se passa com o resto do cast das personagens; os amigos e família de Jess são quase indistinguíveis uns dos outros, o interesse amoroso é irritante (e nem sequer quase se percebe como é que as personagens se apaixonam... só estão juntas para aí umas três vezes!) e os vilões são vilões só porque sim. Não há qualquer profundidade nas personagens.

No geral, um livro fraquito. A narrativa não flui bem entre os momentos de presente e passado, as personagens são pouco interessantes, a descrição do mundo deixa a desejar e a leitura torna-se por vezes aborrecida. Por tudo isto, A Princessa Guerreira (que nunca pega numa arma durante todo o livro, creio) não resultou para mim. Recomendo Susanna Kearsley e Diana Gabaldon para quem quer ler livros do género.

23 junho 2014

Opinião: Amores Secretos (Kate Morton)

Amores Secretos by Kate Morton
Editora: Suma das Letras (2014)
Formato: Capa mole | 564 páginas
Géneros: Mistério/thriller, Romance histórico
Sinopse.

"Amores Secretos" (em inglês, "The Secret Keeper") é a minha estreia com a autora Kate Morton, uma autora que, pelo menos pelo que me parece, é bastante popular em Portugal. Talvez tenha sido por isso que adiei tanto a leitura dos livros de Morton; quando se criam expectativas, quando se quer gostar de um livro e se procura sentir a magia que tantos outros leitores já sentiram... bem, isso condiciona a leitura e enche um leitor de algum receio.

Felizmente, com Kate Morton, não me senti defraudada como já aconteceu com tantos outros autores famosos. Este livro foi uma leitura interessante, por vezes compulsiva e por vezes mais calma, mas sempre envolvente.

"Amores Secretos" foca-se numa família inglesa aparentemente normal. A matriarca, Dorothy, com 90 anos, sofre de Alzheimer. Os filhos reúnem-se para celebrar o seu aniversário.

No entanto, nem tudo é o que parece. Laurel, a filha mais velha de Dorothy foi a única a presenciar um acontecimento traumático: em 1961, com apenas 16 anos, viu a mãe assassinar um desconhecido. E agora, com a mãe às portas da morte, Laurel decide que está na altura de desvendar o mistério desse crime horrível. A mãe não lhe será de grande ajuda, devido à sua condição, mas com algumas pistas e meias lembranças, Laurel consegue obter uma imagem do passado e perceber o que se passou.

Como já disse, uma leitura interessante. Não é tanto um livro de mistério como um romance histórico que se centra em acontecimentos passados durante a 2.ª Guerra Mundial. As personagens não são tanto Laurel e os irmãos mas sim Dorothy, Vivien e Jimmy, jovens dos anos 40. A autora pinta um retrato trágico e melancólico destes três jovens numa época em que existia bastante desespero.

O desenvolvimento das personagens é bastante realista e interessante. Dorothy é a anti-heroína perfeita e Vivien e Jimmy são heróis torturados igualmente perfeitos... até que deixam de o ser. Confesso que, apesar de ter percebido a menos de meio do livro o que se tinha passado e qual era o grande "segredo", gostei de seguir as personagens, de ler sobre os seus pensamentos, dúvidas e sonhos. Foi sem dúvida Dorothy que mais me interessou; a sua personalidade carismática mas algo sombria pareceu-me tão humana e sincera, e um contraste tão bom relativamente a Vivien, que, no fundo, achei que era ela a personagem principal.

Comparativamente às personagens dos anos 40, as do presente (2011) não foram particularmente bem desenvolvidas; nem mesmo Laurel, a "protagonista" dos capítulos do presente.

O enredo não é propriamente complicado, mas é intrigante e a aura de mistério e tragédia (estamos em Londres, na 2.ª Guerra Mundial) que envolve a narrativa torna-a chamativa. Certamente que a guerra é pouco mais do que o pano de fundo e que a narrativa se foca na vida doméstica das personagens mas mesmo assim este acontecimento permeia a vida dos protagonistas de forma mais ou menos despercebida, mas nem por isso menos significativa.

No geral, "Amores Secretos" foi uma boa leitura. Fácil de adivinhar, certamente, mas com personagens carismáticas, uma descrição histórica soberba e uma escrita fluída, foi uma leitura quase compulsiva. Estou com vontade de ler mais.

10 junho 2014

Opinião: Noite Sobre as Águas (Ken Follett)

Noite Sobre as Águas by Ken Follett
Editora: Bertrand (2011)
Formato: Capa mole | 528 páginas
Géneros: Mistério/Thriller, Ficção Histórica
Sinopse.
Bem... não me pareceu assim muito misterioso, este livro. O mistério propriamente dito (se é que se pode considerar isto um mistério) só tem lugar nas últimas duzentas páginas do livro e é bastante simples e fácil de adivinhar. De thriller, este livro não tem assim muito.

"Noite sobre as Águas" tem lugar em 1939 e conta a história fictícia do voo de um avião de luxo que a Pan American utilizava para transportar os seus passageiros mais ricos através do Atlântico. Temos um conjunto de personagens que lembra realmente um pouco aquelas que nos são apresentadas por Christie em "O Crime no Expresso do Oriente"; basicamente os ricos e os ociosos, misturados com alguns novos ricos e indivíduos da classe média.

A primeira parte do livro desenvolve algumas das personagens que terão mais protagonismo no enredo. Temos Margaret, filha de um marquês fascista, Harry Marks, um ladrão de joias, Diana Lovesey, uma mulher pouco satisfeita com a sua vida e outros. Estas personagens vão formar a teia de intriga e enganos que culminará a bordo do avião (Clipper). E algumas das personagens são efetivamente interessantes, especialmente Margaret com as suas ideias feministas e socialistas e Hartmman o físico judeu fugido da Alemanha. Follett explora com mestria os choques ideológicos que tiveram lugar na Europa nesta altura através das suas personagens.

E é por isto, na minha opinião, que este livro vale. Como disse anteriormente, o mistério é bastante "morno" e simples. Não há nesta parte da história qualquer traço de genialidade. São as personagens e as suas interações que dão vida a esta obra.

No geral, um livro agradável mas nem de perto nem de longe tão bom como outros que já li do autor. Não o consideraria um thriller, per se, e definitivamente não o compararia à obra de Agatha Christie.

17 março 2014

Opinião: Unequal Affections (Lara S. Ormiston)

Unequal Affections by Lara S. Ormiston
Editora: Skyhorse Publishing (2014)
Formato: Capa dura | 352 páginas
Géneros: Romance histórico
Descrição: "When Elizabeth Bennet first knew Mr. Darcy, she despised him and was sure he felt the same. Angered by his pride and reserve, influenced by the lies of the charming Mr. Wickham, she never troubled herself to believe he was anything other than the worst of men--until, one day, he unexpectedly proposed.Mr. Darcy's passionate avowal of love causes Elizabeth to reevaluate everything she thought she knew about him. What she knows is that he is rich, handsome, clever, and very much in love with her. She, on the other hand, is poor, and can expect a future of increasing poverty if she does not marry. The incentives for her to accept him are strong, but she is honest enough to tell him that she does not return his affections. He says he can accept that--but will either of them ever be truly happy in a relationship of unequal affection?
Diverging from Jane Austen's classic novel Pride and Prejudice at the proposal in the Hunsford parsonage, this story explores the kind of man Darcy is, even before his "proper humbling," and how such a man, so full of pride, so much in love, might have behaved had Elizabeth chosen to accept his original proposal."
Primeiras impressões: Esta senhora tem uma cara muita creepy. Mas pronto.

Sendo eu uma grande fã do clássico Orgulho e Preconceito, foi com altas expetativas que abri este livro, intitulado Unequal Affections: A Pride and Prejudice Retelling. Tal como o nome indica, este livro explora uma vertente diferente da obra mais famosa de Jane Austen, pegando num acontecimento e mudando os subsequentes de forma a responder a um dos muitos "E ses" que cada leitor formula depois de terminar uma obra.

Neste caso, Lara S. Ormiston, pega na primeira proposta de Mr. Darcy, em Hunsford e imagina o que teria acontecido se Elizabeth Bennet a tivesse aceitado em vez de a recusar. Embora a premissa me tenha parecido um pouco contra a personalidade da personagem (pois Elizabeth criticou a sua amiga Charlotte por se ter casado por "razões mercenárias"), resolvi abstrair-me deste facto e ver o que a autora faria com esta premissa. Afinal, avizinhava-se um casamento arranjado e o meu casal fictício favorito estava envolvido... o que mais podia querer?

Devo dizer que gostei bastante desta leitura. Ormiston explora em profundidade os temperamentos de Mr. Darcy e de Elizabeth Bennet sem que eles tenham sofrido a reviravolta que Austen lhes dá, após Hunsford, no livro original. Elizabeth aceita a proposta de Darcy e ambos terão de conviver durante o período de noivado.

Isto significa que o orgulho e intransigência de Darcy, sem o inflamado discurso que Elizabeth profere no livro original, continuam intocados e é através de conversas e convívios que Elizabeth e Darcy se começam realmente a conhecer enquanto pessoas. É fascinante ver como Mr. Darcy é um homem bem intencionado mas orgulhoso e que a sua maneira de ser acaba por ofender a Elizabeth. É também bastante interessante ver como Elizabeth ajuda Darcy a conhecer-se a si próprio e a tornar-se menos inflexível. Por outro lado, Elizabeth aprende que Darcy não é tão horrível como ela pensava, sendo até um bom homem. E sente-se culpada por ter aceite a proposta e por o estar a magoar, e por ter traído os seus princípios.

Não vou dizer que gostei mais deste livro do que de Orgulho e Preconceito, até porque são obras diferentes. Mas tenho de admitir que o facto de Mr. Darcy não ter mudado da noite para o dia e de o casal ter tido de se conhecer muito melhor antes de Elizabeth se apaixonar foi refrescante.

No geral, uma reformulação da obra original de que gostei bastante e que recomendo a qualquer fã da obra.

09 março 2014

Discussão: The Mysterious Death of Miss Austen (Lindsay Ashford)

A White Lady do Este meu cantinho e eu arriscámo-nos a mais uma leitura conjunta. Desta vez, o livro escolhido foi "The Mysterious Death of Miss Austen" (A morte misteriosa de Miss Austen), um livro que esperávamos que fosse um mistério histórico. Eis as nossas impressões.

The Mysterious Death of Miss Austen de Lindsay Ashford
Editora: Honno Press (2011)
Formato: e-book | 320 páginas
Géneros: Ficção histórica, Mistério/Thriller
Descrição (GR): "When Jane Austen dies at the age of just 41, Anne, governess to her brother, Edward Austen, is devastated and begins to suspect that someone might have wanted her out of the way. Now, 20 years on, she hopes that medical science might have progressed sufficiently to assess the one piece of evidence she has - a tainted lock of Jane's hair. Natural causes or murder? Even 20 years down the line, Anne is determined to get to the bottom of the mysterious death of the acclaimed Miss Austen."
ATENÇÃO: Alguns Spoilers

WhiteLady: Woohoo! Nova leitura conjunta! A ver se não me acontece o mesmo que nas duas anteriores, em que não acabei os livros, mas devo dizer que não está famoso! xD Ainda só li 10% e já revirei um pouco os olhinhos. Fiquei com curiosidade quando no GR colocaste o status “As subtle as a train, so far. :P” e realmente quando comecei a ler verifiquei que subtileza não há. Parece haver, no entanto, é muito wishful thinking, daquele que fangirls fazem na medida em que se imaginam a ser importantes ou musas de escritores e actores *sonha acordada com o Tom Hiddleston* mas a autora parece mais do género “eu ajudei a Jane Austen a escrever uma peça de teatro… perdão, queria dizer a minha personagem… a minha personagem ajudou e pode ter desenvolvido outro tipo de relação…” Também há tell em demasia, nada de show, “eu fiz isto, a Jane fez aquilo, a Fanny escreveu isto”.
Jane Austen (1775-1817)
Fonte

Mas isto é as minhas impressões ao fim de, como disse, 10% do e-book.

slayra: Tive as mesmas impressões, deixa lá (nope, não é nada subtil a autora pois não?). Não sei bem a percentagem do livro que li porque a minha versão tem mais páginas do que as listadas no GR, mas até agora não me parece nada de especial. O motivo que se avizinha para o “assassinato”... erm… é pobrezito. O_O Mas bem, a escrita é muito viciante. :/ De qualquer modo não estou a ver bem como a direção da narrativa está a ajudar a solucionar o “mistério”. A autora passa mais tempo a analisar os sentimentos da protagonista pela Jane Austen do que a desenvolver o tal motivo que levará à “misteriosa morte da Miss Austen”. Mas pode ser que melhore. 

O mistério está a parecer-te interessante? Para o discutir, tenho de escrever alguns SPOILERS: Li agora cerca de metade e tudo o que a protagonista tem são suspeitas… ela suspeita que o Henry seja um mulherengo e que tenha uma prole de filhos ilegítimos com as mulheres dos irmãos… sinceramente não sei se valeria a pena matar por isto? Mas também, convém ter em conta a época, suponho. Seria um escândalo doido.

O que me está a agradar mais neste livro é a escrita. Acho que é… envolvente. 
Godmershan Park (Kent), casa de Edward Austen Knight,
irmão de Jane Austen (Fonte).

White_Lady: Realmente, apesar de não gostar assim tanto da escrita, ela é verdadeiramente viciante, ainda que não tenha sido capaz de vencer o meu sono, mas vai daí, poucos autores conseguem vencer o meu sono. O meu problema com a escrita é o tell em vez do show, mas acredito que seja difícil mostrar mais quando a narradora é a protagonista. E uma protagonista self-absorbed que passa mais tempo a suspirar pela Jane e a conjecturar coisas do que propriamente a tomar decisões. Mas yay que lá tomou uma e estou a ler as consequências disso! \o/ Basicamente vou a meio do livro. :P

E não, o mistério não é de todo interessante porque parece tão óbvio! Aquilo quase que não são suspeitas, são factos. Parece que só estão à espera que realmente o Henry ou a Elizabeth gritem aos berros “SIM, ANDAMOS A FAZER FILHINHOS NAS COSTAS DE TODA A GENTE!” O_o Se dá em escândalo, sem dúvida, mas sem ADN e testes de paternidade, seria assim tão difícil ludibriar os outros e dizer que Jane e Anne Sharp estariam erradas? Afinal de contas o Henry é irmão do Edward… Assumo que os dois sejam bastante parecidos, aliás a autora alude várias vezes a como Henry e Jane são parecidos. Mesmo que Edward e Henry não sejam a cara chapada um do outro haverá parecenças, a não ser que um deles também seja apenas meio irmão do outro, terá Mrs Austen andado a brincar aos médicos com outro para além do Mr Austen? :/ Não estamos propriamente a falar dos Lannisters loiros e dos Baratheon morenos… E se isto é válido para matar, epá acho que não, porque lá está parece-me fácil desmentir as duas se Henry e Elizabeth não forem apanhados em flagrante, mas espero que haja uma reviravolta qualquer.

Mas continuando a falar em escândalo, na altura as mulheres tomavam banho de mar despidas?! O_o Entendo os homens, tinham mais liberdade e tal, mas as mulheres? Nem sequer uma camisa quando até em casa era tudo tapado? Acho um pouco demais e algo vanguardista para a Jane Austen tomar banho despida… E a protagonista a pensar se a Jane está solteira pelo mesmo motivo que ela?! Props para a autora por fazer a sua protagonista, aparentemente, ter mais que uma girl crush pela Austen, ainda que com a subtileza de um elefante numa loja de cristais! Acho que talvez seja até mais por isto que estou a ler, não que ache que a Jane corresponda aos sentimentos, mas por explorar (ainda que muito superficialmente) como seria a vida de uma moça atraída por outras moças.

Okay, até agora pensava que era só com a Elizabeth, afinal ele anda com duas cunhadas... *massive eye roll*

slayra: Não faço ideia relativamente a tomarem banho despidas. Mas como era num espaço completamente fechado, talvez? Sempre pensei que, pelo contrário, tomassem banho vestidas. 
Página da primeira edição de
Orgulho e Preconceito (Fonte)
Sim, a exploração desse lado da vida no século XIX até pode ser interessante e como as pessoas viam a sexualidade, como entrava a religião nisto tudo e tudo o mais (mas a autora nem sequer vai por aí), mas tendo em conta que isto é um mistério, esperava que se focasse noutra coisa (como por exemplo, no mistério). :P Acho que há muita angústia por parte da protagonista, toda “Oh woe, a Jane não gosta de mim, choro, ranho, ai ela tocou-me no braço que felicidade, já posso morrer feliz.” E lá mais para o fim torna-se verdadeiramente “creepy” com a protagonista a falar com o fantasma da Jane. Ugh. Obsessive, much? E o mistério, hein? Esse que se lixe. Este livro devia chamar-se “A minha história pessoal com Jane Austen, em que ela eventualmente morre numa idade perfeitamente normal para a época mas que eu acho estranho”. :P

Esse Henry é um safado. Anda com as gajas todas. Mas como disseste, não estou a ver que seja motivo para homicídios. Mas pronto, é ler até ao fim, porque é só no fim (nas últimas 90 páginas, talvez), que o livro se começa a focar no tal mistério que nos prometeram. E o meu e-book tem 403 páginas. 403!

White_Lady: 403? O meu tem 298… O_o E LOL para o título. xD Mas realmente isto é wish fulfillment na sua máxima expressão, parece uma fanfic em que o OTP é Eu/Autora. É interessante ver o que a Jane Austen, figura e livros, cria à sua volta: filmes, retellings (com ou sem zombies e criaturas marinhas), fanfics com o seu nome ou personagens… O dinheiro que ela poderia ter feito em royalties em vez de andar a contar tostões e mudar de casas em Bath! :P

slayra: Bastava ter vivido noutra época e estaria milionária! Seria o equivalente da JK Rowling ou da EL James.  xD Sim, realmente. O que me incomoda acerca do livro é que estas pessoas existiram mesmo. E são personalidades relativamente recentes. A autora do livro está a imputar-lhes falhas muito graves, acusando-os de adultério e assassínio. Sei que é apenas ficção, mas faz-me um bocado de espécie. E o tom “Woe be me” da protagonista também não ajuda. No fundo muito pouco acontece em todo o livro. Temos a protagonista, a Jane Austen, a família da Jane Austen e dias passados a ensinar crianças, a tomar conta de pessoas idosas e em Bath. E só quase no fim é que se fala realmente do mistério. Enfim, não digo que não tenha gostado do livro qb, mas não é nenhuma maravilha… :P

White_Lady: Peço imensa desculpa estar a demorar tanto a ler, mas cansaço! Realmente, só agora (cerca de 75% do livro) é que a coisa parece estar a ganhar ímpeto. E posso dizer o quanto o tempo, os anos que passam, me está a fazer confusão? É que de um momento para o outro parece que passaram 10 anos! O_o

Sim, as falhas de carácter também me estão a fazer comichão e diga-se que nem a Jane Austen se escapa. Eu sei que a autora está a tentar fazer passar a veia crítica da autora em relação à sociedade devido às suas obras e para fazer a personalidade da Jane sobressair como independente e mais moderna que as restantes, mas ontem enquanto lia pareceu-me mesquinha. :/ Só tem coisas boas a dizer da nossa protagonista *revira olhinhos* e, eventualmente, da sua irmã Cassandra.

slayra: No problem. Pois é, o tempo no livro é irregular… e sim, a Jane é um bocado mazinha algumas vezes.

Também me pareceu que o livro se centra em coisas muito triviais e não no mistério… é uma sinopse enganadora.

Então e agora que acabaste o que achaste? No geral? Eu confesso que me senti bastante aliviada, a angústia emocional do livro estava a deixar-me cansada. Teria gostado de um maior ênfase no mistério, talvez porque era disso que estava à espera. :/

Anne Hathaway e James MacAvoy em
Becoming Jane.
White_Lady: Este foi um livro com altos e baixos, e mesmo os altos nunca chegam a ser tão altos assim. Sim, é um livro que cansa, não sei se pela angústia da protagonista ou por ela não ser minimamente interessante. É sempre alguém que observa de longe, faz assumpções com base no que vê e “acha que pode ser” sem realmente ir à procura de factos, esperando que os outros acenem com a cabeça para lhe darem ou não razão. E isso foi chato. Felizmente, quando se torna ativa, isto é quando confronta as pessoas, vê-se uma personagem mais assertiva, que teria sido muito mais interessante de acompanhar.

Também esperava que o mistério tivesse maior destaque mas acaba por ser uma consequência da verdadeira história do livro e por isso com muito pouco mistério à volta. E meu deus, serial killer não?! O_o A certa altura pensei “vão cair todos que nem tordos, não fica Austen para contar a história”. xD

No geral, não me convenceu. A história é minimamente interessante mas a caracterização das personagens deixa muito a desejar.

slayra: Também achei que a protagonista tem os seus momentos, mas são poucos. Ela é, no geral, muito passiva perante os acontecimentos. E o culpado não é assim tão difícil de determinar, por isso suponho que se ela se dedicasse sempre ao mistério, o livro não chegaria às 300 páginas.

De qualquer modo foi o primeiro livro que conseguimos terminar as duas e achar minimamente interessante… será que as leituras conjuntas vão por um novo caminho? xD Gostei mais ou menos.

White_Lady: LOL xD Vai melhorando a cada livro que lemos juntas. :D

20 fevereiro 2014

Opinião: Mataram a Cotovia (Harper Lee)

Mataram a Cotovia de Harper Lee
Editora: Relógio d'Água (2012)
Formato: Capa mole | 340 páginas
Géneros: Ficção histórica
Descrição (GR): "Durante os anos da Depressão, Atticus Finch, um advogado viúvo de Maycomb, uma pequena cidade do sul dos Estados Unidos, recebe a dura tarefa de defender um homem negro injustamente acusado de violar uma jovem branca. Através do olhar curioso e rebelde de uma criança, Harper Lee descreve-nos o dia-a-dia de uma comunidade conservadora onde o preconceito e o racismo caracterizam as relações humanas, revelando-nos, ao mesmo tempo, o processo de crescimento, aprendizagem e descoberta do mundo típicos da infância. Recentemente, alguns dos mais importantes livreiros norte-americanos atribuíram grande destaque ao livro, ao elegerem-no como o melhor romance do século XX."
Nunca sei o que dizer quando gosto de um livro. E quando se trata de um livro que é considerado um clássico, há ainda a dificuldade acrescida de podermos ter uma interpretação "errada" ou de darmos uma opinião pouco popular ou pouco erudita.

Por isso decidi que vou apenas escrever sobre o que eu retirei desta obra; desta história. Ou seja, esta será uma opinião completamente pessoal e subjetiva. Não irei fazer conjeturas acerca do valor literário deste livro ou sobre qual foi a mensagem que a autora quis passar porque não sou nem especialista na matéria nem a autora. Por isso vou apenas escrever sobre aquilo que retirei da história.

Jean Louise Finch é uma jovem como qualquer outra. Vive com a família numa pequena vila no sul dos Estados Unidos. A família não é pobre nem é rica. É remediada. O pai, Atticus, é um procurador. Jean Louise, também apelidada de "Scout" tem uma infância igual à de tantas outras crianças das classes trabalhadoras nos anos 30 do século XX. Uma vida algo difícil devido à depressão. Uma vida em que a moralidade social ditava, tal como atualmente, como as pessoas deviam pensar e tratar-se umas às outras.

Mataram a Cotovia acompanha a jornada de crescimento de Scout, a forma como começa a compreender as subtilezas da vida em sociedade. Como perde, de certa forma, a sua inocência na maneira de pensar quando é confrontada com a "lógica" ilógica da regras sociais.

Penso que esta obra é, como tantas outras, uma obra sobre a natureza humana. Certamente que se centra muito na mentalidade racista que persistia (e persiste ainda) nos Estados Unidos, uma vez que um dos acontecimentos mais marcantes do livro é o julgamento de um homem de cor, acusado de violar uma mulher branca. Scout e o seu irmão Jem aprendem muito acerca de como as pessoas se veem umas às outras e como a descriminação cega pode custar a hipótese de uma vida decente e mesmo a vida às pessoas.

Mas penso que esta obra não se limita apenas a denunciar esta vertente da sociedade. Penso que aponta as falhas desta num sentido mais geral, que denuncia as barreiras imaginárias sociais e "morais" e que fazem com que as pessoas tratem outros de forma diferente: a cor da pele, a classe social, a educação e mesmo o temperamento (aqui estou a pensar em Boo Radley, também muito maltratado pela sociedade, tanto que se tornou um eremita).

O livro mostra-nos que não somos assim (Scout, Jem e Dill imitam os adultos mas não têm noção do quão injustos estão a ser), mas que nos tornamos assim. Que a educação social é repressiva e nos molda de forma a perpetuarmos a forma como vemos o mundo. Até Calpurnia achava que devia uma deferência especial ao patrão e aos seus filhos.

Por outro lado penso que o livro também nos mostra que as pessoas, apesar de terem comportamentos errados não são completos vilões. A maioria das personagens secundárias, aquelas que no fundo são racistas e intolerantes não são por isso pessoas horrorosas. Apenas condicionadas pela sua educação e sem se conseguirem libertar da sua maneira de pensar; mas muitas sabem, no fundo, que estão erradas.

O livro não cai em extremos. A autora poderia ter descrito os habitantes de Maycomb como monstros racistas, mas no fundo, como já disse anteriormente, são pessoas assustadoramente normais. E todas elas (até mesmo as pessoas de cor) contribuem para a perpetuação do racismo.

Mataram a Cotovia é um grito contra a intolerância em geral, em todas as suas formas contra a forma como nos mantemos confinados numa sociedade com a qual discordamos. 

Podia falar sobre a narrativa, que é simples e fácil de seguir, com uma linguagem tipicamente sulista (penso eu), e sem floreados. Podia falar sobre como a narrativa de Scout por vezes parece demasiado adulto para os seus sete anos. Mas isso não importa, porque a força da história faz com que esses pormenores sejam insignificantes, mesmo que fossem defeitos e não formas de adicionar encanto ao livro. 

Em suma, gostei. E é por isso que não estou a fazer assim muito sentido.

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