22 junho 2012

Opinião: O Senhor da Luz (Roger Zelazny)

O Senhor da Luz de Roger Zelazny
Editora: Gollancz (2010)
Formato: Capa Mole | 284 páginas
Géneros: Ficção Científica, Fantasia
Descrição (GR): "In a distant world gods walk as men, but wield vast and hidden powers. Here they have made the stage on which they build a subtle pattern of alliance, love, and deadly enmity. Are they truly immortal? Who are these gods who rule the destiny of a teeming world?

Their names include Brahma, Kali, Krishna and also he who was called Buddha, the Lord of Light, but who now prefers to be known simply as Sam. The gradual unfolding of the story shows how the colonization of another planet became a re-enactment of Eastern mythology." 
AVISO: Contém Spoilers.
Há alguns anos atrás recomendaram-me um livro que adorei: Terra, Campo de Batalha de Ron L. Hubbard. Independentemente da religião do autor (a qual desconhecia por completo quando me recomendaram esta leitura), foi uma obra que me cativou. A imaginação do autor fez-me ler o livro todo em apenas alguns dias.

Actualmente não leio assim muitos livros do género, mas numa das minhas visitas à FNAC encontrei este livro, "Lord of Light" e a sinopse interessou-me, apesar da minha relutância em ler ficção científica "clássica", digamos, por medo que as máquinas e a tecnologia em geral me pareçam 'datados'.

Mas, enfim, "Lord of the Light" pareceu-me interessante, apesar de ter sido publicado nos anos 60 do século XX. E, bem, o George R.R. Martin considera este livro, uma das "cinco melhores obras de FC alguma vez escritas". Por isso, claro que veio para casa comigo.

Comecei a leitura com algumas reservas (pela razão já apontada), mas escusava de me ter preocupado. Contrariamente ao que acontece com obras de FC mais recentes, "Lord of Light" não se apoia na descrição de um futuro altamente tecnologizado. De acordo com a época em que foi escrito, o livro parece focar-se mais em aspectos políticos e sociais. O que me agradou imenso, devo dizer.

Num futuro incerto, num planeta distante, existe uma sociedade onde os deuses andam entre os homens. Krishna, Kali e outros deuses, que o leitor reconhecerá da mitologia hindu, controlam os destinos da Humanidade. Mas um deles, o misterioso Senhor da Luz (conhecido por muitos nomes, sendo um deles, Buda) decide insurgir-se contra este estado de coisas.
Quem são estes deuses, que ditam as regras deste mundo? Quem é o Senhor da Luz?

"Lord of Light" é um livro escrito de forma episódica. O primeiro capítulo abre no presente, quando um grupo de insurgentes decide 'trazer de volta' o deus rebelde conhecido como Senhor da Luz ou, como ele prefere ser chamado, Sam.

A partir daí começa a odisseia de Sam, que mais uma vez se propõe tentar salvar a Humanidade do jugo de um grupo de deuses ambiciosos. Mas o livro não é uma mera exposição da presente luta de Sam; outros capítulos levam-nos a diferentes ocasiões no passado e descrevem as tentativas fracassadas do nosso herói, de destronar os tiranos.

A verdadeira genialidade deste livro só se tornou clara para mim quase um dia depois de o acabar. Enquanto o estava a ler, apesar de ter gostado do enredo e das personagens, estava um bocado irritada com o facto da narrativa parecer fragmentada e de o autor parecer ter descurado imensos pormenores importantes na construção do seu mundo.

Só depois de terminada a leitura é que me apercebi que o leitor tem, de certo modo, a 'tarefa' de rearranjar a informação de modo a que se torne coerente. E que quase todos os factos importantes acerca do desenvolvimento desta sociedade (uma colónia humana) estão lá. Com excepção, talvez (e digo talvez porque esta parte me pode ter escapado) de como é que os humanos se esqueceram que possuíam tecnologia avançada, uma vez que todos eles são descendentes dos colonos originais. Os "seres" indígenas do planeta também me pareceram ter alguma falta de caracterização.

Outro aspecto que me criou dificuldades aquando da leitura, mas que em retrospectiva me pareceu genial (não me ocorre outro adjectivo, de momento) foi a escrita. Todo o livro está escrito de uma forma estranha, algo datada (mesmo para os anos 60), como se fosse... um texto religioso, uma fábula ou uma epopeia.

Algumas personagens carecem de caracterização, como já referi acima, mas gostei do facto de o nosso protagonista, Sam, ser provavelmente americano (o seu nome significa América e adequa-se) e apesar da sua veia heróica ter alguns motivos escondidos (ou seja não é um herói perfeito).

A forma como as mulheres são retratadas no livro incomodou-me um bocado; são relegadas para segundo plano, descritas como fracas ou como desejando ser mais masculinas (ou mesmo homens). Pelas diversas situações descritas no livro (os haréns, o facto de só um homem poder estar à frente do panteão), é óbvio que as mulheres são consideradas inferiores. Creio que isto se deve um pouco à época em que foi escrito, mas não desculpa inteiramente esta descrição.

No geral, penso que "Lord of Light" é uma obra muitíssimo bem conseguida em termos de tom, de enredo e de personagens. O facto de não se centrar em tecnologias ultra avançadas e entrar um pouco no domínio da fantasia faz com que seja um livro que pode ser lido em todas as épocas. O autor consegue ainda tocar em assuntos como a religião e a opressão e ordem sociais. Um clássico portanto. Recomendado.

5 comentários :

WhiteLady3 disse...

Devias mesmo ler Os Despojados da Ursula K. Le Guin... E emprestar-me este. :D

slayra disse...

Lol, sabes qual é o maior obstáculo? É que não sei onde é que isso está e só de pensar nos livros que vou ter de andar a tirar das estantes (os destas colecções estão em fila tripla) para lá chegar... e livros cheios de pó (ao qual eu sou muito alérgica). E sure, empresto-te. Não sei se tenho a versão pt, posso perguntar, mas a inglesa tenho. ^_^

WhiteLady3 disse...

LOL Se precisares de máscaras por causa do pó, acho que as tenho. :D

Moça, art thou joking with my person? Estou a ler Shakespeare, ando a rullar muito no inglês. :D

slayra disse...

Eu também cá tenho. E luvas. É mesmo só a preguicite aguda. :P

Noes, I arth noest. xD Podias não querer ler em inglês, só te estava a dar opções. Nesse caso, quando quiseres ler pede, que te empresto.

WhiteLady3 disse...

Eu leio em qualquer língua que perceba. :P Depois havemos de combinar coisas. ;)